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Teatro brasiliense se mantém firme mesmo em tempos de realidade virtual

O palco tem o poder de transformar e provocar a reflexão do público

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postado em 07/11/2016 07:30 / atualizado em 05/11/2016 15:02

Isabella de Andrade - Especial para o Correio

 

Arquivo Pessoal

 

Reinventado e transformado ao longo de sua própria história, o fazer teatral se legitima como importante caminho de expressão cultural e social através do tempo. O espaço cênico, em seu exercício cotidiano de encontro ao presente, possibilita o trabalho com a criação de novos mundos e contribui para desenferrujar padrões e percepções fixadas sobre si mesmo e o lugar onde se vive. Questionado, muitas vezes, pelo alcance a plateias menores, o teatro se reafirma como a arte do instante e do encontro, provocando novas ideias e percepções. As possibilidades cênicas se reinventam a cada dia, saindo em busca de espaços não convencionais, ocupando ruas, casas e becos.

A atriz Adriana Lodi é uma das grandes representantes do teatro feito no Distrito Federal e conta com mais de 20 anos dedicados a criação cênica. Conhecida por seu empenho ao ofício e por sua dedicação em preparar novos atores na cidade, Lodi acredita que as experiências estéticas de fruição com o teatro, a música, a poesia, as artes performativas em geral, podem sensibilizar os sujeitos a criar espaços de reflexão, de ação e de transformação política e social.

Para ela, algumas experiências estéticas promovem uma vertigem, deslocamentos; alguns autores e obras suscitam até mesmo uma transformação física, um atravessamento emocional incontrolado, uma alteração na nossa percepção sensível, redesenhando trajetórias. “O teatro é um espaço-tempo de encontro real e no presente, e esse encontro, por si só, já é político quando promove encontros e afetações entre os sujeitos envolvidos”.

O teatro se reafirma como um ponto de expressividade que parece nunca perder o seu lugar, principalmente por ser da ordem do encontro, da presença. A cena teatral brasiliense vem desde sua origem, ocupando galpões, auditórios, corredores, praças, escolas, ônibus e até banheiros. Adriana Lodi conta que o teatro, desde seu primeiro contato, afetou e alterou suas organizações. “Arrebatou o meu olhar para a potência de estar num coletivo e provocou uma disponibilidade, antes tímida, para o encontro com o outro e com as coisas do mundo”, conta.

Um dos exemplos mais potentes desta transformação para a atriz foi numa apresentação do Cabaré das donzelas inocentes, em Recife, direcionado para as profissionais do sexo. “Após a apresentação tivemos a oportunidade de ouvir depoimentos potentes dessas mulheres emocionadas por estarem pela primeira vez diante de suas próprias histórias e por isso diante de si mesmas”.

 

 

Thiago Sabino/Divulgacao

 

Forma e utopias

Rodolfo Godoi é ator e mestrando em sociologia, e busca um diálogo entre o poder transformador da arte e a sociedade. O ator destaca a crença de que o teatro tem o poder de construir mundos e dar corpo e forma a utopias. Além de promover novas realidades, o teatro carregaria a possibilidade de revelar o mundo em que vivemos, como uma lupa de aumento. “O teatro pode ser espelho da realidade. Mas não no sentido de mostrar como ela é, e sim por mostrar que a vida como a vivemos pode ser modificada. O instante de verdade da cena desconstrói as verdades que temos do mundo”, afirma. Essa característica é fundamental para que as discussões levantadas extrapolem os fatos e apresentem novas saídas possíveis do ponto de vista político e social. O teatro é uma arte milenar, presente em diversas culturas, em tempos e espaços distintos da história humana, sendo que a experiência da cena viva é só dela.

O ator e produtor cultural Jonathan Andrade é parte do grupo de artistas que movimentam constantemente a cena cultural da cidade. Ele afirma que o teatro é indissociável do aspecto político e social e que essa relação pode acontecer a partir de diversas camadas e provocações. A primeira delas seria justamente a camada do corpo e da identidade de um indivíduo em encontro de expressão, reverberando sua própria voz e visões de mundo. “Talvez seja esse um dos legados mais potentes e necessários nos tempos em  que vivemos: um corpo abraçar-se na liberdade de se expressar, entendendo as múltiplas e variadas individualidades e visões de mundo que existem. Para isso, é preciso pertencer-se”. A arte expande as perspectivas de tempo e espaço quando devolve ao sujeito a possibilidade ser dono disso tudo,  sendo agente criador da própria história.

Uma das maneiras mais eficientes do teatro provocar mudanças é não dando resposta a nada, apenas levantando questões.  É a partir desta afirmação que o ator e dramaturgo Alexandre Ribondi constrói sua relação com a criação teatral. “O homem é um animal gregário, somos seres sociais. Então, o teatro, como outras manifestações artísticas, tem que refletir essa condição, porque não conseguiríamos sobreviver sozinhos”. Para ele, o teatro, mesmo com um público mais reduzido que o cinema a televisão, tem que instigar, lançar dúvidas inteligentes sobre qualquer certeza autoritária.

 

 

Rodolfo Godoi destaca ainda que o teatro não é uma instituição, mas uma prática, presente nas ruas, galerias, salas de aula, praças, ônibus e nos palcos. O ator lembra que no DF os aparelhos culturais estão concentrados nas áreas centrais, sendo que a criação nas demais regiões se reinventa como pode. “Essa tem sido uma grande lição do teatro do DF.  A invenção insiste e persiste. Onde foi impedida ela corrói como ferrugem pelos cantos e pelas frestas”.

Para ele, uma cidade que não pode se ver nos palcos, nas telas ou nas galerias está fadada a ver outros palcos, telas e quadros. Valorizará o que é de fora e depreciará o que é de dentro; estará colonizada culturalmente. O teatro é uma experiência necessariamente coletiva e entre os aspectos importantes de experimentar este espaço está o acesso a um momento de suspensão no fluxo cotidiano maçante.

Enquanto isso, o ator Jonathan Andrade lembra que espaços culturais vivos em uma cidade geram memórias e legitimam afetos comuns entre cidadãos e espaços públicos. “O teatro é líquido. Ele sabe, como o povo, o que é ser margem, ter pouco incentivo e ter que lutar para existir. Essa força encontra qualquer circunstância para transformar. Ao mesmo tempo que há luta para garantir esse direito, tão básico e essencial como saúde e educação. Cultura é saúde e educação”, destaca. Uma cidade com mais teatro, cultura e arte é menos violenta, é mais criativa e menos preconceituosa, sendo que a perspectiva da arte é a pluralidade de diálogos, de olhar as realidades.

“O teatro é um espaço-tempo de encontro real e no presente, e esse encontro, por si só, já é político quando promove encontros e afetações entre os sujeitos envolvidos”
Adriana Lody, atriz e diretora teatral

“O teatro pode ser espelho da realidade. Mas não no sentido de mostrar como ela é, e sim por mostrar que a vida como a vivemos pode ser modificada”
Rodrigo Godoi, ator e mestrando em sociologia

“O homem é um animal gregário, somos seres sociais. Então, o teatro, como outras manifestações artísticas, tem que refletir essa condição”
Alexandre Ribondi, ator e diretor teatral

 

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