Diversão e Arte

Conheça as obras do pintor Alfredo Volpi em Brasília

O Correio reconstitui, com depoimentos e imagens, a história dos dois painéis criados pelo pintor, um na Igrejinha da 308 Sul e outro para homenagear Dom Bosco, no Palácio do Itamaraty

Severino Francisco
postado em 12/02/2017 07:00
 -  (foto:  Instituto Volpi/Reprodução)
- (foto: Instituto Volpi/Reprodução)

Mural de Dom Bosco no Itamaraty: visão plena para os passantes da Esplanada dos Ministérios.

O pintor Alfredo Volpi fez duas pequenas, mas brilhantes intervenções de integração da arte com a arquitetura modernista de Oscar Niemeyer, em Brasília: o afresco nas paredes da Igrejinha Nossa Senhora de Fátima, da 308 Sul (1958), e o painel da profecia de Dom Bosco no Palácio do Itamaraty (1966). O afresco de Nossa Senhora, na Igrejinha, desapareceu inteiramente em razão da insensatez de um padre de poucas luzes que passou uma mão de tinta e simplesmente apagou uma das obras-primas da pintura mural modernista brasileira. Galeno, que teve Volpi como uma das fontes de inspiração para sua arte, substituiu o afresco destruído por uma (também) magnífica pintura mural de Nossa Senhora translúcida e de pipas e borboletas de cores intensas na Igrejinha.

Já o painel de Dom Bosco está instalado em um corredor dentro do Palácio do Itamaraty, mas parece pairar no espaço, exposto à visão de qualquer passante da Esplanada dos Ministérios. Dom Bosco abre os braços para a cidade com um rosto oval, diretamente inspirado nas feições do arquiteto Oscar Niemeyer. O Correio reconstitui, com depoimentos e imagens, a história dos dois painéis de Volpi em Brasília.

Estudo para o painel de Dom Bosco


Niemeyer conheceu pessoalmente Volpi com a mediação do escultor Bruno Giorgio, grande amigo de ambos. Gostavam de almoçar no restaurante Ca;d;Oro, em São Paulo, evoca Pedro Mastruobono, diretor do Instituto Volpi, sediado na capital paulista. No começo dos anos 1950, Volpi fez viagem de seis meses à Europa, acompanhado dos amigos Rossi Ozir e Mário Zanini. Só em Pádua, na capela dos Scrovegni, pintada pelo Giotto, Volpi voltou 12 vezes. Depois, foi a Arezzo, ficou encantado com Margaritone D;Arezzo e Cimabue, dois pintores pré-renascentistas: ;Os renascentistas representavam Nossa Senhora como figura geométrica separada do corpo do menino Jesus;, comenta Pedro Mastruobono. Na pintura pré-renascentista, a Santa e a Criança aparecem envolvidas no abraço de uma mesma figura. Por influência direta dessa viagem, Volpi pintou Nossa Senhora enlaçando o menino Jesus em uma grande mancha de cor, onde só se distinguem traços. Ele rompe com a representação clássica de Nossa Senhora.;

Embora fosse ateu e anticlerical, todas as figuras de santos da sua obra foram pintadas nessa década: Santa Bárbara, Santa Rita, São Jorge e várias versões de São Francisco, uma delas pertencente à coleção de Jorge Amado. O painel da Igrejinha era constituído pela figura de Nossa Senhora de Fátima na parte central e por elementos de fachada, arcos e bandeirinhas na parede da parte esquerda. Nossa Senhora flutua no céu. Existem duas versões para a destruição: a primeira é a de que o padre teria ficado incomodado com a figura de Nossa Senhora sem os pés e com o caráter supostamente profano das bandeirinhas. A outra versão é que não aceitava a figura de Nossa Senhora com o menino Jesus no colo. Os painéis foram raspados e os únicos vestígios são algumas fotos e um pequeno trecho do documentário Brasília, cidade modernista, do sueco Torngy Andenberg.

Esboço para afresco na Igrejinha da 308 Sul: esse projeto não foi executado

Em 1966, com intervalo de oito anos, depois da intervenção na Igrejinha da 308 Sul, Volpi executou o painel mural Palácio do Itamaraty, com a figura de Dom Bosco. Niemeyer enfatizou que o mural ficaria em uma sala especialmente destinada à obra. Não está em um fundo de sala, está situado em um corredor sem saída. É concebido para ser visto na rua e se refletir à noite na lâmina de água dos jardins do Itamaraty: ;O painel está voltado para a Esplanada, voltado para a rua. É um campo de visão para quem passa em frente ao Itamaraty. Reflete no lago. É algo muito lírico e muito belo;.

A figura de Dom Bosco foi inspirada nas feições de Oscar Niemeyer. Nesta época, Volpi já começa a introduzir elementos geométricos em sua pintura. O fundo do painel é azul anil, com figuras geométricas de triângulos e recortes do que seria o desenho de arcos do Itamaraty: ;Existem dois estudos para esse painel;, explica Pedro. ;O fundo é muito semelhante ao que Volpi usa na fase das bandeirinhas. Volpi dizia que tinha muito orgulho de ter feito esses trabalhos em Brasília. Na época do convite, Niemeyer havia dito a ele que queria mostrar a importância da arte e da cultura para a nação. Por isso, a arte e a cultura estariam integrados aos centros de decisão do país pela arquitetura;.

Respeito à brasilidade

Alfredo Volpi (1896-1988), um dos maiores pintores da arte brasileira, acabou se tornando conhecido como ;o mestre das bandeirinhas;. Mas não é bem assim. Volpi não é apenas um pintor interessado no folclore e na cultura popular. As bandeirinhas entravam na obra de Volpi como signos abstratos. Elas permitiram ao pintor explorar a geometrização das formas, no sentido das sínteses, da depuração e da abstração. Só que, na obra de Volpi, geometrização nada tem a ver com uma pintura algébrica, cerebral e fria.

A pintura de Volpi é quente, ritmada, dinâmica, dançante, tanto nas cores quanto na composição de formas. Na tela, só aparece o essencial. E, para chegar a essa síntese, Volpi trabalhou arduamente. Sua formação é totalmente autodidata. Ele nasceu em 1896, na cidade de Lucca, na Itália, mas se mudou com a família para o Brasil em 1897. Os pais eram operários humildes. Volpi não tinha dinheiro para comprar telas e começou pintando em caixas de charutos.

Trabalhou como pintor decorador de paredes e pintor de estampas religiosas. A arte moderna é, antes de tudo, um grito de independência da obra em relação a qualquer modelo exterior. Volpi se torna efetivamente um pintor moderno a partir da década de 1930. Ele começou pintando figuras, naturezas mortas e paisagens. Mas, a partir da década de 1930, a arte de Volpi se desenvolve rumo a uma progressiva geometrização e abstração. Pinta magníficas séries batizadas de ;bandeirinhas;, ;fachadas;, ;marinhas; e ;ampulhetas?;. A pintura para Volpi passa a ser a linha, a forma e a cor. É uma arte que une o rigor da construção da arquitetura à alegria das cores de uma festa brasileira.

A visão de Galeno

Detalhe do painel de Galeno que substituiu o mural de Volpi na  308 Sul

O painel de Volpi destruído na Igrejinha da 308 Sul foi substituído por um novo mural criado pelo artista plástico brasiliense Francisco Galeno. Ao assistir as imagens do documentário Brasília, cidade modernista, do sueco Torgny Andenberg, Galeno ficou impressionado: ;O azul é uma cor celestial, mas o do Volpi tem a ver com as cores que ele vivenciou durante a infância em São Paulo. Ele foi pintor de paredes e aplicou a tinta diretamente sobre a superfície das paredes. O que eu usei tem mais a ver com a luminosidade intensa de Brasília ;. Enquanto Volpi pintou apenas a parede esquerda do templo, Galeno usou os dois lados para desenhar figuras de crianças com pipas e borboletas de cores vibrantes. Nossa Senhora de Fátima fica ao centro: ;É preciso cuidar da preservação do painel, pois ele está se deteriorando por falta de cuidado;, alerta Galeno. ;Pode ocorrer o mesmo que aconteceu ao painel do Volpi e o meu trabalho será destruído;.

[SAIBAMAIS]

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