Escritoras transformam em livro as experiências em outros países

Alice Watson, Mariana Carpanezzi e Gabriela Goulart contam como viagens a transformaram em novas mulheres

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postado em 08/11/2016 07:33 / atualizado em 08/11/2016 17:20

Arquivo Pessoal

A sensação de liberdade ao colocar o pé na estrada e conhecer novos mundos sem a previsibilidade da rotina é o que as impulsiona a trilhar sempre novos caminhos. As novas perspectivas e descobertas proporcionadas por algumas viagens ao redor do mundo levaram Alice Watson, Mariana Carpanezzi e Gabriela Goulart a transformarem em literatura as suas experiências. Nas páginas, o desejo de conhecer diferentes culturas e o anseio por viver um pouco de cada novo lugar. Entre elas, a unanimidade de que cada viagem tem o poder de transformar ou proporcionar confiança e autodescoberta.

Mariana Carpanezzi percorreu, de bicicleta, França, Espanha e Portugal. A trajetória durou 100 dias e deu origem ao livro O mundo sem anéis, que foi escrito e ilustrado durante nove meses em diferentes países, a partir de um bloquinho de folhas amassadas e um saco cheio de pastilha de aquarela e de nanquim. “As viagens são uma espécie de respiração para mim. Tenho muita dificuldade de criar raízes e rotinas num só lugar, tenho vontade de ir embora e realmente viver em vários lugares”, conta a escritora.

Carpanezzi destaca que a experiência confirmou sua vontade de partir e a fez sentir mais como ela mesma. O livro surgiu como algo natural, com um convite feito pelo selo brasiliense Longe. A inclinação para escrever apareceu com a percepção de que as descobertas da viagem precisavam ser traduzidas à sua maneira. “Sempre me dá vontade de nunca mais voltar.”

Ao resolver sair para pedalar com uma amiga Mariana tinha a intenção de viajar por apenas 15 dias, mas ao final de duas semanas, não conseguiu voltar para casa. “Quando comecei a viajar de bicicleta e experimentar a sensação de só passar pelas coisas, sem ficar em lugar nenhum, senti uma liberdade incrível. Aquela era a minha casa: uma partida eterna. Perceber isso foi fazer as pazes comigo mesma”.

O livro não foi escrito em narrativa convencional e linear. Ao longo das páginas a escritora conta suas memórias emocionais, encontros com gente nova, sensações de falta. “Quis escrever sobre a viagem a partir do processo de memória, ele acaba parecendo um pouco um diário, porque é minha forma mais natural de escrita. Minha linha de pesquisa é explorar minha própria identidade em narrativas confessionais.”

Arquivo Pessoal

Enquanto isso, Gabriela Goulart, autora do livro Depois das monções, conta que sempre buscou trabalhos que lhe proporcionassem esses deslocamentos que criam oportunidades de se reinventar. “Todo viajante tem algo de criança que tem que reaprender, observar, experimentar. A viagem tem essa mágica de rejuvenescer e lembrar que a gente pode se encantar com o cotidiano”. A autora passou um ano em Bangalore, no sul da Índia, e durante os primeiros cinco meses viveu em um bairro tradicional, sem contato com outros estrangeiros. Em um encontro com outros amigos que queriam compartilhar suas estranhezas provocadas por viagens, foi criado o selo Longe, que hoje reúne oito livros. As publicações são diversas mas têm em comum a provocação típica de viagens, de tornar estranho o que era familiar, observar o outro, olhar para si mesmo.

Um blog alimentado por suas experiências durante aquele tempo foi um dos pontos mais importantes para que ela não se isolasse e continuasse a se comunicar com o lado de cá. “Escrever já era, então, meu alento, mas tudo muito leve e com filtros que deixavam a realidade parecer mais divertida e pitoresca. Quando voltei é que surgiu a ideia do livro a partir do encontro com outros viajantes, amigos que também haviam saído de Brasília e duvidavam se caberiam de volta no quadrado”. Gabriela conta que o livro Depois das Monções é sobre esse turbilhão de emoções incontroláveis que acontece quando alguém se joga em um país desconhecido.

Convivência
Seguindo um caminho diferente, Alice Watson já partiu para sua viagem entre a Bolívia e o Peru com a ideia de escrever um livro. Com uma mochila nas costas e dois meses de viagem a autora criou o Guia do mochileiro, que realizou um desejo antigo de escrever um guia que trouxesse o olhar de um viajante independente, que interage e respeita o meio ambiente e a cultura do local. Para a escritora e jornalista, viajar é uma oportunidade de se conectar consigo mesma e com os outros.

“Conhecer a comunidade local é mais do que turismo, é uma experiência antropológica”, afirma. O percurso durou 45 dias e foi trilhado em companhia de dois cadernos que serviam como diário de bordo. “Contei minha história em forma de relato, de forma bem sincera e divertida.”


Para Alice, o ser humano tem a possibilidade de se modificar não apenas a cada viagem mas, principalmente, quando aprende a se relacionar com as experiências cotidianas. O que muda durante o tempo de viagem é a abertura a novos aprendizados, que acabam por ficar banalizados durante a correria da rotina. “Uma sensação que tenho é a de que não preciso de tanta coisa para ser feliz, que a vida pode e deve ser mais simples. A principal lição da viagem é a descoberta de que não importa aonde você for, nem a cultura, religião, raça, o que vamos encontrar é seu semelhante, um ser humano que merece ser respeitado em sua integridade e que pode ter mais afinidade contigo do que seu vizinho de porta”, afirma a autora.

A viagem trouxe à tona um sentimento de querer transformar o mundo contando a história das comunidades receptoras, em geral, negligenciadas pelas empresas de turismo.“Essas pessoas tinham uma vida que foi impactada com a chegada dos turistas. Quis questionar: Como era essa vida? A decisão de abrir para o turismo teve a participação da comunidade? O que pensam sobre os turistas?”. A vontade principal era a de dar voz para aquelas comunidades e despertar outros olhares sobre as atividades turísticas.

Cuidado sempre
Enquanto muitas mulheres deixam de viajar sozinha por medo ou insegurança, as escritoras afirma que viajar é libertador para ambos os sexos. Para Alice Watson alguns cuidados devem ser tomados, como estar sempre atenta ao que acontece ao seu redor. “Nunca me aconteceu nada de mal viajando sozinha. É libertador não conhecer ninguém e ser quem você é”, afirma. Mariana Carpanezzi conta que nunca se sentiu desprotegida e sempre toma os cuidados necessários. “Tenho a sorte de ter nascido em uma família que nunca fez nenhum tipo de diferença entre homem e mulher. Tenho um irmão quase da mesma idade e sempre brincamos das mesmas coisas, éramos pessoas e ponto final. Adoro ser mulher, mas dificilmente coloco os gêneros em campos separados. Acho que a gente pode ser um pouco de tudo, sem fronteiras.”
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