'Ser ator é viver na corda bamba', diz Otávio Augusto

Otávio Augusto comemora 50 anos de carreira celebrando o fato de estar em atividade, mas com a preocupação de quem viveu tempos ruins e teme que eles estejam de volta

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postado em 20/07/2017 07:00 / atualizado em 20/07/2017 10:05

Globo/Cesar Alves

 
Nos últimos 50 anos, o Brasil passou por profundas mudanças políticas e sociais. Os militares tomaram o poder e a democracia foi reestabelecida. Tenebrosas transações foram descobertas e nossa pátria mãe distraída acordou, foi às ruas e pode ter adormecido outra vez. Novas gerações chegaram e não mudaram muita coisa — ou mudaram?

Foi de cima do palco que Otávio Augusto viu e viveu tudo isso. Não apenas como mero espectador, mas, muitas vezes, como ator (literalmente) das ações. Foi assim quando, alvo da censura, viu o espetáculo Calabar ser cancelado mesmo depois de a montagem estar toda pronta — “o ensaio geral havia sido feito”, lembra. Foi assim também quando, por duas vezes, assumiu a presidência do Sindicato dos Artistas e Técnicos do Rio de Janeiro, num “bom trabalho, reconhecido à época” e recusou o convite para se candidatar a uma cadeira no Congresso Nacional. “Não temos bons exemplos de sindicalistas que entraram para a política”, afirma, divertido.

Agora, é nos palcos da capital que Otávio Augusto comemora os 50 anos de carreira. Sábado e domingo, ele e mais quatro atores encenam A tropa, peça na qual vive um militar que recebe os quatro filhos no leito de hospital. Completamente diferentes, os cinco relembram passagens que marcaram o país que, nas palavras de Otavio Augusto, passa hoje por um momento “tenebroso”.

Em entrevista ao Correio, o ator lembra passagens da carreira, fala sobre política e sobre o produzir cultura no país. Sem se classificar como otimista, Otávio se diz privilegiado por fazer o que gosta e por poder, como a esperança, viver sempre na corda bamba.

Entrevista // Otávio Augusto

 
O espetáculo A tropa passa por 50 anos da história do Brasil e o senhor está comemorando 50 anos de carreira. Há como traçar um paralelo entre a sua carreira e o espetáculo?
Com certeza. A peça fala de coisas que a minha geração viveu nos anos 1960 e 1970. E a formação do meu personagem é militar, um fato relevante na história do Brasil nos últimos 50 anos. É uma coisa ainda muito próxima.

O senhor estava desde 2009 afastado dos palcos. O que o motivou a voltar com A tropa?
O teatro é o lugar para onde eu sempre volto, gosto sempre de fazer teatro. Em 50 anos de carreira, fiquei muito pouco tempo sem fazer teatro. A tropa me chegou às mãos em um desses intervalos e achei que era o momento de esse texto ser dito. É uma peça extremamente oportuna para o Brasil de hoje, que só fica mais e mais atual a cada dia.

A tropa fala de momentos políticos brasileiros. Como define o momento pelo qual estamos passando?
É tenebroso. Nunca vi a população tão perdida, tão insegura. E me parece que o problema continua sendo a justiça (ou falta dela). Quem hoje é levado preso, amanhã está solto. Não há dinheiro para imprimir passaportes, mas há dinheiro para troca-troca no Congresso. É ofensivo para a população.

Nesse tempo de carreira, o senhor viu de perto a ação da censura durante o governo militar. Como era fazer teatro àquela época?
O cruel naquela época é que a censura só se manifestava na véspera da estreia, muitas vezes. Era um jogo no escuro. No Calabar, por exemplo, houve o ensaio geral e só depois a peça foi proibida. Isso quebrava qualquer companhia ou produtor.

Somos há muito tempo descritos por nós mesmos como o país do futuro. Vê saída para nosso futuro?
Esse futuro está cada vez mais looooooonge... (risos). Se o nosso futuro for esse que se apresenta a cada dia... Deus me livre! (risos).

Além de política, A tropa fala sobre afeto. Os tempos modernos, na sua opinião, banalizaram o afeto, por meio da urgência das redes sociais?
Mais que isso, banalizaram a vida. É uma faca de dois gumes cruel. As pessoas estão mais conectadas, mais próximas, e ao mesmo tempo mais afastadas, individualistas.

Aos 50 anos de carreira, como o senhor avalia o “fazer cultura” no país? Está mais difícil levar espetáculos ao palco ou filmes às telas atualmente? 
Fazer cultura sempre foi difícil no Brasil. Somos uma classe desprestigiada. A cultura está sempre relegada a segundo ou terceiro plano. Mas hoje está quase impossível. As leis de incentivo à cultura são importantes, mas acabaram por selecionar quem e o que seria beneficiado. “Fulano que conhece sicrano que indica beltrano dentro da tal estatal que patrocina cultura”. Há uma censura econômica. Só alguns grupos têm/tinham acesso a patrocínios.

Como driblar a “dependência” de um apoio governamental no patrocínio a espetáculos?
É difícl, porque os custos são altos: aluguel de teatro, passagens aéreas, anúncios nos jornais. E 90% do público paga meia. Como pagar altos custos recebendo a metade? A conta não fecha. Mas na montagem de A tropa estamos conseguindo. Brasília é a sétima cidade em  que fazemos a peça, sem um real de patrocínio. Não é o ideal, mas é possível.

O senhor tem trabalhos significativos na tevê, no cinema e no teatro. Como se definiria como ator?
Um ator, apenas. Não importa o veículo. E ser ator é viver na corda bamba (risos). Tem um lado na profissão que é o prazer. Sou um privilegiado e tenho essa consciência: faço o que gosto.

O senhor é de uma geração de atores que  dava mais atenção ao teatro do que à fama rápida trazida pela tevê. Como vê essa nova geração de atores que está surgindo? Alguém te chama a atenção?
Não é que se não se dava atenção à tevê, mas é que vivíamos de teatro e para o teatro. Era possível viver apenas de teatro. Mas em um certo momento, a tevê precisou dos talentos do teatro e nos recrutou. Há muita gente boa na nova geração, prefiro não citar nomes para não ser injusto. O que falta mesmo é mais oportunidades de lugares e espaços para se trabalhar.

Os personagens de político são frequentes na sua carreira. Já pensou em se dedicar à política?
Eu fui presidente do Sindicato dos Artistas e Técnicos do Rio de Janeiro, de 1975 a 1978, e depois, de novo, nos anos 1980. Foi um bom trabalho, reconhecido à época. Queriam me lançar como deputado, mas eu disse que não. Sindicato é união de classe, isso me interessa: unir a minha casse. Mas política, não. Não temos bons exemplos de sindicalistas que entraram para a política... (risos)

Em sua última novela, A lei do amor, o senhor viveu Venturini, um senador preso. Esse diálogo com a realidade é uma função da ficção? Ou é apenas um “plus”?
É impossível fugir da realidade! Ainda mais nesse país, jogado na mão dessas pessoas, que não largam o osso, não param de inventar manobras para não saírem do poder. O senador que interpretei na novela poderia ser real. A crise de representatividade é gigantesca.

O humor também é uma tônica de sua carreira. O senhor é uma pessoa bem-humorada, otimista?
O brasileiro é bem-humorado. O humor é um dos meios que tenho para trabalhar. A melhor forma de crítica é pelo humor. É o caso de A tropa. O público se diverte muito e reflete as críticas a partir do riso. Mas otimista não sou. Otimismo, como diz o (Carlos Heitor) Cony, é coisa de quem não tem consciência da verdade. A realidade não permite otimismo.

Recentemente, a novela Vamp deu origem a um musical. O senhor sente saudades do Matoso? Ainda é reconhecido por ele?
Ainda sou muito reconhecido por ele e me divirto! Mas as coisas têm sua época e seu tempo, não tenho saudosismo.

Muitos atores reclamam que não há papéis interessantes para intérpretes mais velhos. Sente essa diferença?
Tem uma diferença nítida: o ator envelhece. Não há a mesma disponibilidade física de quando se tem 20 anos. Mas temos muitas outras coisas boas a oferecer que só a idade traz.
 
SERVIÇO
A tropa
Espetáculo de Gustavo Pinheiro. Direção: César Augusto. Com Otávio Augusto e grande elenco. Teatro da Unip (913 Sul). Sábado e domingo, às 20h. Ingressos a R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia-entrada). Não recomendado para menores de 14 anos.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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