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'Blue & lonesome', dos Rolling Stones, prova que o blues não morre jamais

Grandes grupos do gênero estão impregnados de blues em seus trabalhos. Brasília também tem uma cena forte no estilo

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Clausem Bonifácio/Divulgação

Sem ele, não haveria o jazz, o soul e muito menos o rock’n’roll. Criado por escravos americanos (que o usavam como cantos de lamento durante o trabalho), o blues foi pai de vários estilos musicais, que beberam, sem moderação, de sua fonte. “O blues é a raiz, o resto são frutos”, definiu o músico americano Willie Dixon. O rock, sem dúvida, foi dos mais influenciados. Prova disso é o quanto grandes grupos do gênero estão impregnados de blues em seus trabalhos.


Um dos mais duradouros grupos de sucesso do rock (Keith Richards, que o diga), os Rolling Stones lançaram recentemente um álbum em que celebram os grandes ídolos do blues.

 

O álbum, Blue & lonesome, apresenta versões de artistas do gênero que influenciaram o rock criado pelos Stones, como Willie Dixon e Litlle Water.

O disco da banda britânica, que estava desde 2005 sem novos trabalhos, provou que o blues, em todo o mundo, está mais vivo do que nunca.

 

Com Blue & lonesome, os Stones conseguiram vendas muito expressivas e alcançaram o topo da Billboard inglesa. A ligação da banda com o estilo é antiga, os Stones começaram como uma banda de blues e o próprio nome do grupo veio de um hit de Muddy Waters.


“Este álbum é uma homenagem aos nossos favoritos, às pessoas que nos motivaram. Eles foram a razão pela qual começamos uma banda”, disse Mick Jagger em entrevista sobre o álbum. Para ele, os bluesmen criaram um estilo completamente diferente do que existia até então.

 

“Foi muito atrevido em comparação com a maioria das músicas pop. Falava com a experiência direta e os sons eram mais vibrantes, os ritmos mais interessantes e mais dançantes. Tinha um apelo instantâneo”, observou.

Sobre as críticas de que os Stones seriam brancos ou “estrangeiros” fazendo blues, Jagger contesta que isso seja, de fato, um problema. “Os artistas com quem falei  — Muddy Waters, Howlin’ Wolf, quando eles estavam vivos — pensaram que o afluxo de estrangeiros tinha ajudado, há uma troca”, acredita.

A batida brasiliense
O blues nasceu nos Estados Unidos e fez sucesso por lá, o gênero, porém, sempre ecoou forte em terras brasileiras e esteve presente em obras de grandes nomes da música do país. Também em Brasília, o estilo sempre manteve público cativo e artistas que dedicaram à carreira ao gênero.


Chamado por muitos de embaixador do blues na capital, José Adalberto Meuren, conhecido como Bemol, ensaia algumas teorias para entender por que o brasileiro e o brasiliense gostam de ouvir e de fazer blues.

 

“Não sou sociólogo, pesquisador ou coisa do gênero, mas o Brasil teve, tem e terá sempre uma imensa população negra, uma mistura de raças onde também consta o sangue negro e existe algum DNA para o estilo”, comenta.

Fundador da extinta Oficina Blues, Bemol esteve nas origens do estilo na capital. Ele lembra que Brasília, nos anos 1980, se beneficiou das informações trazidas por amigos, filhos de diplomatas, ministros etc. Isso foi fundamental para dar força ao gênero na capital.

 

“Eles tinham acesso a discos, instrumentos, livros... Não dá para comparar com o que se tem hoje, mas não era tão difícil quanto em outros locais”, conta.

Cena agitada
Além disso, a cidade contava com uma cena musical e artística muito forte. “As garagens viviam cheias de grupos ensaiando, tudo era propício a tudo. A existência de bandas como a nossa certamente incentivaram o estilo. O mercado local na época se abriu para isso porque dava público, dava lucro”, lembra. 


O guitarrista Haroldinho Mattos, também da Oficina Blues, conta que o movimento criado na época ganhou força e foi conquistando público na cidade. Para ele, algumas características de Brasília contribuíram para que um sentimento blue existisse na capital.

“A gente conseguiu fazer um movimento muito interessante. Nós fomos criando esse hábito, as pessoas foram entendendo que havia uma cena do blues. Isso ganhou corpo e Brasília aceitou muito bem”, lembra.

 

“Talvez por ser uma cidade muito ampla, cheia de espaços, às vezes seja preciso olhar mais para dentro, para o interior e o blues traz muito esse sentimento”, completa. Ele e Bemol mantêm o duo blues de Bolso. Os dois tocam amanhã a partir das 20h30 no Trow Parrila & Beer (Lago Norte, Conjunto Q).

Longa estrada
O vocalista Luiz Kaffa é fundador e membro do Clube do Blues de Brasília. A entidade organiza festivais, workshops e tenta unir os artistas do gênero na cidade. “O clube foi pensado aos moldes do Clube do Choro e já tem 16 anos. A ideia é chamar as pessoas, incentivar os jovens, transmitir conhecimento”, explica.

A próxima atividade do Clube é um workshop de gaita no Guará. O evento ocorre amanhã às 15h, com o gaitista Jefferson Gonçalves, no Urbanos Observatório (QE 13, do Guará II). A entrada custa R$ 10. Kaffa é vocalista da Brazilian Blues Band, uma das mais antigas bandas do estilo no DF. “Nós estamos com 23 anos de banda. Vamos acreditando no trabalho. É uma bela caminhada, nadando contra a corrente.”


Consenso entre os blueseiros da cidade é que faltam espaços para o gênero em Brasília. Eles acreditam que há, sim, público para o blues aqui, mas existem poucas casas que recebam shows do estilo.

 

“Hoje temos muitas bandas de blues em atividade. Poderiam ser mais. Mas temos artistas que vivem de tocar blues. Precisamos mesmo é de mais locais para tocar. Os fãs são muitos. Os shows estão sempre com bom público”, acredita o guitarrista da Geriatric Blues Band Daniel Costa.

Com 20 anos de estrada, a banda também se preocupa em manter o estilo vivo para as novas gerações. “Fazemos palestras musicais que contam a história do blues com texto, imagens e muita música. Fizemos uma em 2016, na Casa Thomas Jefferson, e vamos fazer mais em 2017”, conta Daniel. O blues não morreu...

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