Angela Maria lança disco cantando Roberto Carlos. Confira entrevista!

Perto dos 70 anos de carreira, Angela Maria relembra o início da trajetória e o desafio de cantar o Rei

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postado em 20/06/2017 06:30 / atualizado em 20/06/2017 09:15

Murilo Alvesso/Divulgacao

Eterna rainha do rádio, Angela Maria é rara remanescente da geração de cantores que tinham nesse veículo de comunicação o mais importante instrumento para propagar a música produzida no país, isso num dos períodos mais ricos da história da MPB. Aos 87 anos, mantém-se em plena atividade, encantando a quem a ouve com sua voz cálida, marcadamente romântica.Na vitoriosa trajetória artística, Angela gravou canções dos mais importantes compositores brasileiros — de Adelino Moreira a Chico Buarque, de Ciro Monteiro a Caetano Veloso, de Dolores Duran a Djavan.


Com o repertório de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, a diva teve contatos esparsos. No CD Amigos, que lançou em 1996, a rainha juntou sua voz à do rei, em Desabafo. Depois interpretou O portão, no Eu voltei, disco de 2011, que marcou seu retorno aos estúdios após oito anos de ausência.

Mas, justamente agora, neste momento importante da carreira, ela revela toda a paixão pela dupla ao lançar o álbum Angela Maria e as canções de Roberto & Erasmo, que acaba de chegar ao mercado, com produção de Thiago Marques Luis. No repertório foram reunidas composições dos anos 1960 e 1970. Predominam clássicos como Não se esqueça de mim, Sua estupidez, Como é grande o meu amor por você, Sentado à beira do caminho, Jovens tardes de domingo e a citada Desabafo. A elas se juntam as menos conhecidas Eu disse adeus, Despedida e Você em minha vida.

Perto de completar 70 anos de carreira, Angela, em entrevista ao Correio, exibiu memória prodigiosa lembrando de fatos que ajudam a contar sua história. Do anonimato em Conceição de Macabu, pequena cidade do norte fluminense, onde nasceu e foi batizada com o nome de Abelim Maria da Cunha, à fama e glória.

A grande estrela da música popular brasileira, obviamente, se deteve nos detalhes do seu novo trabalho, lançado pela gravadora Biscoito Fino, no qual chama a atenção os duos com Erasmo Carlos em Sentado à beira do caminho; e com Cauby Peixoto, na canção Como é grande o meu amor por você — esta composta apenas por Roberto.




Entrevista/ Angela Maria

O que guarda na memória como primeira manifestação do seu interesse pela música?
Eu me lembro de que, aos 4 anos de idade, sentada na soleira da casa dos meus pais, em Conceição de Macabu, cantando o samba É batucada, do repertório de Aracy de Almeida.


Com que idade começou a cantar publicamente?
Quando eu tinha 14 anos, minha família deixou Conceição indo para o Rio de Janeiro, fomos morar no bairro do Estácio, onde havia a 1ª Igreja Batista do Rio. Nas aulas de evangelização, minha voz de soprano lírica sobressaía. Aí fui convidada para integrar o coro da igreja. Mas foi por pouco tempo, pois queria mesmo era cantar no rádio.


No rádio, qual foi sua experiência inicial?
Aos 15 anos, participei de programas de calouro de emissoras como a Tupi, a Mundial e a Clube do Brasil. No programa do Ary Barroso, me classifiquei em primeiro lugar, com um tenor do Theatro Municipal. O Renato Murce, a quem conheci na Tupi, me aconselhou trocar o canto lírico pelo popular. Ele achava que eu tinha um tipo brejeiro, bem brasileiro e que devia cantar samba. Como era fã de Dalva de Oliveira, a estrela do Brasil, comecei a imitá-la. Além disso, sabia quase todo o repertório dela.

Quando se tornou cantora profissional?
Isso aconteceu quando fui contratada para ser crooner no Dacing Avenida, muito famoso na época, que ficava na Avenida Rio Branco. O pessoal do rádio e das gravadoras frequentava aquela gafieira e acabei sendo descoberta por um divulgador da Copacabana, que me levou para fazer um teste na Rádio Mayrink Veiga. O diretor da rádio estava fazendo uma renovação no cast e fui contratada, mas com uma recomendação: que eu parasse de imitar a Dalva e de cantar só músicas do repertório dela. Baixei o tom da voz e comecei a interpretar músicas de outros compositores. Um deles foi o Ciro Monteiro, que se tornou meu fã. Em 1951, para o desgosto da família, estreei na Mayrink e já comandando o programa Angela Maria canta. O nome artístico eu havia adotado um pouco antes. Lá fiquei por quatro anos. Comecei a gravar e minhas músicas se tornaram sucesso, chamando a atenção da Rádio Nacional, da qual a Mayrink era a maior concorrente.

A estrela Angela surgiu na Rádio Nacional?
Sim. Lá eu passei a ter um programa, intitulado A rainha canta, que antecedia o de César de Alencar, o maior destaque da Nacional. Como contratada daquela emissora é que fui eleita Rainha do Rádio.


O apelido de Sapoti lhe foi dado por quem?
Pelo presidente Getúlio Vargas. Numa festa de réveillon na mansão de Victor Costa, diretor-geral da Rádio Nacional, o presidente Vargas era o convidado especial. Eu e outros artistas da emissora, como Dircinha e Linda Baptista, estávamos presente. Quando fui apresentada ao presidente, ele me abraçou e me chamou de Sapoti. Disse que eu tinha uma cor semelhante à de uma fruta brasileira muito doce; assim como a minha voz. Carrego esse apelido até hoje, com muito orgulho.


Qual foi o seu primeiro grande sucesso?
Orgulho, um samba-canção de Nelson Wederkin e Waldir Rocha. Depois vieram outros, como Lábios de mel, também de Waldir Rocha; e Vida de bailarina, de Américo Seixas, Chocolate e Dorival Silva.


Mas sua marca registrada é Babalu, música afro-cubana da compositora Margarida Lecuona, que ganhou versão de Humberto Porto. Trata-se de um marco em sua carreira?
Tantos anos depois de eu gravá-la, em um vinil pela RCA Victor, continua sendo meu carro-chefe. É a música mais pedida pelo público em meus shows. Até hoje, tenho muito prazer em interpretá-la, mesmo exigindo muito da minha voz.


Tempos depois, você gravou Gente humilde, de Garoto, que recebeu letra de Vinicius de Moraes e Chico Buarque. Que importância você atribui a esse clássico da moderna MPB?
Ao gravá-la, fui descoberta pelas novas gerações, por pessoas que não acompanhavam minha carreira. Gente humilde, canção belíssima de Garoto, recebeu letra de dois extraordinários poetas, Vinicius e Chico. Assim como Orgulho, Lábios de mel e Vida de bailarina, Gente humilde está sempre no repertório dos meus shows.


Já Vida de bailarina, lançada por você, foi regravada por Elis Regina, que era sua fã. Quando, e em que circunstância, conheceu Elis?
Ela estava no auge da carreira e quando alguém lhe perguntava quem a influenciara, fazia questão de afirmar que sempre foi minha fã. Nunca tínhamos nos encontrado, até que o Ronaldo Bôscoli, que à época era o marido dela, me convidou para participar de um especial que a Elis iria fazer na TV Globo. Quando comecei a cantar Vida de bailarina, ela começou a chorar. A partir dali nos tornamos grandes amigas. Fiquei abalada quando ela partiu para outra dimensão.


Com foi para você a perda de Cauby Peixoto, seu maior amigo?
Convivo com uma tristeza permanente, desde que a música brasileira perdeu o seu maior intérprete. Cauby foi uma das pessoas mais presentes em minha vida. Sempre muito educado, atencioso, me tratava como uma irmã. Gravamos juntos e dividimos o palco incontáveis vezes. O penúltimo show da nossa turnê de despedida foi em Brasília — no Net Live, em 26 de fevereiro de 2016. O último aconteceu no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. É grande a saudade que tenho de Cauby.


Você já gravou alguns dos mais importantes compositores brasileiros — de Adelino Moreira a Chico Buarque. O que a levou a fazer um álbum só com músicas de Roberto e Erasmo Carlos?
A ideia foi do empresário Mamoel Poladiam, responsável por minhas turnês. Ele sugeriu a Daniel D’Angelo, meu marido e produtor, e ao Thiago Marques Luis, responsável pela produção de outros discos meus. Os dois conversaram comigo sobre o projeto e aceitei fazer na hora, até porque já os havia gravado em CDs anteriores, inclusive em duo com o Roberto. Antes da gravação, o Roberto fez um show em São Paulo, fui assistir e depois ele me recebeu no camarim. Ficou feliz quando falei sobre o projeto e disse que eu poderia gravar qualquer música de sua obra, em parceria com o Erasmo. Eu e o Thiago decidimos então por um repertório com canções dos dois das décadas de 1960 e 1970, que abrangem a Jovem Guarda e o início da fase romântica do Roberto.


Houve um encontro com o Erasmo para vocês gravarem Sentado à beira do caminho?

Havíamos nos encontrado no palco, há tempos. Mas para a gravação dessa bela canção de 1969, o Thiago mandou o take para ele, que colocou a voz. Foi ótimo ter o Erasmo no CD.


Como foi o processo para o registro do duo com Cauby em Como é grande o meu amor por você, a única assinada apenas por Roberto Carlos?
A voz do Cauby foi retirada de uma gravação de 2013, feita para o CD Reencontro — o terceiro que gravamos juntos. O take da voz de Cauby é diferente do usado anteriormente, com um novo arranjo.





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Jean
Jean - 20 de Junho às 11:48
Ângela Maria, símbolo de outra época outro Brasil, outro Mundo,como as coisas mudaram, a família ficou triste decepcionada por ela cantar na Rádio, hoje as pessoas se esganam para fazer sucesso e serem reconhecidas. Ainda bem que ainda existem pessoas destas épocas douradas do Rádio,com talento, canto em excelência e qualidade de letras, hoje o panorama musical está horrível,pode ter até coisas boas, mas são raras exceções.