Ceilandense Adirley Queirós ganha destaque internacional com novo filme

Era uma vez Brasília foi produzido em dois anos pelo diretor

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postado em 22/07/2017 07:25

Terratreme Filmes/Divulgação

Com R$ 350 mil de orçamento propostos pelo FAC (Fundo de Apoio à Cultura), em dois anos e meio de “condizente” trabalho, o diretor ceilandense Adirley Queirós comandou o documentário Era uma vez Brasília. Na fita, há cenas do Congresso Nacional, de Samambaia e a ênfase se dá nas questões da periferia, com foco nas condições individuais e na relação das pessoas com a capital federal.


“O filme traz minha experiência mais radical de linguagem com um universo em que há quase uma paranoia por parte de personagens na instância de como serão representados num filme. Jogam com a imagem deles, entendem que serão representados no filme e mostram como queriam ser retratados. Na relação com o cinema, quebram ciclos de opressão política e policial”, explica o diretor.

Numa versão leve, como artista, Adirley alcançou o Festival de Locarno (ele apresentará a fita na Suíça, em 5 de agosto), com uma revisão da inauguração de Brasília —  em tom documental, mas que abraça dados fantasiosos, como uma fracassada tentativa de crime contra Juscelino Kubitschek.

“Na trama, há um personagem que estabelece uma aventura de alucinação, na era do JK. A verdade no cinema é um lugar de construção, de estabelecimento de categorias sociais. O audiovisual traz meio para a afirmação intelectual de classe”, comenta o ceilandense, ao explicar o desvio de rota, em termos de documentário convencional.

No longa Era uma vez Brasília, despontam faces comuns como as do ator Wellington Abreu, do serralheiro Franklin Ferreira e de Andreia, ex-bibliotecária e professora de autoescola. “No filme, revelo situações como as do ator Marquim do Tropa, desempregado, mesmo sendo unanimidade. Ele é um performer que larga currículos em seleções com pessoas que têm olhos fechados e fica sempre sem respostas”, avalia o diretor.

Apresentar um viés “contemporâneo” para o cinema é quase obrigação assumida por Adirley Queirós, à frente de filmes como Branco sai, preto fica e A cidade é uma só. “O novo filme talvez seja a mais radical nas minhas apostas. Cinema é construção e pretendo reverter discussões, quebrando paradigmas”, observa.

No exterior chamada de Once there was Brazilia, a fita de Queirós, além do orgulho (“quando um filme ganha asas e cresce, é lindo”), cutuca uma instabilidade. “É importante lidar com o diálogo internacional do cinema; nunca se condicionar ao esperado. Claro que há a importância do Glauber Rocha, que está presente, num legado maior. Mas, no Brasil, cinema tinha a obrigação de ser dinâmico, em termos de linguagem: se o dinheiro é público, há obrigação de se prestar contas e avanços na gramática dos filmes são quesitos solicitados até em editais”, pontua o diretor.

Morto, sem enterro

Selecionado para o 45º Festival de Cinema de Gramado, Bio é um longa assinado pelo diretor Carlos Gerbase. A sinopse acusa feitos do protagonista do documentário tratado não apenas como algo falso, mas como um registro “impossível” de ser expressado no audiovisual. Na trama, um homem, morto aos 101 anos, tem na biografia a formação de quatro famílias e descobertas científicas que, em depoimentos de 39 pessoas, resgatam acontecimentos ocorridos até 2070.

Duas perguntas // Manuela Dias


“O grande diferencial do ser humano está no feito de narrar histórias”, sublinha a cineasta Manuela Dias, às vésperas do lançamento do filme de estreia dela, o romântico Love Film Festival. Estrelado por Leandra Leal e pelo colombiano Manolo Cardona, o longa tira o chão da “roteirista profissional” Manuela Dias, enquanto a “diretora amadora” Manuela cria em cima de um clima de realidade (com uma câmera que tudo observa, à la documental) e que acolhe muito improviso. “O cinema é uma arte muito jovem para ser aprisionada em conceitos. Precisamos é legalizar o roteiro, com reconhecimento, num país em que temos profissionais como Gilberto Braga, João Emmanuel Carneiro e Bráulio Mantovane. Sou uma contadora de histórias que admira desde os narradores gregos a Stanley Kubrick, Ingmar Bergman, passando por Woody Allen e Coppola”, resume.


Como uma comédia pode remeter à estrutura documental?

Jean-Luc Godard me guia, na vida (risos). Ele disse que “o melhor filme de ficção caminha em direção ao documentário, enquanto o melhor documentário caminha em direção à ficção”. É um princípio muito útil para mim. Fomos pautados tanto em termos espaciais quanto temporais nos moldes de documentários. Durante seis anos, filmamos por uma semana, a cada ano e meio. Queria que a ficção fosse apoiada na realidade, nas mudanças de vidas dos atores. Gosto muito e me interessa borrar o limite da ficção. Nas cenas imersas em contextos reais, eu avisava os figurantes. Mas quando o foco era mais fechado, a gente ia indo se infiltrando na realidade, sem avisos.

Não fica restritivo centrar o filme na dinâmica (real) dos festivais de cinema?

Apesar de aparente pele cinematográfica, é um filme que aponta para a vida. Dialoga com todos: quem não teve seu amor sazonal, amor de verão? É um ponto de partida familiar a muitas pessoas: um amor que te afeta e te mobiliza muito, periodicamente. Havia roteiro, mas inserimos improvisos. Os atores se conheceram, de verdade, na primeira gravação: queria o primeiro olhar deles, em cena, então separamos eles, desde o início. Queria um clima muito fresco. Mas, ao trabalharmos com o improviso, com a realidade friccionando a ficção, não estamos numa posição inaugural. Do Opinião pública, do Arnaldo Jabor, ao Iracema, passando pelo Di, de Glauber Rocha —  alguns diretores investiram nisso.
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