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Saiba mais sobre Daniel Ganjaman, produtor dos melhores discos do ano

Alguns dos melhores lançamentos do ano passaram por esse paulista. O que pensa um dos mais relevantes criadores musicais do país?

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postado em 27/12/2016 07:33

Alexandre Gennari/Divulgação
 

A vida é feita de ciclos. E, no caso do produtor Daniel Sanches Takara, o Daniel Ganjaman, um deles se fechou em 2016. Músico, arranjador e engenheiro de som, o paulista teve o primeiro trabalho de impacto com a produção do disco Rap é compromisso, do rapper Sabotage, lançado em 2001. Quinze anos depois, “Ganja”, como é conhecido, voltou a ganhar destaque em homenagem póstuma ao amigo da Zona Sul de São Paulo, assassinado em janeiro de 2003.

Este ano, o disco homônimo trouxe Sabotage de volta às paradas, com projeto que retoma faixas que ficaram guardadas por anos por Daniel e pelo selo Instituto (com Tejo Damasceno e Rica Amabis) — e que seriam o terceiro disco do artista, costuradas, agora, com parceiros com os quais o rapper trabalhou ao longo da vida. Aí se encaixam Tropkillaz, Negra Li, Céu, Sandrão, Rappin’Wood, Dexter e BNegão.

“Até ter estômago de abrir o material e mexer levaram anos. Agora, estamos com uma sensação de ter cumprido com louvor esse fechamento de ciclo”, comenta. Mas esse não foi o único momento de auge do produtor. Muitos álbuns de boa repercussão nacional, além de Sabotage, tiveram colaboração musical de Daniel Ganjaman, a exemplo de Coisas do meu imaginário, do Rael; Trilha para o desencanto da ilusão, vol. 1: amem, de Síntese, Ainda há tempo, de Criolo, e Duas cidades, do grupo BaianaSystem.

Maré generosa e que o acompanha ano após ano, desde que lançou Nó na orelha, com o amigo Criolo, em 2011. Na entrevista abaixo, o músico fala sobre mercado musical, amizade, carreira e até política, tema do qual nunca se esquivou.

Vocês abriram mão dos direitos do disco póstumo de Sabotage em favor da família do rapper. Foi, de fato, um projeto afetivo?
Esse projeto é de vida. É uma entrega nossa, minha e dos caras do Selo Instituto, do qual eu fazia parte quando o Sabotage morreu. Começamos isso juntos. Era um projeto de vida no sentido do legado que poderíamos deixar não só para a música, mas para a família. Aproximei-me demais dele, passamos todos os dias juntos porque estávamos trabalhando nesse disco, que seria o próximo em vida. Foi uma forma de rentabilizar para os familiares a obra desse artista incrível, que, infelizmente, teve um final bruto. Queríamos reverter isso de uma forma coerente, o mais próximo possível do que ele queria passar naquele momento. O trabalho dele é tão atemporal que sabíamos que ali haveria coisas inovadoras, mesmo lançando 13 anos depois. Sabíamos, também, que ia dar uma balançada na cena. Eu me assustei com a repercussão do disco. Fico emocionado e feliz em ver isso acontecendo. A família dele é merecedora disso tudo e ganha a justiça de, pelo menos, ter esse resultado final do trabalho dele disponível.

O que levaram em consideração ao construir o projeto?
Ele era um cara que se destacava onde estivesse. Isso era algo conhecido das pessoas que tiveram contato com ele. Onde estivesse, era o centro das atenções, agência de publicidade, produtora, estúdio, bar, quebrada, centro, era o mais bem recebido. Esse lado afetivo inevitavelmente permeia o disco. Todos que participaram tiveram grande importância para o rap e tivemos que ter critérios. Optamos por quem já havia trabalhado com ele em vida para manter a verdade do trabalho. O fato de ele não estar presente aumenta o risco de fazer alguma coisa que ele não concordasse e ficamos preocupados com isso, de criar algo que combinasse com o que ele fez em vida. Até ter estômago de abrir o material e mexer passaram-se anos. Agora, estamos com uma sensação de ter cumprido com louvor esse fechamento de ciclo.

Da época em que começou a trabalhar com Sabotage até hoje, muita coisa mudou no cenário do rap, que hoje é mais popular. A que atribui essa mudança na percepção do gênero?
Atribuo isso ao próprio Sabotage. Ele abriu as portas de coisas que vieram se consolidar agora: a inserção do rap no cinema, por exemplo. Tínhamos a sensação que a coisa tinha ficado um pouco apagada. Ele acabou trazendo de volta uma linguagem que o rap tinha se distanciado, algo bem periférico e, ao mesmo tempo, autêntico, único. Acho que toda a geração de artistas do gênero, hoje, que têm liberdade para falar dos temas que quiserem, sem ter nenhum tipo de ressalva e de experimentações musicais, deve muito a ele. Ele abriu as portas e deixou a estrada livre para que a molecada pudesse caminhar e fazer o trabalho sem nenhum tipo de preocupação.

No início, houve preconceito?
Ele sofreu muito preconceito por ter trabalhado com artistas diferentes — chegou a trabalhar com o Sepultura! Tinha em mente o colaborativo e isso não era bem-visto no cenário do rap. Partindo do que ele fez abriu-se uma colheita, resultado do que ele plantou há 15 anos. Rael é um artista autentico do rap, vem do grupo Pentágono e canta sobre amor. Criolo, há mais de 20 anos, também. São dois extremos de São Paulo e que têm essa linguagem, uma vivência em torno disso. Há toda uma geração de rap agora, uma rapaziada que acabou de chegar, isso está propagando muito o gênero, com um público enorme. É resultado de uma semente bem plantada lá atrás. Quem sofreu muito para fazer as coisas acontecerem nos anos 1980 e 1990 pavimentou para que eles chegassem em um cenário mais fácil e tranquilo de trabalhar. São questões que fogem da linha musical, mas que é importante olhar. É legado. Em 1997, quando o Racionais Mc’s ganhou o prêmio da MTV como artista do ano, à frente de Skank e Jota Quest, na época era improvável, e para quem entendia, consumia a cultura do rap, aquilo era natural, estava se propagando. Agora, o rap está entre os estilos musicais mais ouvidos no Brasil e no mundo.

Em Duas cidades, o BaianaSystem incorpora elementos de raízes africanas, um tanto quanto esquecidos na cada vez mais pop música baiana, e os reúne ao dub e soundsystem. Quanto de participação sua há nesse resgate?
Tenho ouvido muita música da África dos anos 1960 e me impressiona o quanto é moderno. O quanto, realmente, foi essa música que ditou a linguagem do que fazemos atualmente. Essa ancestralidade está muito presente nas músicas mais modernas feitas no mundo inteiro. E o Baiana tem um fato superinteressante porque o formato é pouco convencional, foge do esquema de banda — o show deles vai se desenvolvendo e eles incorporam a linguagem de trio elétrico, MC, música de rua, soundsystem, jogando a galera para cima, depois acalmando, há todo um ritual que conseguiram transformar em um projeto que vai além de dar o play e escutar. O mais importante de tudo é fazer um resgate da música baiana autêntica, a polirritmia dentro de uma linguagem moderna. A Bahia sempre foi celeiro de grandes artistas, mas, nos últimos tempos, estava muito apagada por causa quase de um coronelismo, de um mercado que deixava tudo fechado e restrito às manifestações carnavalescas, como pagode e axé — que tem uma riqueza enorme, mas é tratado só como mercado. Esse ritmo e essa manifestação cultural do BaianaSystem surgem como algo de muita relevância.

Em março, você publicou um vídeo contrário ao impeachment de Dilma Rousseff, depois, contrário à PEC 241, o que gerou muitas ofensas. Se arrepende?
Não só não me arrependo como acho que é praticamente imprescindível para um artista que tem um discurso como os que eu trabalho. É necessário se posicionar em um momento tão crítico como o que estamos vivendo. Ao longo dos meus 38 anos de vida, nunca vivi um retrocesso tão gigantesco. É muito complicado ver parte de toda dinâmica das redes sociais, a forma como as coisas se popularizaram, para um xingar o outro pelo posicionamento adotado se estamos em busca de um mesmo resultado. Tento relevar muito porque há algo nesse discurso de ódio a ser estudado. É sintomático. Muitas vezes, a pessoa escreve blindada por um falso anonimato e, cara a cara, não verbalizaria. Não levo a sério. Mas já recebi ameaças. Ao mesmo tempo, sei que muito disso é da boca para fora, não discuto. Vivemos um momento da manipulação midiática. Aquela história da mentira dita 100 vezes e que acaba virando verdade. A gente trocou um governo que queria erradicar a miséria por um que quer erradicar a maconha. É a contramão de todas as políticas públicas mundiais. Além disso, o momento é tenso em nível mundial. Precisamos entender esse ciclo e resistir a ele. Não vou ter ódio. Posso absorver, mas de maneira a não ter impacto direto no meu trabalho. Temos que passar uma mensagem positiva e o ódio replica em mais ódio.

Como enxerga a música brasileira hoje?

Muita gente critica, mas há muita coisa boa proliferando. Talvez, de todo o tempo que eu vivi trabalhando com música, nunca tivemos momentos tão bons. Principalmente no mercado independente — aliás, não o entendo como um mercado, mas como uma manifestação cultural. Vejo pessoas ligadas a diversas manifestações culturais se comunicando melhor e criando ambientes que dialogam com música, artes plásticas, cinema, artes visuais e atividades políticas. Há tanta coisa ruim acontecendo, uma frente fascista enorme ganhando força, mas uma frente progressista e humanitária tendo um olhar inteligente, se articulando.

Não há muita preocupação com o lucro?
A música vive esse momento muito em função de que os meios de produzir e programar tornaram mais fáceis. Digo isso com muita tranquilidade porque venho de cena independente dos anos 1990, que era o contrário do que vivemos hoje. Por conta dessa facilidade, muito da paixão se perdeu. As pessoas fazem música prevendo um resultado de número, de movimentar views, likes, dinheiro, que se perdem, tendem a ter em mente onde querem chegar, e nos anos 1990 a preocupação era “será que vai ter um amplificador bom para tocar no palco?”. Não lembro de preocupação com grana, era mais a música em si. Mas isso faz parte dos ciclos. Tudo tem um ciclo e temos que respeitá-los.

O que uma música boa precisa ter?
Acredito na verdade do artista. Meu papel com a produção é buscar essa verdade que os artistas, por ‘n’ motivos ou razões, têm dificuldade de alcançar. É o olhar de fora de alguém que tenta entendê-los ao máximo. Vivemos um momento da música em que, por conta de uma democratização dos meios de se propagar, tivemos uma crise no seu formato tradicional, mas que, em contraponto, acabou gerando uma mudança muito radical na forma de se produzir. As pessoas começaram a entender que há um canal mais direto com o público. Eu tive essa visão de quem não tem mais necessidade de aguardar intermediários, de rádio, de jabá, de novela, da tevê. É um contato direto que fez com que artistas, usando um exemplo mais radical, como a molecada do funk, provavelmente tenham números mais expressivos em redes sociais do que quem toca MPB. É um mercado completamente paralelo e que movimenta um montante gigantesco.

Com essa independência e tantos artistas se produzindo, qual o papel do produtor, hoje?
Não acho que seja necessário ou uma premissa para um disco bom, de qualidade. Quando você vai em busca de um produtor ,quer que seu trabalho tenha um olhar de fora. Hoje, é muito fácil um artista sentar e produzir seu disco. Ele sabe gravar, editar, vemos que tem uma nova geração mais ligada a essa forma como as coisas democratizaram. Mas eu, como produtor, acredito que esse papel faz uma grande diferença. Meu primeiro pré-requisito para exercer a produção de um trabalho é entender o quanto vou agregar no resultado do disco. Às vezes, artistas que admiro, gosto, acho incríveis, me convidam, mas se eu entender que meu papel não vai diferenciar significativamente a ponto de eu estar ali assinando, prefiro não fazer. Esse é meu primeiro filtro, antes de falar em orçamento, agenda... Preciso ouvir o trabalho e me identificar com aquilo, não só gostar, mas entender que eu vá ter uma colaboração expressiva. Isso me faz produzir, por vezes, artistas que eu não necessariamente seja fã, mas ouvindo e entendendo que meu papel vai fazer uma diferença.

E quais as novidades para 2017?
Há uns cinco anos falo em fazer meu disco, mas está entre meus planos realizar meu projeto musical, não sei se algo solo, ou com vários convidados. Tenho alguns embriões, diários e coisas do tipo para pôr em prática. Estou decidindo se será um disco de produtor, compositor, colaborativo, ou uma mistura disso tudo. Gosto muito de trabalhar com diversos estilos diferentes porque gosto de ouvir música diferente. Tocar e cantar sem amarras de gênero. Isso, tenho sentido, acaba no DNA dos discos que produzo, faz parte do meu estilo. Não quero ter pressões. Minha vida é menos que isso. Prefiro respeitar o tempo das composições e esperá-las chegar. Bem intimista.

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