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No Dia da Consciência Negra, artistas conclamam: 'Visibilidade importa'

Grande parte da cena cultural brasileira não reflete a realidade afro que permeia o país

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postado em 20/11/2016 07:24 / atualizado em 19/11/2016 18:30

Adriana Izel , Rebeca Oliveira /

Dona Filmes/Divulgação

Quantos negros estão hoje na tevê? E quantos deles em papel de protagonismo? Quantos artistas afrodescendentes estão entre os mais ouvidos nas playlists, seja nas plataformas digitais ou nos rádios? Muito poucos. Não se trata de mera impressão. Eliminando as exceções, grande parte da cena cultural brasileira não reflete a realidade. Mais da metade da população do país é negra, segundo o IBGE.

“Desde que houve a promulgação da Lei Áurea, em 1888, não houve nenhuma proposta de reparação para a comunidade negra. Naquele momento, deveríamos ter tido ações afirmativas para a população em educação, mercado de trabalho, acesso à terra, financiamentos para os negócios. Não houve nada disso. Para os imigrantes, por sua vez, houve várias políticas, em um processo de “embranquecer” o país. Isso só foi enfrentado a partir dos anos 2000, com o sistema de cotas.” A sentença de José Jorge de Carvalho, pós-doutor em antropologia com foco em estudos afrobrasileiros, resume, em poucas linhas, a realidade do negro no país.

Mudança

Para reverter esse quadro, intrínseco a história escravocrata do Brasil, muitos artistas lutam pela representatividade em diferentes esferas culturais. Algumas iniciativas tentaram equilibrar a participação de negros em projetos da tevê, cinema, teatro e publicidade, assim como o sistema de cotas fez nas universidades. Em 1998, o projeto de lei nº 4.370 instituía uma fração de 25% de inserção de atores negros na mídia. Entretanto, ainda hoje, eles reclamam a falta de visibilidade.

A brasiliense Jessica Cardoso sente os impactos dessa discriminação quando participa, por exemplo, de testes de elenco para curtas ou longas-metragens. “O reflexo desse processo acontece quando faço trabalhos de publicidade e cinema: há a personagem negra voltada a mim. Se tem o núcleo rico e pobre do filme, estou no segundo grupo”, lamenta.

Bruno Peres/CB/D.A Press - 7/2/14
Jessica começou a ganhar notoriedade em 2013, quando participou do espetáculo Sexton. Dirigido por Rodrigo Fischer e selecionado entre dezenas de concorrentes no projeto Seleção Brasil Em Cena, a peça que conta a história da poetisa americana Anne Sexton marcou história: teve ingressos esgotados em horas, algo raro quando a produção é genuinamente brasiliense.

Negra e com cabelos raspados, a jovem desafiou estereótipos com uma imagem difícil de passar despercebida. “A escolha de uma negra, careca, jovem, casou com essa subversão e rebeldia do mundo de Sexton”, acrescenta.

Em cartaz desde o ano passado com o espetáculo Pentes, que discute o racismo contra o cabelo crespo, a atriz Tuanny Araújo revela a importância de produções ainda hoje terem essa temática. “É muito importante falar sempre sobre o assunto; entre o falar e o mudar, existe um caminho longo. Quando a gente pensa que o Brasil foi o último país a abolir a escravidão, que a população negra representa a parcela mais miserável, que os homens negros têm mais chances de serem mortos, que as mulheres negras sofrem mais violência doméstica… São pessoas em vulnerabilidade. É um enfrentamento real”, analisa.

Luta

Integrante do Grupo Embaraça, formado na Universidade de Brasília por cinco atrizes negras com o objetivo de colocar em cena questões étnico-raciais, a atriz diz que, apesar das mudanças, é necessário lutar por representatividade com produções dedicadas ao tema. Até por isso, em 2017, a companhia deve fazer outro espetáculo com nova abordagem do tema. “Eu podia fazer Shakespeare, mas é uma necessidade de sobrevivência (fazer espetáculos como Pentes). Há tantos casos de racismo. A questão ainda é latente, não se muda nada do dia para a noite. As pessoas não estão dispostas a falar. Elas não querem lidar com o problema. Por isso é importante bater na tecla da representatividade”, completa.

Poeta, músico, artista plástico e ativista cultural Paulo Dagomé usa seu trabalho artístico como forma de retratar o cotidiano da população negra. Para ele, o grande problema ainda está na questão da sub-representação dessa parcela da sociedade. “Há um racismo disfarçado. Não temos ainda o mesmo acesso dos brancos. Não nos enxergamos nas principais esferas. É uma luta diária, uma batalha exatamente para vencer essa falta de representatividade”, explica o artista.

Dagomé, inclusive, dedicou o Sarau Poético e Ecológico do Lago Oeste, em São Sebastião, ao Mês da Consciência Negra, com presença do artista plástico Antonio Obá e do grupo Comboio Percussivo. Ele acredita que âmbitos como literatura, artes visuais e audiovisual ainda têm mais dificuldade da presença dos negros. “Não é falta de talento, mas não dominamos as estruturas econômicas. Mesmo que você seja um bom artista, você precisa ser ainda melhor do que um branco”, diz. Dagomé acha que não deveria cantar ou escrever sobre a negritude, mas é exatamente a situação ainda racista do país que o faz manter essa temática. “Por mais que você tente fugir, falar de amor e da condição humana é uma coisa do seu cotidiano. Você é atingido pela falta de oportunidade, pela questão social e política e sua arte acaba sendo maculada. Até certo ponto gostaria de fazer uma arte menos engajada, mas não me é permitido. Só quando chegar a um ponto em que as pessoas tenham oportunidades iguais, poderei fazer arte, meramente por arte”, defende.

Nos palcos do DF 

Embora, no cinema e na publicidade, as discrepâncias entre um ator branco e um negro fiquem mais evidentes, Jessica Cardoso acredita que no teatro, palco mais aberto a experimentalismos, a igualdade racial é uma procura constante. E natural. Isso porque a cidade tem tradição em teatro de grupo, quando as construções são coletivas e mais fluidas. Há anos, a atriz se engaja, trabalha e é um dos pilares da cia. viÇeras. “Quando crio meu grupo nós construímos uma relação horizontal, hierarquias flutuantes, como dizem. Em um momento você é o diretor, e em outro, o iluminador, para que o próprio teatro de grupo se sustente e ninguém fique marcado nas suas funções”, define.

Se comparado com outros âmbitos, o mundo da música costuma ter mais espaço para os negros. Cantora de rap há 25 anos, a brasiliense Vera Verônika tem em seu repertório incutido valores feministas e debates de raça. Ensinamentos que ela levou à oficina de música promovida pelo Festival Favela Sounds na última semana. “Tento levar uma representatividade para as pessoas se sentirem empoderadas. Mais do que representatividade, é uma forma de visibilidade, porque a gente acaba sendo invisível enquanto artista”, analisa.

Pelo tempo de carreira e experiência em outros estados e cidades, Vera Verônika afirma que o Distrito Federal ainda é um local com mais representatividade para as temáticas da periferia e dos negros. “O DF é bem diferente dos outros locais, acho que por ser uma região jovem. Os eventos são inclusivos. Pelo menos na área de rap e hip-hop, vejo uma equidade de gênero, uma diversidade racial, inclusão de deficientes. Há esse diferencial, que, em outros estados, ainda estão amadurecendo”, completa a rapper.

//Programação do Mês da Consciência Negra

Circuito Cultural Dança Afro-brasileira
Praça Central de Santa Maria. Hoje, das 9h às 19h, com grupos de dança afro. Nos dias 25, 26 e 27 de novembro, na Rodoviária do Gama, e de 2 a 4 de dezembro, no estacionamento do Restaurante Comunitário do Recanto das Emas. Entrada franca. Classificação indicativa livre.

Circuito Repique de Tambor
Teatro da Caixa Cultura (SBS, Qd. 4, Lt. 3/4). Hoje, das 10h às 13h, oficina de Ritmos de Candomblé com Ney de Oxosse. As inscrições para oficinas são gratuitas e podem ser feitas através do e-mail oficinas@circuitorepiquedotambor.com.br. Às 19h, show de André Sampaio e os Afromandinga (RJ) e BNegão (RJ). Ingressos R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia entrada). Classificação indicativa livre.

Fórum de Produtores Culturais na UnB
Auditório do Departamento de Música da UnB. Em 24 de novembro, das 18h às 20h, palestra com Marlene Souza Lima sobre o "Protagonismo feminino negro na música instrumental". Entrada franca. Classificação indicativa livre.

Musical Mossoró Dayó – Eu falo de Felicidade
Teatro Unip (913 Sul). Em 22 e 23 de novembro, às 15h30 e às 20h. Espetáculo do Grupo Cultural Obará. A peça musical integra dança afro, cânticos tradicionais em ioruba, teatro e música para falar de amor, vida e morte do povo negro no Brasil. Entrada franca. Classificação indicativa livre.

Sernegra: Decolonialidade e antirracismo
Hoje, às 16h, no Cine Brasília (EQS 106/107), abertura com com exibição dos filmes Mulheres negras: projetos de mundo, de Day Rodrigues, e Das raízes às pontas, de Flora Egécia, e debate com as diretoras. Às 19h30, show Novidades ancestrais no Sernegra com Thabata Lorena, no Teatro Plínio Marcos (Funarte). De 21 a 23 de novembro com programação no IFB Campus Brasília (Sgan 610). Confira a programação completa em http://www.sernegraifb.org/. Entrada franca. Classificação indicativa livre.

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