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Estado de Minas

Assuntos delicados ganham leveza nas histórias em quadrinhos

Depressão, melancolia e ate suicídio são temas tratados nas histórias de Lucas Gehre


postado em 13/02/2017 08:04 / atualizado em 13/02/2017 09:49

Produção brasileira de quadrinhos atual tem variedade de temas e assuntos, defende o brasiliense Lucas Gehre(foto: Andre Violatti/Esp. CB/D.A Press)
Produção brasileira de quadrinhos atual tem variedade de temas e assuntos, defende o brasiliense Lucas Gehre (foto: Andre Violatti/Esp. CB/D.A Press)

Apontada como o mal do século, a depressão é abordada com frequência nos quadrinhos. Mestres na arte, nomes como Neil Gailman (especialmente em Morfeu) discutem a temática no que produzem. Uma comprovação de que nem só de super-heróis imbatíveis e heroínas que nunca choram são feitas as HQs, seja no formato impresso, sejam as publicadas em páginas virtuais. Além da depressão, outros sentimentos e sensações tidas como negativas – e aí se encaixam a solidão, a melancolia, a ansiedade, as crises existenciais, o pessimismo, a frustração – viram mote para diversos artistas do segmento. Mais que “mimimi”, como é chamadas na internet as reclamações sem motivo aparente, as publicações servem como ferramenta para os próprios criadores expurgarem pensamentos controvertidos.

“Há a questão de sentir que algo foi colocado em ordem, ajudando a se entender e se expressar para terceiros”, explica Julian Franco, responsável pela página Relatos de um dia incrivelmente mediano. “Acredito que os quadrinhos são a forma mais representativa e dinâmica de falar sobre a depressão. Uma tirinha pode causar uma sensação de peso tanto quanto falar friamente e de modo formal sobre isso, mas a dinâmica faz com que o assunto se expanda mais. Imagino que a maioria das pessoas se sinta melhor quando vê uma situação, sensação ou pensamento representado por meio da arte, ainda que não sejam lá de temas muito agradáveis”, defende.

Quadrinhos reflexivos viram, também, uma maneira de passar aos leitores a mensagem de que todos sofremos, em diferente grau e constância. “Os quadrinhos são uma linguagem complexa e acho que podem servir para falar de qualquer coisa, só depende da intenção do autor, ter ou não ter palavras não é exatamente o que limita o assunto de um trabalho. Inclusive, uma das coisas que mais me interessa na produção brasileira de quadrinhos atual é a variedade de temas e assuntos, a abertura”, defende o brasiliense Lucas Gehre.

Universo em bolha de tinta
 

A quadrinista Bruna Morgan enfatiza que não quer deixar as pessoas tristes com suas obras. Sempre dá o recado como uma forma de alertar o público sobre o teor das postagens. Ela não foge de temáticas com questões psicológicas como pano de fundo. Vai do bullying ao suicídio. A explosão da paleta de cores da artista se contrapõe ao simbolismo das publicações postadas no Facebook, Instagram, blog e Tumblr.

Magra de ruim 

 
Autobiográficos e surreais, as tirinhas de Sirlanney conquistaram mais de 220 mil fãs no Facebook — a ponto de, no ano passado, a série Magra de ruim virar coletânea homônima pela editora Lote 42. Grafite, carvão, aquarela e tinta guache são algumas das técnicas usadas para dar ar fluido e espaço para que a cearense fale sobre os dramas pessoais, de amor não correspondido a desilusões fugazes.

Quadrinhos insones 

 
A relação com a solidão é um dos pontos mais investigados pelos artistas Diego Sanchez e Felipe Portugal na página Quadrinhos insones. No ano passado, a série publicada desde 2012 no Facebook virou uma coletânea física, lançada pela editora Mino.

Batata frita murcha 

 
Nas imagens do coletivo dos artistas brasilienses Heron Prado, Augusto Botelho, Daniel Lopes e Gabriela Masson, assuntos como desilusão, pessimismo e frustração são recorrentes em tirinhas, geralmente, com três quadros. Sem medo de esbarrar em polêmicas, a ideia é criticar a parcela da sociedade que busca, de forma exagerada, uma felicidade utópica. Os traços manuais ficam marcadas na estética, que tende à orgânica com o uso de cores pouco vibrantes.

O coelho da lua 

 
Os traços delicados da ilustradora Dora Leroy, colaboradora da revista Capitolina e dona da página O coelho da lua, não impedem de usar caneta (ou nanquim, lápis e pincel) e papel para falar de sensações que muitos preferem evitar, como a de não pertencimento e de vazio existencial.

Relatos de um dia incrivelmente mediano

 
De camisa listrada e pele pálida, o personagem discorre sobre uma rotina não tão fantástica quanto a que muita gente prega nas redes sociais. No Facebook, a página criada no ano passado tem mais de 100 mil likes. Atualmente, há uma campanha em um site de financiamento coletivo para que a artista continue a produzir os desenhos com a mesma frequência. Temas existenciais, como a introspecção aparecem nos desenhos. A solidão, às vezes, é representada como peso, outras, no sentido positivo – a solitude.

Quadradinhas 

 
Publicadas no Facebook desde 2015, as Quadradinhas, do reconhecido artista brasiliense Lucas Gehre, tem como única regra o formato quadrado, na maior parte das vezes, dividido em nove quadros. Embora não tenha um mote específico, o processo de construção das tiras por vezes esbarra na tristeza e melancolia. “É interessante falar de um conjunto mais abrangente de emoções, sentimentos, ideias e pensamentos”, conta Gehre.

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