Carlos Marcelo lança novo romance policial

Com a história que se passa em Fernando de Noronha, o jornalista e escritor investiga o lado histórico da ilha e constrói trama envolvente

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postado em 03/06/2017 07:32

Daniel Oliveira/Divulgação

 

Em Fernando de Noronha, existe o mar de dentro e o mar de fora. É uma expressão local usada para se referir aos lados da ilha: aquele virado para a costa pernambucana e aquele que se abre para o Atlântico. De certa forma, a expressão também define os dois protagonistas de Presos no paraíso. Tobias, o mar de dentro, é um sujeito meio sombrio, introspectivo, com personalidade mais existencialista. Nelsão, mais solar e extrovertido, é o mar de fora. Essa percepção é fundamental para transitar pelo romance, o primeiro do jornalista Carlos Marcelo, autor de Renato Russo — o filho da revolução, Nicolas Behr — eu engoli Brasília e O fole roncou! Uma história do forró (parceria com Rosualdo Rodrigues).



Como todo romance policial que se preze, Presos no paraíso tem a tríade crime, mistério e solução, mas não se encerra nesta equação. Há um drama que pontua os personagens e cuja relevância é tão importante quanto a trama. Tobias é um historiador nascido em Brasília e radicado em São Paulo cujas finanças passam por certa dificuldade. Graças à irmã, executiva do mundo corporativo, ele recebe o trabalho de realizar um roteiro turístico nada convencional em Fernando de Noronha, algo capaz de fugir do clichê “praias paradisíacas” evocado pela ilha. À medida que esbarra nos personagens — um ator projeto de celebridade, uma dona de pousada lúcida e simples, um militar arrogante, um médico e um intelectual —, Tobias se embrenha no cotidiano da ilha. Quando o crime acontece, ele já faz parte do cenário.

Nelsão, ao contrário do forasteiro, sempre esteve ali. Noronha é seu território, conhece tão bem a ilha que dificilmente deixa passar despercebido um detalhe qualquer. Único delegado do local, incumbido de investigar o crime, Nelsão é um detetive clássico: bonachão, às turras com um problema de saúde (precisa emagrecer), condescendente com pequenas desimportâncias (como os bichos grilos e seus cigarros suspeitos), atento ao que merece atenção.

No livro, Tobias e Nelsão se encontram desde o início graças a um incidente que coloca o historiador em evidência: um desentendimento com um militar durante o início de um voo que acaba abortado quase compromete o historiador, mas Nelsão evita um desfecho absurdo para uma arenga boba. E é uma Fernando de Noronha do B que se descortina para Tobias. Acompanhado de dois livros – Fora do mundo, de Gastão Penalva, e Fernando de Noronha, de Amorim Netto — essenciais para compreender como era a ilha antes de se tornar destino turístico badalado, o historiador passa a trabalhar em dois roteiros: um de lugares alternativos e outro, noturno. Mesmo quando dois assassinatos se tornam fatos conhecidos, nada parece perturbar realmente o cotidiano dos personagens, ao não ser o de Nelsão. E aí está parte do charme do romance. Apesar da trama, o drama de cada um segue.

Da irmã, Luciana Carvalho, que trabalhou na administração da ilha, Carlos Marcelo ouviu as histórias que despertaram a vontade de escrever Presos no paraíso. Mas foi durante uma viagem a Noronha, em 2014, para fazer uma reportagem sobre locais menos turísticos e mais históricos que ele começou a realmente concretizar o romance. “Eu tinha pesquisado um pouco e estava muito interessado nessa história de Noronha como presídio, essa história mais sombria”, conta o autor, que já foi editor de cultura e editor-executivo do Correio Braziliense e hoje é diretor de redação do Estado de Minas. Antes de entrar para o imaginário nacional como um paraíso, Fernando de Noronha foi uma prisão para detentos políticos. Passaram por ali Miguel Arraes e Carlos Marighella. Com o tempo, como escreve Carlos Marcelo, a ilha passou de “Alcatraz a Havaí”.

Noronha, além de tudo, era o lugar perfeito para um subgênero da literatura policial. “Quando estive em Noronha surgiu o insight de que a ilha representa uma possibilidade muito fascinante para um escritor de romances policiais. Um dos subgêneros mais celebrados do romance policial chama-se o crime do quarto fechado, que é quando tem um cadáver num quarto fechado e fica aquele mistério: como alguém entrou para matar e como saiu? E pensei que podia transportar essa ideia para Noronha, que é um ambiente fechado, só que por água por todos os lados”, explica.

A vontade de contar histórias que fugissem do clichê turístico e de recuperar um pouco o lado histórico de Noronha se juntou a outro desejo do autor, o de escrever um romance policial. “Muito antes do jornalismo, sempre fui um grande leitor de romances policiais. Foi, talvez, o primeiro gênero literário que tenha me fisgado. Entre os 12 e 15 anos li toda a obra da Agatha Christie. Achava fascinante a questão dos mistérios. E uma coisa que só percebi depois é que ela também traçava um perfil da sociedade britânica do início do século 20 nos livros dela. Achava muito interessante isso de, através de um gênero literário, você traçar o perfil de uma época”, conta.

A lista de referências de Carlos vai dos clássicos Dashiel Hammet e Raymond Chandler a autores mais contemporâneos, como Dennis Lehane, Leonardo Padura Fuentes e o brasileiro Luiz Alfredo Garcia Roza. Ele bebeu em todos eles mas, como escreveu Milton Hatoum, não se limitou ao gênero. “Presos no paraíso é e não é um romance policial, e essa é uma das grandes virtudes do livro. Os dramas que seus personagens atravessam são os mesmos dos grandes personagens da literatura universal, mas ambientados em uma realidade brasileira, em uma trama de suspense”, escreveu o autor de Dois irmãos. Em entrevista, Carlos Marcelo fala sobre o livro, sobre Noronha e sobre uma possível missão para o romance policial.




Presos no paraíso
De Carlos Marcelo. TusQuets Editores, 284 páginas. R$ 39,90. Lançamento hoje, às 17h, na Livraria Cultura do Iguatemi.




Entrevista /  Carlos Marcelo


Presos no paraíso tem uma trama policial, mas também um certo drama que faz dos personagens criaturas mais sólidas. Foi uma intenção? 

O que me interessa nessa história está numa frase que o Cristóvão Tezza falou recentemente, que só li a posteriori, que a literatura é drama e trama. No caso dele, está mais interessado no drama que na trama. No meu caso, estou interessado nos dois: em ter uma trama sólida, mas que seja protagonizada por pessoas que carregam dramas.


Você diz que está interessado na trama e no drama. Enquanto estava escrevendo, isso foi um dilema? 
 Só percebi isso a posteriori, com essa frase do Tezza. Fui escrevendo porque queria muito contar essa história. Fui tomado pela história. E dentro desse processo surgiu um recurso que é alternar o narrador da primeira para a terceira pessoa. Isso não é muito comum. O livro trabalha em dois tempos e com dois narradores. Ele começa no presente, com o incidente do avião e o crime, a investigação do Nelsão avança enquanto a gente vai vendo o passado do Tobias. E o que me deu a chave disso foi uma característica de Noronha: existe lá uma expressão muito forte que é “mar de dentro e mar de fora”. 


Como Amorim Netto e Gastão Penalva entraram na história?
Foram companheiros de jornada. Fui atrás deles para fazer a reportagem de Noronha. Quando fui me preparar para a reportagem, antes de ir para Noronha, já tinha comprado esses dois livros. São duas grandes reportagens. Um é de 1916, o outro de 1934/35. Eles retratam dois períodos diferentes em que Noronha tinha sido presídio. Essas marcas do passado estão muito presentes, mas vão se apagando também.


Na ficção contemporânea, é muito clara a intersecção entre a experiência  vivida e a literária. Mas no romance policial isso não é tão comum. O vivido é importante para você?
Acho que sim, mas não necessariamente a minha experiência. Você tem razão, no romance policial isso não é um recurso muito comum. Agora, (o livro) é uma somatória de experiência, vivência e observação. E a pesquisa entra em segundo plano, ao contrário do jornalismo. Isso é importante destacar. A pesquisa entra muito mais a serviço da narrativa. Mas essa tríade é fundamental para mim: invenção, experiência e observação. São os três fatores que ajudaram a construir essa história.


Literatura policial ainda é considerada entretenimento? 
Ricardo Piglia é uma grande referência na valorização do gênero policial, que durante muito tempo foi tratado como subgênero. Era apenas literatura de entretenimento. O Piglia foi um dos primeiros intelectuais a reconhecer o valor literário do gênero policial como um outro gênero da literatura, onde há grandes escritores, escritores medianos e medíocres, como em todos os gêneros. Mas sem fazer um julgamento a priori, porque se trata de um gênero policial. Depois de muito tempo sendo tratado de uma forma rasteira, passou a ter esse reconhecimento.


Então não é mais considerado um subgênero?
Acho que tem mudado, mas o desafio maior no Brasil não é nem a questão do reconhecimento da literatura policial e sim o reconhecimento da literatura. A gente está num dilema anterior a esse. Esse é um dilema do Primeiro Mundo, não é um dilema brasileiro. É um dilema de nações que, intelectualmente, têm uma formação mais sólida e que leem. Seria ótimo que houvesse debate sobre isso no Brasil, mas nem a discussão sobre a literatura brasileira contemporânea existe. 


E a literatura policial no Brasil, ela tem uma cara, uma identidade?
Acho que não há uma identidade e isso é ótimo, há uma diversidade da literatura policial brasileira. Não há uma característica que una, a não ser o próprio país. O mais interessante na literatura brasileira, e vou citar o Padura como exemplo, é quando surgem elementos de um país e de uma cultura dentro dessa narrativa clássica. A gente não consegue pensar no Espinosa (de Garcia Roza) sem Copacabana, ele faz uma descrição muito minuciosa. Em Faca de dois gumes, Fernando Sabino insere elementos brasileiríssimos para fechar a história policial. Isso sempre dá um ganho quando acontece. 


Em que sentido Presos no paraíso é um livro de seu tempo?
As questões políticas e sociais do Brasil estão impregnadas nos personagens. Por exemplo, a falta de perspectiva do Tobias, as dificuldades burocráticas que o Nelsão tem para comandar a delegacia, essa dualidade entre as aparências e o que é de verdade, esse abandono do patrimônio histórico. Mas acho que a literatura policial, se é que tem uma missão contemporânea, é a de devolver a relevância do ato extremo que é um crime. O crime está banalizado no nosso dia a dia e não há como competir com essa banalização. Não há nada mais extremo que morte de crianças, uma das armas do terrorismo atual, e a literatura policial tem esse poder de mostrar a dimensão do impacto que é uma morte, tanto para a vítima e seus familiares quanto para o algoz.

 

 

 

 

 

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