SIGA O
Correio Braziliense

publicidade

Jornalistas lançam livro para explicar a recessão brasileira

Claudia Safatle, João Borges e Ribamar Oliveira a obra: Anatomia de um desastre %u2013 Os bastidores da crise econômica que mergulhou o país na pior recessão de sua história

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 19/11/2016 07:32 / atualizado em 18/11/2016 17:54

Severino Francisco

Miguel Rojo/AFP
 

 

Por que até 2013 o Brasil ostentava uma situação de equilíbrio nas contas públicas e, em 2015, se afundou na mais grave crise econômica da história do país, com mais de 12 milhões de desempregados, estagnação industrial, queda da movimentação no comércio, inflação alta, falência dos estados e explosão da dívida pública? Claudia Safatle, João Borges e Ribamar Oliveira, três dos mais atilados jornalistas de economia,  resolveram encarar o desafio e dar uma resposta a essa questão dramática. O resultado é o livro Anatomia de um desastre – Os bastidores da crise econômica que mergulhou o país na pior recessão de sua história (Portfolio Penguin), a ser lançado, no próximo dia 29, às 19h, na Livraria Cultura Iguatemi (Lago Norte).


Ao revisitar os bastidores das decisões dos governos petistas de Lula e Dilma Rousseff, os autores fizeram uma arqueologia reveladora das razões que levaram à situação de debacle econômica. Não é um livro teórico destinado a especialistas. O primeiro capítulo é sobre a famosa proposta de ajuste fiscal elaborada pelos ministros petistas Antônio Pallocci e Paulo Bernardo, e por Delfim Neto em 2005, que era parecida com a que o ministro Henrique Meirelles está fazendo hoje. A linha básica era a de limitar o crescimento dos gastos: “Naquela época, ao ser apresentada a proposta pelos ministros de Lula, Dilma Rousseff usou uma frase famosa para criticar o projeto: ‘Era uma proposta rudimentar’, lembra Ribamar Oliveira, colunista do jornal Valor Econômico. “Descobrimos que a Dilma só verbalizou o que o próprio Lula pensava”.

Na época, final de 2005, Lula sofria pressão do Mensalão e queria agradar as lideranças sindicais e movimentos sociais. Para entender melhor o processo foi preciso recuar até o primeiro mandato do governo Lula, quando o líder petista formou uma equipe com um perfil alinhado às diretrizes de austeridade fiscal delineadas pelo governo de Fernando Henrique Cardoso: meta de inflação, superávit primário, controle do gasto e  câmbio flutuante. Eram tempos de um Lula ortodoxo, em sintonia inclusive com as ideias que o próprio mercado defendia. “Mas aí a gente mostra que o Lula começou em 2006 a mudar e a mudança ocorre com a saída de Antônio Palloci e chegada de Guido Mantega”, comenta Ribamar. “A configuração política muda e ala desenvolvimentista começa a predominar. E isso vai em um crescendo até que entra no governo Dilma, em que esse pessoal passa a ter maior voz ativa no governo, com a chamada nova matriz econômica”.

Sinais menosprezados
Na verdade, Lula já tinha começado a pedalar em 2009. Mas, em 2011, um ano depois de assumir a presidência da República, Dilma Roussef executa uma política fiscal rigorosa. No entanto, ela menospreza alguns sinais importantes da economia: as receitas começaram a cair. Em vez de se preocupar e dar uma resposta a esses sinais, o governo Dilma continuou a aumentar as despesas, que cresceram acima do PIB, enfatiza Ribamar.

Esse é o momento crucial rumo à derrocada. Para acomodar os gastos sem sustentabilidade, o governo de Dilma começou a recorrer a receitas extraordinárias e praticar a chamada contabilidade criativa e a esconder a situação verdadeira das contas públicas. Esses expedientes corroeram o superávit primário: “Com isso, ocorreu uma redução brutal da poupança para pagar os juros, que culmina no déficit absurdo de 2014 e 2015. O mundo mudou, as receitas públicas minguaram e o governo não mudou, continuou gastando e maquiando as contas. O Lula surfou em uma situação de grande expansão da atividade econômica mundial até 2008, quando se encerra o ciclo das commodities, provocando a queda das receitas. Ninguém imaginava uma deterioração tão grande. A questão política teve um peso na circunstância. A Operação Lava-Jato teve um peso fundamental, criou um clima de tensão, uma série de empresas importantes paralisaram as atividades. A Petrobras entrou em crise”.

Perplexidade
O livro mostra que os personagens da cúpula do governo Dilma manifestaram perplexidade com os rumos da crise. A senadora Gleisi Hoffman perguntou: o governo fez tudo o que os empresários tinham sugerido: reduziu impostos, baixou a taxa de juros e implantou um programa de crédito subsidiado. Por que os empresários não investiram? “Com o crescimento tudo se resolveria, mas não deu certo. Eles começaram com a proposta de desonerar a folha de salários e terminaram desonerando hoteis. É uma coisa inacreditável, não atentaram que não daria certo! Não podemos esquecer do poder que o Lula tinha naquela época. Era uma liderança muito forte. Deu muito dinheiro para o Bolsa Família e para outros programas sociais. Os índices de popularidade subiram muito. Só que isso não se sustenta a longo prazo. Agora, a conta chegou”.

O problema não estava na superfície e era difícil sensibilizar as pessoas para os problemas em um cenário de euforia econômica. A resposta para a questão das razões da derrocada econômica tão abrupta não é tão fácil e não deriva apenas de uma razão, acredita João Borges, comentarista de economia da Globo News. Mas se tivesse de sintetizar esse período do governo petista, ressaltaria o ótimo início de Lula, preocupado em manter os ajustes implementados no governo de Fernando Henrique Cardoso. A economia entrou em um excelente ciclo. “E aí o governo achou que tudo estava resolvido e começou a ampliar os gastos. Veio a crise mundial de 2008 e o Brasil saiu rápido pelo consumo, mas em um processo de endividamento das famílias”.

Em 2010, os problemas continuaram a ser maquiados, sob a onda de badalação da Copa do Mundo de Futebol e dos preparativos para as Olimpíadas de 2016. Os problemas que existiam não custaram sacrifícios “A Dilma começou bem, mas a tentação de forçar uma marcha de crescimento provocou muita confusão na cabeça dela. Nenhum presidente, por mais qualificado que seja, prescinde de uma equipe qualificada. A popularidade dela subiu, ela foi tentando impor ideias cada vez mais ultrapassadas.”

Tudo veio  abaixo ao mesmo tempo: a inflação chegou a mais de 10%, a queda artificial dos juros teve de ser revertida, o desemprego, os estados falidos, o desequilíbrio das contas fiscais, as famílias endividadas: “Isso é resultado de diagnósticos equivocados. O diagnóstico de que o sistema previdenciário estava quebrado já havia sido feito desde o governo do PT. Se não cuida da doença, ela toma conta e o doente fica cada vez mais fragilizado. Fora os esquemas de corrupção que devastaram a Petrobras e a capacidade de investimento na infraestrutura. Volta à mente o filme da resposta de Lula de que a crise global ao chegar aqui seria uma marolinha. Banalizou os problemas. É um somatório de equívocos que nos levou até a situação de derrocada da economia”.

O Brasil tornou-se um paciente com as taxas desbanlanceadas, o colesterol alto, subnutrido. Para haver investimentos é preciso restaurar a credibilidade das instituições e a certeza de que as regras serão respeitadas. Quando tem de resolver múltiplos problemas ao mesmo tempo, o sacrifício da população é infernal. É preciso disciplina, paciência e liderança para atravessar o deserto.”

Anatomia de um desastre – Os bastidores da crise econômica que mergulhou o país na pior recessão de sua história
Claudia Safatle, João Borges e Ribamar Oliveira/Portfolio Penguin/327 páginas - Lançamento, em 29 de novembro, às 19h, na Livraria Cultura Iguatemi (Lago Norte)

publicidade

Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.

publicidade