Televisão, internet e drogas são temas de biografia de João Gordo

Em livro, líder do Ratos de Porão fala da trajetória pessoal e profissional

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postado em 30/11/2016 07:30

 

Ed Alves/Esp. CB/D.A Press - 29/7/11
 

 

Quem vê o verborrágico e extrovertido João Gordo na tevê, na internet e, especialmente, nos palcos, ao lado da banda Ratos de Porão, não imagina a infância violenta que enfrentou. O pai do cantor e apresentador era militar e impunha uma criação rígida, com diversos relatos de espancamento e “tortura”, segundo o próprio músico relata em João Gordo: Viva la vida tosca para o jornalista André Barcinski. Em entrevista exclusiva ao Correio, João falou sobre a família, sobre televisão, internet e drogas, entre outros assuntos.



Lembranças
Entrei num turbilhão do passado, comecei a lembrar de um monte de coisa da infância, das agressões do meu pai e fiquei meio deprimido. Quem apanha e é torturado nunca esquece e até hoje sou marcado pela minha infância. O que me salvou foi o rock, me deu identidade, atitude.



Família
Eu não tinha a mínima intenção de formar uma família. Eu queria ir embora o mais rápido possível. Nos anos 1990, quando eu era uma bomba relógio, nem imaginava isso. Quando apareceu a oportunidade, quis ter filho de qualquer jeito. E sempre tive medo do meu relacionamento com minhas crianças. Fiz um tempo de terapia e cheguei à conclusão de que eu não sou meu pai e meus filhos não são eu. É uma outra geração, um outro momento, outro jeito de lidar. Preciso tomar cuidado, às vezes, pra não repetir os erros do coroa. É bem difícil.



Filho
Tinha medo dos enfrentamentos masculinos. Mas eu tive um insight que é a coisa mais simples e mais óbvia do mundo. Que eu não sou meu pai e o Pietro não é o João. Isso bastou para tirar da minha frente todo esse problema de relacionamento entre pai e filho. Hoje em dia, ele é meu melhor amigo, um moleque sensacional. Eu falo que o amo todo dia. O que meu pai demorou a vida inteira pra escrever num pedaço de papel, eu digo todo dia.



Banda
O Ratos é uma instituição da música pesada do rock. São décadas ininterruptas de pauleira, nunca parou. Se a gente fosse uma banda portuguesa, argentina ou até peruana, a realidade seria completamente diferente. Mas tivemos a honra de nascer no Brasil e, justamente, por ser mais difícil é que nós amamos muito o Ratos. Essa formação tem 12 anos. E, na Europa, começou a bombar há uns 10 anos. Eu fui para Europa umas 30 vezes. Têm países que eu já fui com o Ratos mais vezes que fui para Osasco, sabe? (risos). Tem lugares que nunca fui, Ásia. Nos Estados Unidos é difícil fazer show, as distâncias são muito longas pra ficar indo de van.



Turnês
Estou com 53 anos, ainda sou obeso, tenho de operar o ombro, e a idade me impede de manter a adolescência que todo mundo me cobra. O prazer de tocar tem sempre, soltar os cachorros, é muito mais forte do que qualquer droga. Mas enfrentar 23 horas de viagem para uma hora de êxtase é complicado. Eu não tenho mais paciência. Sair da minha casa linda pra um hotel que não tem chuveiro quente.



Reconhecimento
Os festivais de rock brasileiro não nos desprezam, como o Porão do Rock. Já os big é como se a gente não existisse. Em compensação, no exterior, a gente só toca em festival lindo. Acabamos de fazer um lá fora no mesmo dia do Black Sabbath e do Slayer, às 4 da tarde para 40 mil pessoas. E ganhando um cachêzão pra isso. É muito louco isso. Casa de ferreiro, espeto de pau.



Drogas
Eu sou um senhor que se faço uma balada de antigamente, eu fico três dias de ressaca. Ainda tomo minha cerveja e fumo meus baseados. Mas droga pesada, as poucas vezes que voltei a usar, fiquei doente. Se você continua usando isso depois dos 50, você morre logo. É preciso dar um breque. Eu tenho família e não quero isso. Do jeito que está o Brasil hoje, nunca será legalizada. E a cannabis é a planta mais perfeita do mundo. Ela só é demonizada por causa de um político racista americano que não gostava de preto e mexicano e levou isso para o mundo inteiro. Mas o que é a maconha? É medicinal, é combustível, confecção, alimento e ainda dá barato. Mas com essa onda fascista no Brasil, é mais fácil nego fuzilar maconheiro que liberar a planta.



Política
É um caos e uma sem-vergonhice. Foi institucionalizada a pilantragem aqui. Graças às redes sociais, as pessoas se mostram fascistas, nazistas, racistas, todo tipo de “istas” que não prestam. Todo mundo facilmente influenciado pela internet. O que está acontecendo é muito grave, um futuro podre. A gente fica com medo de um monte de coisas, ainda mais por termos filhos.



YouTube
Ainda não estou ganhando dinheiro com o meu canal, Panelaço. É muito mais fama. Hoje em dia, sou muito mais famoso e querido que na época da MTV. Esses programas de YouTube, é uma audiência orgânica, com pouco hater e isso é muito louco. Mas é um nicho super-alternativo. É um segmento muito específico. Então, traz pouco interesse de anunciante. O programa e os convidados são sensacionais. É um programa de culinária vegana que mostra como é fácil comer bem. Em época de crise, você tem de rebolar. Ou eu vendo drogas ou vendo o que eu tenho. E invisto no que eu tenho, que é o Ratos, os produtos da loja Panelaço, etc.



Televisão
Claro que eu tenho espaço. Mas as pessoas têm medo do meu jeito. Só que isso era num determinado momento e em programas voltados para isso, na MTV. Agora seria diferente. Eu consigo me adaptar bem. Deve ser preconceito, porque não abraço pauta, não falo bem de político. Só que produtores e diretores acham que sou indirigível e é totalmente o contrário.



Artistas
Por mais que eu odeie a música que o cara faz, a maioria deles é muito gente fina. Essa coisa de você querer misturar a música que o cara faz com o que ele é, fora do palco, é horrível. Tem de ir lá, trocar ideia e a maioria é muito legal, me dou bem com quase todos os sertanejos, por exemplo.

 

 

 

João Gordo: Viva  la vida tosca
Biografia do líder do Ratos de Porão. De André Barcinski. Darkside Books, 320 páginas. Preço: R$ 59,90.

 

 

 

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