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Artistas passam de geração a geração tradições da palhaçaria

Improvisações, cores e liberdade em cena fazem parte dos elementos que compõem o trabalho de palhaços

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postado em 23/11/2016 08:00 / atualizado em 23/11/2016 17:10

Isabella de Andrade - Especial para o Correio

Arquivo Pessoal

 

Pode-se dizer que cada palhaço, mantendo vivas as suas singularidades, representa todos os palhaços do mundo. A arte do riso é difícil de ser explicada em teorias e, sendo assim, ensinamentos e tradições são passados por palhaços mais experientes em ensinamentos práticos e corporais. A performance e as nuances de cada um só serão verdadeiramente experimentadas em cena, em contato com o público.
A criação de um bom espetáculo depende da conexão e da troca entre artistas e espectadores e cada palhaço cria seus próprios caminhos para se relacionar com a plateia. Improvisações, cores e liberdade em cena fazem parte dos elementos que compõem a cena da palhaçaria. Se no início a tradição vinha dos picadeiros, hoje os palhaços se encontram também entre os palcos do teatro, ruas, praças e hospitais. O objetivo primordial continua o mesmo: espalhar alegria em qualquer tempo e lugar. 


O baiano João Lima desembarcou recentemente em Brasília com o seu Palhaço Tizu para ministrar uma oficina sobre a arte do palhaço na Mostra O Clown. Os primeiros estudos e práticas no teatro foram em 1989 e a entrada para o universo da palhaçaria em 1998. O ator criou o Retiro de iniciação na arte do clown em Salvador e, desde então, a dedicação é constante. “Antes eu gostava de palhaço só para assistir, não tinha interesse em fazer. Eu achava que era uma limitação do ator ter que fazer o mesmo personagem a vida inteira, até descobrir que na verdade é a libertação do ator. É um lugar em que a sua vida real e a representação se misturam de tal forma que não se sabe o que é verdade e o que é mentira”, conta Tiziu 

 

 



Para João Lima, o palhaço não é um personagem, e sim o próprio ator, agindo da maneira mais livre possível, expondo e dilatando tudo aquilo que cada um tem de diferente em relação aos outros. O artista afirma que para ser um bom palhaço é preciso ser sincero consigo mesmo, gostar de brincar e permanecer sempre no presente. “O palhaço não surge, ele já está em todos nós. A gente só toma coragem de tirar os disfarces que usamos para encobri-lo. A sociedade não suporta o diferente. O estranho, engraçado, ridículo é tudo aquilo que temos de diferente, que a sociedade chama de defeito. A partir do momento que eu descubro quem eu sou, me aceito e tenho coragem de mostrar e meu lado verdadeiro.”

Ritual cômico

Cada palhaço tem suas particularidades e o trabalho é uma mistura da personalidade de cada ator, aliado aos gostos estéticos e experiências. O nome escolhido para cada um é geralmente dado por aquele que inicia o artista na linhagem da palhaçaria. O Palhaço Lalá, de João Porto, teve seu nome escolhido durante o curso de iniciação do grupo Lume Teatro, de Campinas (SP), um dos mais conceituados no país. O aspirante a palhaço passa por uma espécie de ritual cômico para receber seu nome, que se relaciona com suas características físicas e psicológicas. “Eu me senti muito comovido ao assistir a apresentação de alguns palhaços e fui me apaixonando por essa linguagem. Desenvolvi a palhaçaria em saídas pelas ruas, praças, teatros, qualquer lugar que pudesse ter um público disponível”, conta o ator.

 

 


João Lima destaca que as características individuais do ator são expandidas para a criação do palhaço. No momento dos rituais de iniciação os aspectos físicos e psicológicos são descobertos e ressaltados por meio de exercícios e jogos cênicos. “Como em todo ser humano, existem características cômicas e trágicas. Todas podem ser desenvolvidas. O meu trabalho de palhaço se direciona para um humor mais ingênuo, mas com algumas pitadas de sarcasmo e ironia”, conta o ator. João lembra que estas características não são fixas e podem ser modificadas de acordo com a situação cênica vivida pelo palhaço em cada momento.

"O palhaço é a libertação do ator. É um lugar onde vida real e criação se misturam"

 

João Lima, ator

 

Willy Costa começou a trabalhar com a palhaçaria em 2003 no Galpão do Riso, em Samambaia, onde pratica a linguagem cênica atualmente. A escolha veio pela vontade de criar um trabalho próprio, com sua personalidade e trejeitos, o que é possível com o palhaço. O nome recebido pelo ator foi o de Palhaço Balofo e passou pelo mesmo processo trabalhado pelo Lume Teatro, quando outros integrantes das oficinas de iniciação escolhem nomes e apelidos a partir das físicas e psicológicas de cada um. “Eu utilizo a temática do bullying nos meus números. Por eu ser gordo e já ter sofrido com isso, quis levar a temática para os meus espetáculos para criar essa reflexão por meio do riso saudável”, conta o artista.  

 

Riso saudável
Na vivência experimentada por Willy, cada palhaço surgia das características que costumam ser vistas como defeitos e tentam ser escondidas no cotidiano. A partir da exposição destes aspectos, o artista experimenta e convida a plateia ao riso saudável. “Nas apresentações eu convido o público a rir comigo e não a rir de mim, assim podemos nos divertir todos juntos”. Seu principal número se chama Fofinho não, balofo! e trabalha com a ideia de naturalizar os diferentes tipos de corpos. Willy lembra que a roupa, a maquiagem e o figurino de cada palhaço são intransferíveis, já que eles surgem a partir da criação pessoal de cada palhaço e se relacionam com os aspectos pessoais.

Ramon Lima é o mais novo do grupo de palhaços Nutra, criado há 10 anos em Samambaia, também no Galpão do Riso. Iniciante na arte da palhaçaria o ator conta que vive rodeado pelos artistas do Nutra e trabalha para desenvolver seu próprio repertório aguçando sua receptividade e improviso. “Meu palhaço se chama Grandpliê e foi escolhido na Oficina A Arte do Palhaço ministrada por João Porto Dias. A escolha se deu de forma inesperada e de forma muito direta. No final da oficina, os colegas que partilhavam essa experiência comigo sugeriam diversos nomes a partir da minha imagem e restou aquela que mais se encaixava com a minha figura e que mais me afetava”, conta Ramon.

 

 

 

O ator ressalta que existem diversas metodologias, linguagens e estéticas possíveis para desenvolver o estado de jogo de cada artista. As características dos palhaços surgem a partir das provocações e sensações de cada ator e são ressaltadas até que se tornem ações ou números cênicos. “Eu gosto de assistir palhaços ricos em sutilezas e que tornam algo muito simples, em uma coisa grandiosa, dando um novo olhar às coisas. Penso que a receptividade e a percepção são muito importantes para um bom número de palhaços”. A experiência é aprimorada principalmente nas ruas e cada apresentação para o público é diferente. E assim, entre praças e picadeiros, novos e antigos artistas brasilienses se empenham para manter viva a arte do riso e a s criações teatrais ligadas à comicidade. 

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