Mostra de teatro reúne companhias da cidade e aposta na diversidade

Evento acontece fora do Plano Piloto e tem a intenção de descentralizar o teatro

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A ideia do projeto veio da necessidade de encontrar espaços disponíveis e financeiramente acessíveis para estrear espetáculos. A partir da vontade de levar sua criação ao público e mostrar que o teatro se renova e dialoga constantemente com os novos públicos, seis coletivos de artistas criaram a Mostra do Obsoleto Teatro. O nome é uma autoironia e brinca com a questão de que, tendo estado presente nas sociedades mais antigas, o teatro recria seus espaços e leva ao palco questões de seu próprio tempo. Serão seis companhias, 12 dias de espetáculos e 18 apresentações na mostra que reúne jovens grupos independentes e atuantes na cena cultural da cidade. Entre eles, Ovelha Dolly, Extinção, Aleatório, Maniva, O Lá — Sobre viver em quadrados e Mini Cabaré Tanguero.

Larissa Souza, atriz e uma das criadoras da Mostra, destaca que, com as tecnologias que a despontam a todo instante, além da diminuição nas relações humanas de encontro, costumes básicos se tornaram obsoletos, como o tato, a escuta e o olho no olho. “Todas essas coisas são premissas do teatro em suas várias estéticas. Nas artes cênicas buscamos esse encontro do espectador e do ator. O teatro se atualiza a todo momento e levamos ao palco os temas que estão fervilhando no momento. É uma ferramenta política ainda muito atual”, declara.

A atriz destaca que a escolha pelo Espaço Pé Direito veio da vontade de colaborar com a descentralização das artes no Distrito Federal, levando os espetáculos para fora do Plano Piloto. Na mostra, Larissa atua no espetáculo Maniva, um monólogo criado a partir do poema-peça Os três malvados, de João Cabral de Melo Neto. No palco, a atriz se concentra na preparação de uma maniçoba e, durante o trabalho, vive um encontro consigo mesma.




“Uma vez me disseram que os novos filmes, além da exibição em 3D, terão cheiros, sensações e, quem sabe um dia, até serão ao vivo. Eu espero que o teatro um dia seja moderno assim”
Larissa Souza,  atriz e uma das idealizadoras da Mostra do Teatro Obsoleto



A mostra apresenta peças construídas a partir de diferentes estilos e estéticas, possibilitando que públicos diferentes possam ser contemplados com os espetáculos. Para Larissa, um importante meio de renovar o público teatral e expandir sempre seus espectadores é investir na pedagogia teatral e na inserção do teatro dentro do ensino formal. “É fundamental ter acesso ao teatro nas escolas quando pensamos na renovação de público e na amplitude que o diálogo teatral pode alcançar”. A atriz destaca que, como arma política, é importante expandir sempre a produção e troca de experiências. Para ela, é a partir dos encontros que artistas e espectadores podem se relacionar com visões e ideias diferentes dos temas que permeiam sua própria sociedade.

Enquanto isso, o ator Fernando Carvalho se prepara para levar ao palco o texto escrito e dirigido por ele,Ovelha Dolly, que ganha vida na pele da atriz Micheli Santini. A inspiração para a história veio após a descoberta de que a ovelha mais famosa do país havia sido clonada há 20 anos, tendo sido abatida poucos anos depois de seu sucesso. “Fiquei inspirado para tratar de temas que acho importantes para a cena, como a situação das celebridades artísticas, a ciência manipulando a vida no planeta e o sacrifício”, conta o diretor.

Para Fernando, o teatro não tem nada de obsoleto e nos tempos atuais, onde a representatividade, lugar de fala e protagonismo são amplamente discutidos, ir ao teatro é uma experiência artística extremamente eficaz. “O encontro de um ser humano com o outro é tão complexo e tem tantas possibilidades de leitura que não há cinema 3, 4, 5D que consiga reproduzir a sensação”.

O autor destaca que o teatro é sempre feito para o público contemporâneo e que faz parte de um grupo que se empenha em trazer espectadores diferentes para o teatro da cidade. Como o mercado produtivo e de circulação teatral ainda não é tão forte na cidade, atrair novos nichos para as plateias torna-se uma estratégica de muitos grupos da capital. “Sempre batalhamos para trazer ao teatro aquelas pessoas que têm preconceito ou já desistiram por puro tédio. Às vezes, os novos públicos se afastam de tipos de teatro que já nascem mortos, com saudosismos do passado”, afirma.

Marcelo Nenevê dirige, ao lado de Paco Leal, o espetáculo O Lá Sobre viver em quadrados, que fala das tentativas de se manter disponível em um mundo de opressão e captura. Ele conta que o nome da mostra surgiu durante uma brincadeira nas reuniões de preparação. “Estávamos comentando o que se estuda atualmente para o cinema, além do efeito de três dimensões, e o sound surround, querem que ele passe a ter cheiro. Então a Larissa Souza, disse: ‘Eles estão inventando o teatro!’”.

No espetáculo que dirige, Nenevê conta que o tema principal da história dialoga com muitos que vivem nos grandes centros urbanos: um homem e uma mulher que moram em um lugar que não querem e trabalham em algo que não gostam em busca de um sonho que provavelmente nunca virá. Todos os coletivos da mostra são compostos por artistas que trabalham ativamente na capital, sem subsídios estatais ou privados. A ideia é mostrar que a produção atual contemporânea dialoga com seu tempo e que o desejo de fazer circular a criação cultural movimenta a cena no DF.



Obsoleto teatro
Mostra, de 14 de julho a 06 de agosto, sempre às 18h e 20h30, no Espaço Pé Direito (Vila Telebrasília). Sextas, às 20h30; sábados e domingos, às 18h (exceto nos sábados 15 e 29/07) e 20h30. Ingressos antecipados a R$15, no dia R$ 20 (meia-entrada) e R$40 (inteira).
 
 
 
 
 
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