As várias representações de Nossa Senhora são tema de documentário

Padroeira unânime nos países latino-americanos, a mãe de Cristo se multiplica, em qualidades e adoração, ao ser retratada no documentário 'Marias'

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postado em 21/11/2016 07:00


Aos 41 anos, Joana Mariani admite que sempre teve muita fé. “É muito pretensioso achar que não existe nada além de a gente, por aqui”, pondera a diretora do documentário Marias, sobre a diversidade de representações da mãe de Cristo. Mas a cineasta se diz  “filha de ventre judeu” que não tem religião. Prepondera, na fita, a imagem de uma Maria compreensiva, nunca “julgadora” das sociedades em que é celebrada. “Nossa Senhora desfila a importância da figura que ressalta valores femininos”, conta Joana. A produção de Marias custou R$ 800 mil e foi desenvolvida ao longo de quatro anos, com sete viagens ao Peru, Cuba, Nicarágua, México e Brasil, além de Argentina.

Enganou-se Joana, quando tinha certeza de, na peregrinação audiovisual, tropeçar em pessoas da classe média baixa para dar depoimentos. “Tinha este preconceito: ‘A fé é uma característica de quem precisa’. Não é, definitivamente”, conta. Uma entrevista, por sinal, deixou a cineasta aos prantos: a de Maria Guadalupe Torres, mexicana que quase renegou Maria, diante dos problemas enfrentados pelo adoentado filho recém-nascido. “Mas ela se encontra com ela mesma e, com a maternidade, percebe que veio a se tornar um ser humano melhor”, conta.

 

Vitrine Filmes/Divulgação


A ampla figura de Maria aumentou a conexão da diretora com as crenças dela. “Penso num spin-off de Marias, pelos 300 anos de Aparecida, numa devoção que sempre leva a discussões antropológicas”, adianta. Uma estratégia de difusão já foi adotada para aumentar o alcance do documentário: quem tiver Maria no nome entrará de graça nas sessões da fita até quarta-feira.

 

A Nossa Senhora pela América Latina 

 

» Peru

Forças da natureza

“No Peru, vimos uma devoção absolutamente regionalizada, com diferentes representações da santa”, conta a cineasta. Nas manifestações religiosas, a Festa do Carmo se confirmou mais protocolar, seguindo a indicação oficial em que Nossa Senhora do Carmo desponta como a de maior mobilização dentro da realidade peruana. Há mistura foi constatada, com a mescla de elementos algo carnavalescos, no culto à Nossa Senhora da Candelária.

 

A agigantada devoção mariana foi decifrada, em Marias, com auxílio de historiadores que detectam mais de uma dezena de Marias como referenciais para os peruanos. “Numa varredura rumo ao sul daquele país, há identificação da Virgem com a deidade da Pacha Mama, do cultivo e das forças da natureza. Lá, pesa a importância da relação com a figura feminina, associada à Terra ou à Lua. Na festa da Candelária (às margens do Lago Titicaca), a representação do muito falado manto triangular leva à observação da simetria com a montanha, numa forma de adoração feminina, especialmente quando se abarca a perspectiva dos povos nativos”, comenta a diretora.

 

» Cuba

Procissão retomada

Por muito pouco, a equipe de Marias não avança por uma Cuba laica, diante dos 50 anos em que, por propostas políticas, perduraram apenas as manifestações dentro de igrejas e templos. “Nossa chegada coincidiu com a primeira vez que a imagem da santa pode deixar a igreja. Prevalece, por lá, o culto à Nossa Senhora da Caridade do Cobre. Vimos a retomada de uma procissão enorme que havia até deixado de existir”, conta a diretora.

 

Tanto a santería (uma vertente de candomblé africano) quanto a Igreja Católica têm como objeto de devoção supremo Nossa Senhora do Cobre. “Na santería, ela levaria uma denominação como Oxum; mas até a mãe de santo entrevistada demonstrou o trânsito das figuras, ao se confundir, eventualmente, com as denominações da santa”, conta Joana Mariani.

 

»  Nicarágua

Ode à concepção

Pouca gente conhece, mas a festa da gritaria, na Nicarágua, se funda na generosidade e numa impressionante tradição: aos berros, Nossa Senhora é celebrada. “É uma mistura de homenagem aos Reis Magos e ao halloween”, diverte-se a diretora de Marias. Explica-se, à noite, o “Quem causa tanta alegria?” é entoado, de porta em porta, ao quê se ouve a resposta “É a gravidez de Maria”, com direito à farta entrega de guloseimas com muita música e celebração.

 

“Eu me surpreendi. Lá, as pessoas não pedem; elas comparecem aos festejos para agradecer. A devoção leva a este lado”, observa a cineasta. Mulheres fortes fizeram parte do painel do filme, como guerrilheira da revolução sandinista e também a presença de uma ex-freira. “Aprendi que a imagem da Maria pode funcionar como espelho: ela reflete a força de cada pessoa”, comenta a diretora.

 

» México

Crentes, aos milhões

“Dizem que 84% da população mexicana é católica e que 100% é guadalupana (cultuador da Virgem de Guadalupe). Vale o reforço de que a revolução mexicana foi feita com um estandarte de Guadalupe”, observa a criadora do documentário Marias. “No México, vimos algo impressionante: se, no Brasil, ao longo de um mês, são mobilizados cerca de 1 milhão de devotos, com relação às visitas à cidade de Aparecida; no México, em festejos de poucos dias, mais de 5 milhões de pessoas se agrupam”, explica a diretora que presenciou, in loco, o 12 de dezembro reservado à Nossa Senhora de Guadalupe.

 

Nas imediações da igreja da santa, construída em cima de um templo antes dedicado à deusa asteca Tonantzin, as celebrações se desdobram com manifestações culturais indígenas e populares. Até mesmo o Parabéns pra você local é repassado na popular Las Mañanitas, numa celebração de Maria. “Trata-se de uma canção para despertar, em que passarinhos cantam e se revela um acordar e uma ode a Maria”, conclui.

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