Espetáculo 'Caipora quer dormir' leva ao palco a questão do afeto

A peça também trata do atropelo das urgências cotidianas

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postado em 13/07/2017 07:30 / atualizado em 12/07/2017 17:50

Diego Bresani/Divulgação

Dois grandes nomes da cena teatral brasiliense se encontram para levar ao palco reflexões poéticas a respeito do conturbado cotidiano urbano atual. Em Caipora quer dormir, com direção de Jonathan Andrade e interpretação de Giselle Rodrigues, os artistas optam por dar destaque aos desejos e anseios dos indivíduos modernos. Construído como uma fábula, o espetáculo trabalha com a linguagem do humor e busca inspiração nos quadrinhos e desenhos animados. O título irônico da montagem imprime certo ar infantil à peça, que concretiza-se como uma produção para adultos. A história ganha contorno a partir das angústias dos tempos atuais e as múltiplas exigências a que somos submetidos. Com pouco texto, a narrativa é construída a partir do primoroso trabalho corporal de Giselle e será acompanhada de um intérprete em libras em todas as sessões.

A personagem nasceu a partir de exercícios de improvisação feitos pela atriz com o coletivo Aisthesis e, desde então, surgiu o interesse do diretor para concretizar a parceria. Caipora é uma figura caricata e sua história é contada  com material fornecido pela intérprete e novas histórias propostas por Jonathan. “Muito do material vem de cima da minha própria vida, inspirado em um cansaço de tudo aquilo que a gente tem que fazer, no meu caso, como professora, artista, esposa”, lembra Giselle.

O processo criativo mescla essas histórias pessoais com inspirações externas e destaca a exigência constante que o ser humano atual tem em fazer muitas coisas. A atriz conta ainda que o espetáculo busca retomar as raízes dos indivíduos, que têm sido perdidas em meio à pressa cotidiana e completa: “Tem também um resgate de uma ancestralidade, caipora tem esse grito de retomar o contato com a ancestralidade e com a natureza. Ela abre para essa observação, essa constatação do quanto a gente está se distanciando da terra”.

Buscando um caminho alternativo, a artista destaca que busca trabalhar com as questões do afeto, do amor e do carinho em suas criações, no lugar de retratar o que já se vive em questão de violências. “Busco trabalhar velocidades mais lentas, a gente já fica tão atordoado o dia todo, corre tanto. Tento buscar o diálogo com o público por meio da afetividade, de um resgate à sensibilidade, da aproximação pela lentidão, pelo carisma”, declara.

Quebra de barreiras
Depois de sua temporada na Funarte, o espetáculo segue para circulação nas escolas, em busca do fortalecimento na formação de um novo público. Para Giselle, é fundamental trabalhar com esse público jovem, que é curioso, sedento por informação e aberto à vida. A atriz lembra que a temporada na escola ajuda a quebrar diversas barreiras e destaca: “É importante que os alunos venham ao teatro também, mas quando vamos às escolas, ao espaço deles, é fantástico, cria-se muita empatia e proximidade. E isso também quebra um pouco aquela ideia de que eles não teriam acesso, de que o teatro é distante”. Além disso, a diversidade de público, que passa a variar entre estilos e idades, contribui para que o próprio espetáculo enriqueça, levando novos olhares a quem está no palco e na plateia.


“Talvez seja a ironia, a irreverência e a poesia as chaves de Caipora para reinventarmos tudo de novo”
Jonathan Andrade


Como foi esse encontro criativo com a Giselle?
Um encontro muito intenso. Giselle é uma intérprete vulcânica. Tem uma performance com as digitais de um corpo muito experiente, inteligente, que desdobra tudo, multiplica tudo, dança tudo. Isso sempre foi absurdamente inspirador para mim. O incrível de todo encontro criativo talvez seja encontrar uma identidade de trabalho que respire o tanto que acolhemos daquilo que temos como potência e o tanto que também somos capazes de nos subverter. Para expandir é também preciso subversão. 

Como o teatro contemporâneo dialoga com os novos públicos? Você pensa nisso quando vai criar, interpretar ou produzir um espetáculo?
Teatro é encontro, partilha. Impossível não pensar. É irremediável buscar o diálogo. É uma experiência que só existe pela troca. Aí também reside nossa dificuldade: há um embrutecimento das nossas humanidades, das nossas escutas. A comunicação tem sido muito desafiadora, e vejo o teatro contemporâneo se reinventando na tentativa de novos horizontes. Percebo uma tentativa imensa em afetar o outro, em tornar as produções mais próximas, atrativas, contundentes, com temáticas que precisam ser problematizadas. A conjuntura política atual é bastante hostil à cultura, e percebo  que o teatro contemporâneo tem buscado arduamente driblar essa realidade e encontrar-se em afeto com o público.
 
 
 



Caipora quer dormir
Teatro Plínio Marcos (Funarte), quinta e sexta, às 20h30; amanhã, às 17h e 20h30; domingo, às 17h e 19h30. Dias 20/07 e 21/07, às 20h30. Os ingressos custam R$ 10 (meia-entrada). A classificação indicativa é de 14 anos.
 
 
 
 
 
 

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