Exposição traz a Brasília alguns dos quadros mais importantes do Masp

Entre as pinturas, há obras de Renoir, Manet e Picasso

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postado em 18/07/2017 07:00 / atualizado em 18/07/2017 15:56

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O Museu de Arte de São Paulo (Masp) pode até não comportar adjetivos que o encaixem em um período específico da história da arte, mas não há como deixar de notar a excelência da coleção quando se trata da produção do fim do século 19 e da primeira metade do 20. Combinada com a ideia de museu sem adjetivo defendida pelos seus criadores, essa coleção permite a liberdade exercida pelos curadores Rodrigo Moura e Luciano Migliaccio na exposição Entre nós — A figura humana no acervo do Masp, em cartaz a partir desta terça-feira (18/7), no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB).


Pinçadas entre as 8 mil peças que compõem o acervo do Masp, as cerca de 100 obras escolhidas pela dupla estão ali para falar não de escolas e épocas, mas da eterna necessidade humana de se representar. O tema atravessa praticamente toda a história da arte e é na pintura religiosa do Renascimento italiano que Moura e Migliaccio decidiram iniciar essa narrativa visual que traz a Brasília algumas das obras mais importantes do museu paulistano.

"A figura humana é um tema que atravessa as várias histórias da arte, é um tema muito comum, com o qual todo mundo se relaciona e que nos permite fazer esses cinco núcleos de interpretação da coleção que são momentos de encontro das obras", explica Moura. "Essa exposição nasce do desejo do museu de se reinventar a partir de sua própria história."


Representações

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Dividida em três espaços, Entre nós tem início com dois núcleos intitulados Presenças e Retratos. No primeiro, pinturas e esculturas religiosas dialogam com várias maneiras de representação espiritual. Lado a lado, um Ecce homo de Tintoretto, um São Francisco de El Greco e um São Sebastião de Pietro Perugino falam dos ideais clássicos da representação do corpo e estabelecem uma ponte atemporal com uma Virgem de Copacabana de contornos cusquenhos e autor desconhecido e uma série de estatuetas ibeji do povo Yorubá, ambas obras dos séculos 18 e 20.

"Esse núcleo tem a ver com a representação ou a presentificação da figura humana no contexto religioso ou espiritual. A gente chama de presenças porque algumas dessas imagens têm caráter votivo. Outras têm caráter de presentificar mais que representar", diz Moura. Enquanto telas como a de Perugino carregam o desejo de representar um corpo escultural, à maneira mais clássica da tradição renascentista, as esculturas africanas têm a função de dar presença a um corpo ausente, de presentificar alguém que se foi.

Na sala seguinte estão alguns dos nomes mais importantes da arte europeia em uma série de retratos cujos detalhes muito revelam sobre o pintor e o retratado. Em Retrato de jovem aristocrata, Lucas Cranach, conhecido por eternizar os líderes da reforma protestante da Alemanha renascentista, carrega o retratado de símbolos: uma coroa de flores para indicar as bodas, um anel e um broche para marcar a procedência do rapaz, e a barba rala, indício da pouca idade do modelo. É um trabalho diferente dos retratos naturalistas de Frans Hals e dos traços barrocos de Anthony van Dyck e Peter Paul Rubens, expostos na mesma sala ao lado de Francisco Goya y Lucientes e Diego Velázquez.


Multiplicidade

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Os franceses de diferentes escolas também estão presentes, com destaque para a Angélica acorrentada, de Jean-Auguste Dominique Ingres, e para dois retratos de Jean-Baptiste Camille Corot e Gustave Courbet. Uma dama negra montada em um cavalo traz o impressionismo de Édouard Manet para completar o passeio pela história da arte. Aqui, os curadores inseriram um pequeno mimo: ainda que um tanto deslocado em meio aos retratos, A educação faz tudo, do barroco Jean-Honoré Fragonard, imprime um ar de frivolidade para o conjunto.

Na galeria seguinte, o século 20 se faz especialmente presente em Corpos, com esculturas e pinturas que entram nos campos das experiências das vanguardas — há um belíssimo Picasso da fase cubista analítica e um enorme retrato de Modigliani — ou simplesmente investigam a figura humana, seja no ambiente doméstico, seja no ateliê como modelo vivo ou o nu, tema eterno da história da pintura. Da Arlesiana, de Vincent van Gogh, aos corpos bem torneados do Pobre pescador, de Paul Gaugin, de O negro Cipião, de Paul Cézanne, e da banhista de Pierre-Auguste Renoir, passando pelas esculturas das bailarinas de Edgar Degas, a mostra oferece uma diversidade didática, mas sem exageros.

Os brasileiros estão presentes, principalmente, nas figuras de Vicente do Rego Monteiro, com um menino de formas marajoaras produzido durante a fase parisiense do artista, Djanira, Belmiro de Almeida, Almeida Júnior e Antonio Parreiras. No subsolo, o visitante vai se deparar com uma arte na qual o popular e o engajamento social tomam a dianteira. Ali, boa parte dos artistas são latino-americanos e falam de realidades sociais. “É uma exposição de estudo, mas não para especialistas e sim para o público em geral, e que traz essas questões argumentativas conceituais do museu diverso e múltiplo, que está na essência do projeto atual do Masp”, avisa Rodrigo Moura.

 

 Entrevista: Rodrigo Moura

 

Qual a vantagem e a desvantagem de o Masp não ser um museu com adjetivos?

A vantagem é que você não está muito amarrado, não tem amarras de caráter dogmático, de só poder colecionar arte moderna, ou brasileira, ou europeia. Acho que é uma vantagem enorme, você pode ter um museu mais diverso, plural. E hoje a gente está discutindo todos esses temas de pluralidade no Brasil, isso é muito importante. O museu, de certa maneira, já estava preparado para esse tipo de entendimento ou de possibilidades. A desvantagem é que você tem que inventar isso sempre, não pode tratar como um dado, uma coisa parada no tempo, porque o museu precisa existir no aqui e agora.

 

Isso é também uma necessidade de um país como o Brasil, que tem poucos museus e pouco público para eles?

Não acho. Acho que talvez isso tenha motivado o museu a ser dessa maneira. Paris, por exemplo, você tem uma estrutura museológica mais pesada, dura e ultrapassada.  Mas se você pega uma cidade mais interessante, como Nova York, você não tem tanto peso quanto tem na Europa, você tem sobreposições de acervo nos museus, mas a maneira como eles mostram é completamente diferente. Isso, às vezes, é uma armadilha porque a gente vai discutir que o museu deve manter essa vocação plural, que ele tem de reinventá-la e a gente é confrontado com coisas do tipo  “ah, não pode colecionar arte africana porque tem museu afro”, ou “não pode colecionar século 19 brasileiro porque tem a pinacoteca”. Mas isso é uma mentira, porque cada museu vai enquadrar algo. Esse generalismo não  pode ser entendido como uma necessidade apenas, ele tem que ser entendido como uma ferramenta crítica. Quando eles inventaram o Masp não tinha os outros museus, então precisava realmente de um museu que comportasse tudo. O importante é que ele não nasceu como um museu enciclopédico. O museu enciclopédico quer dar conta do todo. E a gente não quer dar conta do todo er sim do plural, da diferença.

 

 

Você falou que a exposição é didática. Qual a importância de ser didático? E como evitar o excesso de didatismo? 

Acho que a importância é de ser inclusivo, deixar que as pessoas tragam suas referências, que elas não sejam super alimentadas com questões críticas, mas que elas existam. E que as obras possam ser bem lidas, que as coisas estejam claras, compreensíveis. Essas questões subjazem aqui, mas não é um exercício de história crítica do museu. Essas questões estão colocadas, mas o importante é que  as pessoas possam se relacionar e entender.

 

 



SERVIÇO
Entre nós — A figura humana no acervo do Masp
Abertura hoje, às 19h30, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Visitação até 18 de setembro, de terça a domingo, das 9h às 21h.

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