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Correio Braziliense

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A maldição do Teatro Nacional: espaço prossegue sem data para abertura

Interditado desde 2014, o principal palco da cultura brasiliense se tornou refém do descaso por décadas. Sem previsão oficial de reabertura, o espaço deve permanecer fechado por pelo menos mais dois anos

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postado em 13/11/2016 07:00 / atualizado em 13/11/2016 10:51

Adriana Izel , Rebeca Oliveira /

 

O cheiro de urina é perturbador. Latas amassadas recobertas por manchas negras revelam que o local é um ponto de usuários de crack. Espalhados pelo sistema de escoamento de água, na área externa do local, papéis sujos com o timbre do governo federal se misturam a restos de peças de roupas puídas pelo tempo. Um morador de rua se aproxima, com uma atitude ameaçadora diante da reportagem — recentemente, um cadáver foi encontrado carbonizado nas imediações. Esse antro, a 4,9km do Palácio do Buriti e a 3,6km do Palácio do Planalto, já foi o principal palco da cultura brasiliense, recebendo 100 mil pessoas por ano. Hoje, é uma ruína, culpa de anos de descaso e desleixo das autoridades.

 Daniel Ferreira/CB/D.A Press

Com a construção iniciada ainda 1960, a conclusão do Teatro Nacional Claudio Santoro até hoje não aconteceu, ao contrário. A impressão é que o espaço tem uma maldição que o impede de se consagrar entre os grandes teatros do mundo. O prédio sucumbiu à burocracia e à outras “prioridades” de governantes desde os anos 1990, principalmente. O mais recente fechamento ocorreu em fevereiro de 2014 após uma determinação do Ministério Público do Distrito Federal e do Corpo de Bombeiros, que consideram que a deterioração das instalações era perigosa para o público e para os funcionários. Foram apontadas 112 especificações que o Teatro Nacional precisava cumprir para garantir a preservação da vida dos frequentadores, acessibilidade do local e combate a incêndio. Além disso, até hoje, o espaço cultural, inaugurado 18 anos após o início da construção, e que já fechou diversas vezes (veja quadro), não possui o habite-se e nem alvará de funcionamento.

Em 2014, o projeto executivo de reforma e restauração feito pelo escritório de arquitetura e engenharia Acunha Solé Associados, do Rio Grande do Sul, estava pronto. A estimativa inicial da proposta licitada em 2013 era que custasse R$ 180 milhões. Em novembro deste ano, o secretário de Cultura, Guilherme Reis, estimou que o valor aumentou, e, atualmente, corresponde a R$ 260 milhões.

Em entrevista ao Correio, Antonela Solé, diretora-executiva da Solé Associados, disse que a empresa trabalhou com um orçamento cheio e que poderia desmembrá-lo para iniciar a restauração do teatro por partes. “Este valor contempla o restauro e toda a modernização cênica. Quando o projeto inicial foi feito, ele tinha a intenção de ter um elevador de palco com diversas paradas. É um equipamento extremamente sofisticado e que equivale a grande parte do valor do projeto. O nosso norte era o máximo, mas é possível desmembrar e trabalhar por etapas”, reconhece.

Apesar de ter sido entregue no mandato passado, o projeto, que trata de uma restauração em cima de obra de Oscar Niemeyer, teve de passar por modificações ao longo do tempo e está em tramitação final para avaliação do Corpo de Bombeiros.

 

Breno Fortes/CB/D.A Press

Exigências
“Estava muito inseguro, com muitas coisas fora da norma. Era um perigo continuar usando o teatro”, afirma Antonela Solé. Entre os riscos, ela cita a escada do foyer, que não possui corrimão e, por isso, não cumpre as exigências, e o acesso ao Espaço Dercy Gonçalves (o terraço). “A solução da escada é deixá-la como um elemento do foyer e criar escadas normatizadas, que não atrapalhem a arquitetura do local. O espaço Dercy Gonçalves tem diversas condicionantes, como o problema de acesso e a saída de emergência”, completa. Para Antonela, é possível executar a obra por seções, como escolher trabalhar por salas (leia a linha do tempo). “Nossa prioridade é devolver para a sociedade”, afirma.

A entrada do foyer é a única que não está fechada. Vigiado constantemente, o lugar, que antes servia a exposições e até desfiles de moda, virou um espaço fantasma. Pode-se identificar os jardins de Burle Marx (que continuam sob os cuidados da Novacap) e as esculturas O pássaro, de Marianne Perretti, e A contorcionista, de autoria de Alfredo Ceschiatti. Mas apenas isso. Fotografias são proibidas — uma frustração diária para os turistas que visitam o local. Era frequente a presença de estudantes de arquitetura e até noivas que, por ali, faziam os álbuns de casamento, reiterando a ligação afetiva com um dos símbolos maiores da cidade.

As salas Villa-Lobos, Martins Pena e Alberto Nepomuceno são limpas diariamente, segundo a Secretaria de Cultura. Na falta de manutenção estrutural, um dos vidros que recobre o espaço está quebrado há um ano e foi substituído por um tapume improvisado de madeira. A reportagem não teve acesso ao interior do teatro, mas constatou que apenas um segurança cuida do espaço, em um esquema de revezamento de trabalho, segundo ele, de 12 por 36 horas. Entretanto, a Secretaria de Cultura informou que 10 profissionais se encarregam da função, cinco de dia e cinco à noite, localizados na entrada de cada sala.

O fornecimento de energia está desligado. A água só está disponível em alguns pontos. Improviso é termo ideal para definir a segurança da suntuosa edificação de 45 mil metros quadrados, que o torna o maior conjunto arquitetônico projetado por Niemeyer. A começar pelas entradas laterais, que foram fechadas com tapumes, pedaços de madeira e até com um carrinho de compras.

Residentes em Salvador, a pedagoga Ludmila Kulhavy, 48 anos, e o filho, o engenheiro Erik Kulhavy, 26 anos, não imaginavam que a única imagem que guardariam do Teatro Nacional seria a da fachada externa degradada pela poeira, com pichações e lixo por toda parte. “É uma arquitetura fascinante e que está abandonada. Há pouco, avistamos uma pessoa que me pareceu perigosa. Isso passa um aspecto negativo da cidade”, lamenta a turista Ludmila. Ela conheceu o espaço em 2014 e esperava apresentá-lo ao filho. Não desta vez.

 

Arquivo Público do Distrito Federal e Territórios

Entre idas e vindas 

 

Obra mais demorada da construção de Brasília, o Teatro Nacional Claudio Santoro possui um histórico de fechamento e intervenções para reformas. Algumas levaram mais de 10 anos para acabar.


1960
Em 30 de julho, começam as obras de construção. O prazo de entrega era 30 de janeiro de 1961. O painel de Athos Bulcão que reveste as laterais externas é iniciado, mas só é finalizado seis anos depois, com o nome O sol faz a festa. Segundo a Fundação Athos Bulcão, é a maior obra que integra arte e arquitetura no Brasil, com 127m por 27m. Um ano depois, a estrutura fica pronta, mas as obras são interrompidas por cinco anos.

1966
No aniversário da cidade, a Sala Martins Pena é inaugurada. Entretanto, não fica aberta ao público por muito tempo. 

1979
De volta da França, onde estudou música clássica, o maestro Claudio Santoro funda a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional e, em 6 de março, inaugura a nova etapa da obra com grande concerto. Dez anos depois, o músico morre de enfarte no pódio do teatro que, no mesmo ano, é batizado com o nome do maestro (Lei nº 378, promulgada em 1º de setembro).

1981
Depois de uma série de reformas, a versão “completa” do teatro é finalmente aberta, com todas as salas (Villa-Lobos, com 1.300 lugares; Martins Pena, com 400 lugares; e Alberto Nepomuceno, com 95 lugares) mais anexo com administração e sede da Fundação Cultural, além de galerias.

2000
Com capacidade para 300 pessoas e vista para a Esplanada dos Ministérios, o Espaço Dercy Gonçalves é inaugurado. A área útil é de 500 m², situada na cobertura do teatro.

2008
A reforma, desta vez, se concentra na limpeza do painel externo de Athos Bulcão, que estava com manchas de corrosão das estruturas de metal das barras de aço que os ancoravam. Sete anos antes, mais uma obra: desta vez, patrocinada pelo Banco do Brasil, em que foi feita a impermeabilização das vigas e correção nos pontos de entrada de água.

2014
É fechado por determinação do Corpo de Bombeiros, dada a péssima condição das instalações. Faltava alvará de funcionamento e habite-se, por exemplo. Mais de 100 problemas foram apontados no laudo.

2016
Em agosto, o corpo de uma jovem de 26 anos foi encontrado carbonizado a poucos metros do teatro. O cadáver estava em frente a entrada que dava acesso à sala Villa-Lobos e tinha sinais de estrangulamento, numa demonstração clara da falta de segurança nos arredores do local.

FONTE: Cedoc Correio Braziliense, Fundação Athos Bulcão, Arquivo Público do Distrito Federal e Secretaria de Cultura.

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