Com o filme Fala comigo, diretor brasileiro avança no debate feminista

O romance entre uma quarentona e um adolescente é o provocativo ponto de partida da trama

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 13/07/2017 07:48 / atualizado em 12/07/2017 19:07

Bruno Melo/Divulgação

 
 
Aos 35 anos, o diretor Felipe Sholl estreia em longa-metragem com um título polêmico, que avança um tanto mais no exame do feminismo. Fala comigo, a estreia nacional de hoje, trata do olhar da sociedade (e do espectador), quando uma mulher com mais de 40 anos se vê apaixonada por um rapaz com menos de 18. O filme chega às telas, premiado no Festival do Rio, como melhor longa e melhor atriz (Karine Teles). Ao lado de Jean-Claude Bernadet e de Rubens Rewald, Sholl faturou, há seis anos, o Troféu Candango do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, por Hoje.

Você acha que polemiza, ao falar de feminismo?
O feminismo terá muitos passos. Quando comecei a escrever o filme, não pensava em levantar bandeiras. Achei que seria interessante contar a história de amor entre uma mulher mais velha e um garoto mais novo. Quando mostrei o roteiro para as pessoas, senti que havia uma resistência muito grande. Esta aversão é uma expressão que reforça o machismo. A sociedade patriarcal é que diz: “Ok ter o homem mais velho com a mulher mais nova”. Isso tem a ver com poder, com a mulher ser valorizada somente pela beleza. O presidente da França, Emmanuel Macron, por exemplo, é casado com uma mulher bem mais velha do que ele, e que inclusive foi sua professora.


Como foi a produção de Fala comigo e como você fixou tão bem o roteiro?
Meu filme custou R$ 983 mil e trocados (risos). Meu curta Tá (2008) ganhou prêmio no Festival de Berlim, e isso foi muito importante para mim e para minha carreira. Fala comigo (o longa) entrou, daí, no Talent Project Market, segmento do mesmo festival alemão em que jovens produtores e diretores buscam caminho para parcerias internacionais. Foi lá que detectei a visão de fora das pessoas. É importante saber se comunicar com espectadores em escala internacional. Depois, fui selecionado para a Cinéfondation (integrada ao Festival de Cannes). Na vivência, há um caráter educativo. O filme foi formatado ainda no Festival de Buenos Aires e em Roterdã.


Há pruridos em externar tua sexualidade? 
Pra mim não há delicadeza de tratar o assunto: eu sempre fui gay assumido. Isso é uma parte importante da minha vida e do meu trabalho. Ganhar o Teddy (prêmio que distingue obra de fundo LGBT, no Festival de Berlim) foi importante para mim; não só como artista, mas como pessoa. Ali, me vi participando de uma comunidade internacional. O Fala comigo nem tinha, a princípio, esta trama que incluía traços LGBT. A experiência em Berlim, de ter sido premiado, foi muito formadora para mim.


Algum projeto futuro mais imediato?
Meus próximos filmes trarão aspectos LGBT. Vozes, por exemplo, vem de um roteiro da Carol Castro. Serei diretor, e, numa das tramas, uma garota faz as pazes com a sexualidade dela, se descobrindo lésbica. No meu futuro longa, o Glória, voltarei à crueza. Ele abarca o mundo dos garotos e das garotas de programa — foi pela experiência que escrevi o roteiro. Morei três anos em São Paulo, perto do Largo do Arouche (uma reconhecida área ligada à prostituição). Com Glória, vou explorar pontos cariocas como a Cinelândia. Falarei de cocaína e HIV, entre outros temas.


Não há exposição gráfica de nudez, no filme. Por que a opção?
Na verdade, sempre achei mais excitante imaginar as situações do que vê-las. Quanto a algumas inspirações, sempre gostei de acessar um site chamado Beautiful Agony, marcado pelas imagens, em closes, de rostos no momento do prazer. A questão da representação da masturbação transcorreu naturalmente. Como eu tinha 23 anos, a adolescência ainda estava fresca na minha cabeça (risos). Puxei experiências do cinema. O filme Felicidade (de Todd Solondz), de 1998, tinha o Philip Seymour Hoffman no papel de um cara que, ao fone com desconhecidas, gozava na parede. Já, de experiência minha, eu tive as lembranças da peça O despertar da primavera, em que, adolescente, interpretei um rapaz que tinha o hábito de se masturbar, lendo livros com personagens femininas. O personagem imaginava coisas como ele matando Desdemona do Othello, de Shakespeare, e se masturbava (risos).
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.