Criador da Osklen, Oskar Metsavaht mergulha na arte em 'Soundtrack'

Estilista gaúcho, Oskar Metsavaht brilha no mercado da moda e da arte: de 2016 para cá, fez três exposições. Uma delas vai para o Vaticano no ano que vem

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postado em 19/07/2017 06:00 / atualizado em 18/07/2017 18:14

Mari Vianna/Divulgação
 
Médico, documentarista, fotógrafo, atleta, empresário e diretor-criativo da grife Osklen, o gaúcho Oskar Metsavaht sempre demonstrou abertura para universos diferentes. O primeiro deles apareceu aos 23 anos, quando se mudou de Caxias do Sul para o Rio de Janeiro, onde estudou medicina ortopédica. Amante de esportes radicais (do surfe ao snowboard), surpreendeu os cariocas ao vender roupa para neve na cidade em que não é raro os termômetros ultrapassarem os 40ºC.
Somada a um reconhecido apuro estético e sensibilidade artística, a ousadia no mercado de moda teve uma recompensa. A marca sempre foi uma expressão de quem ele era, o que vivia e, principalmente, dos lugares que conhecia. Das montanhas nevadas do Chile à exótica Finlândia.
 
Incansável, Oskar Metsavaht acumula funções — ou “camadas”, como prefere chamar — sem deixar que uma tenha menos valor que a outra. Foi o primeiro estilista brasileiro a ganhar reportagem de página inteira na Vogue americana. É também Embaixador da Boa Vontade pela Unesco. E, bom lembrar, tem a admiração de nomes como Madonna e Sting.
 


A lista de experiências aumentou no fim do mês passado. O currículo artístico ganhou corpo. De 2016 até agora, ele assinou três exposições. Uma delas, Cristo Redentor – Divina Geometria, será exposta no Vaticano na Páscoa do ano que vem. O livro da exposição foi enviado para o papa Francisco e ele gostou.
 

Presente para o papa

 
“Vou presenteá-lo com uma das obras. Tenho videoinstalações, fotografias e pinturas. Estou gostando muito das últimas. Não que eu queira me afastar da tecnologia, mas é na pintura que vejo uma pureza do gesto e uma facilidade maior de imprimir o meu interior. Minhas pinturas são bastante abstratas. Sou filho da geração dos neoconcretos. Talvez seja cedo para afirmar uma coisa dessas, mas é uma percepção”, conta.

A desconstrução, uma das características das peças da marca que criou, também aparece no mais recente projeto. Mais que filme, Soundtrack, da dupla de diretores 300ml, se desdobra também na exposição em cartaz no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo. Com Selton Mello, Seu Jorge e o britânico Ralph Ineson no elenco, o longa conta a história de um artista em conflitos existenciais que vai para a Antártica participar de uma estação polar de pesquisas.
 

O filme 


Selton Mello interpreta o protagonista como ator, e Oskar, como artista. O convite veio dos diretores, que acharam a estética parecida com outros trabalhos de Metsavaht. Foi a primeira experiência dramatúrgica do gaúcho. “Tive que me despersonalizar, o que um ator normalmente faz. Eu fiz as fotos, mas precisava pensar como esse artista, o personagem, faria seus autorretratos dentro de um processo de crises existenciais. Ele vai se apagando ao longo do filme. Estudei autorretratos de Rembrandt, Francis Bacon, Van Gogh, Frida Kahlo, Andy Warhol. Passei a entender muito mais sobre isso”, resume.
 

 
“Sou um fotógrafo-artista, não só um ator. Existe uma desconstrução da imagem. Não são selfies. Fui à Islândia com eles para ver o espaço, para ver como faríamos a cenografia. Não fotografei o set. Interpretei o personagem como artista e saiu um resultado artístico. Vivi e me identifiquei com aquela experiência. Na exposição, com nove imagens, cada uma delas é do tamanho de um cartão-postal e tem uma nuance técnica. E quando se coloca os fones de ouvido e se ouve a trilha sonora, isso emociona. A música e a pintura, aliás, são as artes que mais me emocionam”, acrescenta Oskar.
 
Não temos que categorizar tudo, colocar em estantes, porque as coisas mudam muito. A medicina sempre fez parte do meu trabalho como designer. Quando fiz meu primeiro casaco, usei o que sabia do corpo humano. Criei uma peça permeável ao suor, que mantinha o calor, e permitia os movimentos. Isso envolveu física, biologia e bioquímica. 

Cristo Redentor 
Divina Geometria reabriu o Museu Histórico da Cidade do Rio de Janeiro, na Gávea. Outra mostra de impacto aconteceu em março deste ano. Ipanema por Oskar Metsavaht ocupou a Casa de Cultura Lauro Alvim, também na capital carioca. Antes, as fotos já haviam sido exibidas no exterior, em galerias de Aspen e de Buenos Aires. Nas fotos, em preto e branco, Metsavaht busca a sintonia entre opostos. Ele tem uma pintura e uma instalação entre as obras que compõem o Museu de Arte do Rio de Janeiro (MAR) e do próprio do Museu Histórico da Cidade.

Entrevista / Oskar Metsavaht

Faz 20 anos que você deixou a medicina para investir exclusivamente na moda. Essa dedicação a arte é outro ponto de virada na sua carreira? 
Não é virada porque eu vou acumulando experiências e conhecimentos. Eu abandonei a prática como médico, mas a medicina é um conhecimento, sempre vai me acompanhar. Não temos que categorizar tudo, colocar em estantes, porque as coisas mudam muito. A medicina sempre fez parte do meu trabalho como designer. Quando fiz meu primeiro casaco, usei o que sabia do corpo humano. Criei uma peça permeável ao suor, que mantinha o calor, e permitia os movimentos. Isso envolveu física, biologia e bioquímica.

É uma intervenção física?
As pessoas esquecem que a roupa envolve o corpo humano. Fazer roupa é criar essa camada física sobre o corpo humano. A moda — que é comportamento humano, social, cultura — é uma camada imagética que se coloca sobre esse mesmo corpo humano. Essas coisas vão se acumulando. O corpo humano e o ser humano, aquele que se emociona, que é sensível às coisas. Primeiro, eu conheci o corpo humano, depois, vi como envolvê-lo com uma camada. Nos últimos 15 anos, experimentei também como interpretar a cultura e o comportamento da sociedade. A moda é isso, a nossa personalidade visual em relação aos outros.

E qual dessas “camadas” experimenta agora com mais frequência?
A que fica sobre o corpo, aquilo que me cerca. Uma camada imaginária, abstrata, não mais imagética. Essa camada é esse exercício de arte. Na realidade, eu não vou passando de uma função para outra. Não é isso. Vou continuar fazendo moda. Meu olhar e o espírito que trago para a marca continuarão. É lógico que quanto mais coisas viver, mais ela fica interessante. Tenho uma equipe há mais de 20 anos comigo e que confia no meu trabalho. Mas sou eu quem traz o conceito, moods, texturas e elementos de estilo de cada coleção. Um olhar artístico e conceitual. As coleções têm que estar dentro desse olhar. Para reconhecer uma roupa da Osklen não é preciso ver a etiqueta. Tenho meu estúdio de arte na Osklen e outro para projetos independentes. Ambos inspirados por mim, pelo meu estado emocional, as coisas que vivo, vejo, imagino, etc. Eu sempre quis ter tempo para experimentar meu trabalho em uma plataforma independente da moda. São trabalhos diferentes, mas a inspiração é a mesma.
 
Pode um estilista ser artista?
Comparo meu trabalho na Osklen a de uma orquestra sinfônica, por exemplo. Tem o compositor (estilista), o maestro (diretor de criação), os músicos (designers). O estilista é aquele que transforma o abstrato em uma linguagem estética. A combinação de elementos cria um estilo, seja para qual plataforma for. Por quê tem marcas que vão mudando, que a cada ano estão de um jeito? O que espero é que, ao ver uma peça da Osklen, se saiba imediatamente de onde ela é pela composição dos elementos. A gente não se perde porque a cada coleção agrego algo novo. Posso fazer algo inspirado em cachoeiras, por exemplo. Ou a chuva, que inspirou uma linha completa.

Poderia ser um quadro de pintura?
Aquilo entra como mais um elemento, uma composição. O processo é bastante artístico, embora não abstrato porque trago cartela de cores, sensações, texturas, e até crio personagens dentro de um tema. É como se fossem instrumentos, como se cores fossem texturas de um quadro. Elementos de pintura que criam a minha imagem final. Poderia ter transformado esses elementos em quadros. Não digo que é uma regra, mas o que aconteceu comigo. Até hoje eu crio algumas peças, mas não tenho compromisso de fazer uma coleção inteira. Temos um estúdio de fotografia dentro da Osklen e tudo é feito ao redor do meu estúdio. Nada é terceirizado. 
 
Como reagiu a um boicote contra a Osklen proposto na internet, pelo fato da marca pertencer a holding J & F, mesmos donos da JBS, de Joesley Batista?
Foi uma situação muito chata. A Osklen é sócia da Alpargatas, uma das empresas do qual a J & F é investidora. São empresas separadas do grupo. A Alpargatas é uma empresa de 100 anos que tem uma filosofia, uma história riquíssima, tem seus valores. É um símbolo nacional. Trocaram os acionistas, mas a cultura da empresa se manteve. A empresa não tem a nada a ver porque não temos opção, qualquer grupo que compre as ações da Alpargatas vai ter controle sobre ela. Mas as pessoas fizeram questão de sujar o nome da Osklen, uma marca que há mais de 25 anos só faz projetos sustentáveis, sociais, culturais. Que leva o nome do Brasil para o exterior de forma positiva. Isso é a pobreza de espírito que existe nas pessoas. Para mim, isso é de última, é uma das coisas mais pobres que se pode ter. Não afetou a empresa. Você acha que alguém vai querer mudar uma empresa que está dando certo? Alguém vai mudar as Havaianas, as peças de Osklen?

Em paralelo 
Oskar Metsavaht não é o único estilista que faz imersões artísticas paralelas ao trabalho no mundo fashion. O mineiro Ronaldo Fraga já está acostumado a frequentar galerias dentro e fora do país. Em 2014, ele expôs no Design Museum, em Londres, a coleção Carne seca, inspirada na caatinga brasileira. Outro nome que equilibra as funções entre croquis e tecidos com as artes é o paulista Fause Haten. Dedicado ao teatro desde 2006, esteve em cartaz em março deste ano no musical Lili Marlene.

Crítica
Soundtrack 
» Ricardo Daehn
 
 Oskar Metsavaht/Divulgação

Na era da exposição extremada, a preferência pelo isolamento. Cris (Selton Mello) é o protagonista de Soundtrack, que traz uma espécie de fuga por meta. Pretende combinar o estado de espírito, sintonizado com playlist que leva para um rincão glacial, com as pretendidas selfies que o estado de espírito dele venha a ditar.

Explorando contexto da formação de amizades (ou as barreiras sentidas na inóspita estação polar), os diretores Bernardo Dutra e Manitou Felipe, que trabalham sob o codinome 300ml, querem mesmo é traçar a escaleta psicológica de uma sensibilidade ferida (no caso, a de Cris).

Soundtrack tem um quê de Battleground — O preço da glória (1949), um filme de guerra com Van Johnson e Ricardo Montalbán, mas que renegava a guerra. O filme da dupla 300ml fala de arte, mas a escamoteia — protelando um reconhecimento de feitos para o artista em questão, a ser celebrado a posteriori.

Com roteiro acomodado no que parece improviso, o longa ficou muito superficial. Bons atores (em especial, o britânico Ralph Ineson) se perdem na exuberância dos reflexos de uma natureza selvagem. Entre o embate fixado pela importância da ciência e o acalentar proposto pelo fazer artístico do fotógrafo Mello e em meio a discussões globalizadas e mimimi de artista, impressiona mesmo é o lúcido discurso de Alfred Hitchcock — resgatado pela produção — que salienta o prazer da felicidade, construída em suprema paz interior. 
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