Diversão e Arte

Primeiro brasileiro a dirigir filme original para Netflix fala ao Correio

Diretor Fernando Coimbra conta detalhes sobre a experiência em 'Castelo de areia'. A produção, protagonizada por Nicholas Hout, estreou na sexta passada no Netflix

Adriana Izel
postado em 24/04/2017 06:00 / atualizado em 19/10/2020 11:38

Filme 'Castelo de areia' foi gravado no Oriente Médio: elenco ficou quatro meses  na Jordânia 

O paulista Fernando Coimbra se tornou o primeiro diretor brasileiro a dirigir um filme produzido pelo serviço de streaming Netflix. É dele a direção do longa-metragem Castelo de areia (Sand castle), que chegou ao catálogo da plataforma de 200 países em 21 de abril. Mas ele diz não ligar para esse título: “Na verdade, nem penso nisso. É uma coisa nova para quase todo cineasta fazer um filme que é lançado pela Netflix. É uma forma diferente de colocar um longa no mercado”. 

A oportunidade de trabalhar em Castelo de areia aconteceu por causa da boa repercussão do filme O lobo atrás da porta (2013), protagonizado pela atriz Leandra Leal, que rodou o mundo em festivais importantes como Toronto e o Sundance e deu uma projeção ao diretor internacionalmente. Além disso, Coimbra tinha uma relação anterior com a Netflix, que se juntou depois ao projeto do longa-metragem. Na plataforma, ele tinha atuado como diretor em episódios da primeira temporada de Narcos, trabalho que ele retomou na terceira sequência da série sobre narcotráfico. 
Classificado como filme de guerra, Fernando Coimbra prefere dizer que Castelo de areia é uma produção sobre a jornada de um personagem durante a guerra. O longa-metragem tem como base a história do roteirista Chris Roessner, que trabalhou como metralhador no Triângulo Sunita no Iraque. A experiência deu origem ao roteiro de Castelo de areia, que acompanha o soldado Matt Ocre (Nicholas Hout), um jovem que se junta ao exército por conta do dinheiro da bolsa universitária em 2001, meses antes do atentado de 11 de setembro, e acaba sendo enviado em 2003 para o Iraque, durante a segunda guerra do Golfo.

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Em um dos momentos, Ocre e alguns militares, interpretados por nomes como Henry Cavill (Capitão Syverson) e Glen Powell (Falvy), são enviados para a província iraquiana de Baquba para reparar um problema na estação de bombeamento de água, danificada por bombas norte-americanas. Lá precisam lidar com uma recepção nada amigável da população e é exatamente a contraditória relação entre os americanos e os iraquianos que se torna o mote da história. “Um dos principais conflitos do filme é essa motivação do soldado lutando na guerra pela primeira vez, a expectativa que ele tem dali e o conflito disso com a verdadeira motivação da guerra, os verdadeiros interesses”, defende.

Ao Correio, o diretor Fernando Coimbra falou sobre a experiência de dirigir astros hollywoodianos e fazer parte de uma produção internacional que, em vez de estrear nos cinemas, estará disponível para o público do principal serviço de streaming do planeta.

Como surgiu o convite para ser diretor de Castelo de areia?
Esse roteiro chegou à minha mão por causa de O lobo atrás da porta, um filme que teve uma carreira internacional legal e estreou no Festival de Toronto. Desde então, tem alguns produtores conversando comigo sobre fazer filme lá (no exterior). Depois de um tempo, fechei com uma agência que me apresentou o roteiro para esse projeto. Quando vi o roteiro de Castelo de areia, percebi que era uma história de guerra inusitada, gostei bastante e me identifiquei. Conversei com os produtores, que gostaram da minha visão, da minha ideia e de como eu vi o filme.

O filme está ambientado em um cenário de guerra, mas trata de questões pouco abordadas em produções dessa temática. Na sua opinião, qual 
é a verdadeira mensagem de Castelo de areia?
Eu acho que na verdade nem é um filme de guerra. É sobre a jornada desse personagem (Matt Ocre, papel de Nicholas Hout). Não é sobre a guerra em si. É um longa que fala sobre várias coisas. Um dos principais conflitos do filme é essa motivação do soldado lutando na guerra pela primeira vez, a expectativa que ele tem dali e o conflito disso com a verdadeira motivação da guerra, os verdadeiros interesses. Em toda guerra, há interesses econômicos e corporativistas. Também há esse conflito entre o lado pessoal de um soldado e as grandes máquinas.

Esse assunto da guerra voltou a se tornar assunto nos últimos dias devido ao lançamento de uma bomba norte-americana 
no Afeganistão autorizado pelo presidente dos EUA, Donald Trump, então esse tema acaba sendo ainda mais atual...
Infelizmente, esse assunto nunca deixa de ser atual. Pesquisando e lendo sobre tudo que está acontecendo para o filme, vi que ainda tem muita guerra velada, como o conflito no Egito e a guerra no Iêmen. Então tem se voltado a falar de guerra. E a guerra tem esse discurso hipócrita de defesa pelo país, liberdade e democracia. A gente volta a falar sobre esse assunto cada vez mais, da experiência dramática e traumática da guerra. Eles vendem a guerra como uma coisa gloriosa, de defender o país, uma vez que quando se chega lá, as pessoas experimentam outra realidade.

O filme se passa no Iraque e vocês de fato foram para o Oriente Médio para gravar a produção. Como foi essa 
experiência?
Foi uma baita experiência. Uma das coisas que mais me animava no projeto era o fato de viver quatro meses na Jordânia. Falar desse assunto estando ali com os árabes, iranianos e iraquianos, todas essas pessoas com quem tive oportunidade de trocar experiências, naquele ambiente, naquele cenário, viver aquilo... é muito importante mostrar os dois lados no filme. O lado iraquiano e como esses personagens interagem com os soldados. Eu estava ali entendendo o ponto de vista deles.

Você é o primeiro brasileiro a dirigir um filme original da Netflix. Qual é a sensação de ter esse título e como foi a inserção da plataforma nesse processo de construção de Castelo de areia?
A gente já tinha começado a filmar quando a Netflix ficou sabendo do filme. Eu já tinha uma relação com eles por causa de Narcos. Eles se interessaram em adquirir o filme de uma forma que fosse original da Netflix. Na verdade, nem penso nisso (no título). É uma coisa nova para quase todo cineasta fazer um filme que é lançado pela Netflix. É uma forma diferente de colocar um longa no mercado, sendo lançado no mesmo dia em 200 países e algo que as pessoas podem ver em casa. Acho que para mim a grande pergunta é como vai ser a resposta do filme, a repercussão e como tudo isso vai funcionar.

Qual é a principal diferença em fazer um filme original da Netflix?
Acho que a principal diferença é a relação que você tem com a forma como é financiado o filme, em como você é dono do produto que está fazendo. Existe um diálogo constante e maior com as produtoras. São diferentes interesses. Estou muito feliz de ter conseguido fazer o filme que eu queria. Nada foi podado, nada foi mudado tanto no texto quanto na ideia. Evidentemente tem uma estrutura maior e mais recursos disponíveis. Eu já tinha experimentado isso na primeira temporada de Narcos, em participar de uma produção grande, com estrutura grande.

Falando em Narcos, você voltou para dirigir na terceira temporada?
Sim, acabei de filmar alguns episódios da terceira temporada na Colômbia. Eu já tinha feito a primeira temporada e tinha uma afinidade com a história. Mas não foi algo planejado, como quase tudo que eu faço.

 

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