Lázaro Ramos lança livro sobre pluralidade cultural e estigmatização

A leitura convida o leitor a refletir sobre a pluralidade da cultura brasileira, a discriminação e a herança africana

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postado em 24/07/2017 06:00 / atualizado em 24/07/2017 09:42

Objetiva/Reprodução

 

Na minha pele está longe de ser uma biografia e Lázaro Ramos faz sempre questão de reforçar esse detalhe. O ator de 38 anos não gosta da ideia de autobiografia quando se tem ainda uma boa caminhada pela frente. O esclarecimento é importante para mergulhar em Na minha pele porque ali há, sim, relatos autobiográficos, mas são apenas trechos usados para ilustrar um tema que Ramos considera urgente e relevante. É um livro sobre a questão racial e a importância da pluralidade com uma proposta de diálogo que convide a sociedade brasileira a refletir sobre o tema.

 

O ator começou a escrever o livro há 10 anos, mas deixou o projeto de lado. Achou que estava muito técnico, pouco emocional, excessivamente analítico. “Eu tentava analisar os dados ligados à população negra e criar uma narrativa a partir daí. E acho que era o necessário para aquele momento em que comecei a escrever. Era um momento em que os dados sobre os negros estavam aparecendo de uma forma muito chocante. E o diálogo que a sociedade estava estabelecendo com esses dados era de diagnóstico”, conta. Desde então, Ramos teve dois filhos com a também atriz Taís Araújo, e passou a ocupar o que chama “lugares de maior responsabilidade” como artista. Interpretou o galã malvado André Gurgel em Insensato coração, começou a escrever e atuar no seriado Mister Brau e dirigiu e atuou em O topo da montanha, adaptação de texto da americana Katori Hall sobre as últimas horas de Martin Luther King. Este último, Ramos garante, é o projeto mais importante de sua vida.

 

Na minha pele tomou outra forma desde aqueles dias em que o ator começou a analisar os dados do IBGE. Ficou muito mais emocional e isso fica claro especialmente no início do livro, quando ele fala sobre a família e a infância na ilha do Paty, na Bahia de Todos os Santos. Naquela época, ele conta, não tinha muita consciência das diferenças impostas pelo racismo. Ser negro não era uma questão para o menino, até porque praticamente todo mundo na ilha era da mesma família e, quando se referiam à cor, os familiares diziam: “A gente, que é assim”. A consciência se instalou aos poucos, quando, menino, ele se mudou para Salvador para morar com a tia e estudar.

 

No livro, Ramos narra episódios de discriminação, reflete sobre a questão racial, sabe que fala de uma posição de exceção, mas também dá voz aos outros, incorpora depoimentos e enriquece o debate. Das entrevistas realizadas para o programa Espelho, no qual conversa com personalidades sempre enfatizando aspectos da cultura negra, o ator trouxe muitos depoimentos preciosos. Pessoas como a escritora Ana Maria Gonçalves, autora de Um defeito de cor, a jornalista Glória Maria, o ator Zózimo Bulbul, primeiro protagonista negro da televisão brasileira, ganham voz para falar do tema.

 

É importante, assim como é importante a postura do próprio Lázaro Ramos, um dos nomes que ajudou a mudar a presença do ator negro na televisão brasileira. Em Na minha pele, ele explica porque nunca aceitou nem aceitará papéis em que apareça com uma arma na mão ou nos quais seja um escravo sempre ameaçado pelo tronco.

 

Nas novelas, ele foi o empresário Foguinho, protagonista de Cobras & lagartos, e André Gurgel, o sedutor em Insensato coração, papeis que colocavam num protagonismo distante dos estereótipos. No grupo baiano Bando de Teatro Olodum, escola importante de formação, ele encarnou personagens clássicos do teatro que raramente são oferecidos a atores negros. Ramos fala disso no livro numa triste constatação. Na minha pele é exercício de cidadania, leitura essencial para quem quer um Brasil menos desigual e mais diverso.

 

Objetiva/Reprodução

 

Na minha pele

De Lázaro Ramos. Objetiva, 148 páginas. R$ 34,90

 

 

Você diz que escreveu um livro para todos os leitores. Como é isso?

Tento abraçar todos porque a transformação vai ser possível se todos fizerem alguma coisa. Sem abrir mão de ter contundência e revelar coisas dolorosas. A cada linha, fui descobrindo estratégias de aproximação sem abrir mão do conteúdo. Não foi uma coisa fácil, mas foi muito importante quando a editora me disse “Lázaro, escreva como você conversa, mesmo que não tenha uma linha cronológica. Isso me libertou, porque o livro é cheio de hipertexto, eu mudo de assunto, trago novos formatos de escrita e é como uma conversa. E,  com isso, entendo que o diálogo sobre a formação de identidade e preconceito no Brasil ganhou novas vozes, que aparecem no mundo artístico, na academia, e isso faz com que o interesse pelo que está sendo dito tenha sido ampliado.


O título foi sugerido no contrato há 10 anos e era provisório. Por que resolveu mantê-lo?

Eu não sugeri manter, eu não lembrava. O primeiro título sugerido foi Na minha pele, e eu recusei porque disse: esse livro tem que ser mais que um livro sobre a pele, esse livro tem que ser sobre outras coisas. Eu acho que esse livro é sobre quem nos cerca e o título que eu tinha proposto era A ilha, porque tinha uma alusão à ilha da minha família e também a você estar cercado pelo mundo e ter uma sensação de observação. Era minha tese. E quando a gente foi lançar o livro, esse título fez todo sentido, porque o conteúdo do livro falava de uma pele que não é só minha, apesar de o livro se chamar Na minha pele. Hoje, isso ganha sentido de aproximação. Ele fala na minha pele, mas é da pele de todos nós e da pele quanto à sensibilidade, não é só ligado à cor. Acho que a maneira como o conteúdo foi abordado deu sentido ao título.

 

Você escreve: “Fazer mais um livro sobre o ponto de vista de uma exceção não ajuda em nada a questão da exclusão dos negros no Brasil”. Isso te fez hesitar. Por quê?

Porque eu ainda não tinha inserido novas vozes nesse capítulo especificamente. Uma das estratégias que encontrei foi fazer reverência e aproximar do livro de outas vozes para tirar essa situação de exceção e não ficar só um livro de celebração ou um livro de queixa. Era isso que não queria. Queria que fosse um livro um pouco mais complexo. O que ajudou foi trazer as vozes de Conceição Evaristo, de Viviane Mosé, Muniz Sodré e, ao mesmo tempo, de nomes como Karol Conka, Thassia Reis, Luciane Nascimento, Glória Maria. Essa aproximação com outras vozes gerou o sentido. E acho bom eu ter me preocupado com isso.

 

Falamos corretamente sobre identidade no Brasil?

A gente ainda tem um ranço do período da Belle Époque, quando a gente queria ser francês. A diversidade é tão importante pra gente e a gente escorrega várias vezes negando quem nós somos. É uma constatação diária. Hoje, vejo várias pessoas com discurso oposto a isso, com discurso de aceitação e, inclusive, de interesse pelo outro. É isso que gosto de valorizar, o interesse pelo outro e a autoestima, o saber sua potência e visualizar o outro como possível potência. Mas não vejo isso como prática diária. A gente precisa lembrar o tempo inteiro.


Você se sente lembrado o tempo inteiro? E lembra o tempo inteiro?

Claro que não. Por isso, é importante a gente se colocar no lugar de escuta também. Pra você ter uma ideia, o movimento feminista está ganhando uma força muito bonita no país. Mesmo todos os seus conflitos, é uma voz muito importante na nossa sociedade hoje. E como homem, me sinto lembrado várias vezes por várias mulheres de como estão as minhas ações. E isso é bom. Eu não sei se eu seria capaz de estar alerta o tempo todo e que bom que tem alguém para me alertar. Que bom que tenho minha tia-avó pra me lembrar de algumas coisas, que bom que tenho minha mulher pra me lembrar de algumas coisas, que bom que tenho minhas amigas para me lembrar de algumas coisas. Às vezes, é um lugar de incômodo também, porque a gente quer acertar e, quando nos chamam a atenção, é uma fragilidade. Mas é um exercício importante. O exercício diário é que o primeiro olhar precisa ser um olhar de interesse antes de a gente se aproximar, porque aí a gente conquista muita coisa, inclusive empatia.

 

No livro, você diz que o filme Madame Satã te ensinou muito, sobretudo a ser livre em cena. Como foi isso?

Não vou falar especificamente do Satã porque é uma prática aprender com meus personagens. Depois de um tempo, comecei a tratar meus personagens como um lugar de aprendizado e, se possível, de transformação. Meu jeito de me aproximar dos personagens é entrar com o olhar mais virgem possível para dar tempo de o personagem falar para mim antes de eu impor meus pensamentos a ele. O Satã é um ponto importante, sim, mas essa é uma prática criativa que eu tento exercer em cada momento. 

 

Como conciliar a delicadeza da reflexão com a violência do ato racista?

A estratégia não é sempre de delicadeza. A delicadeza é uma das estratégias, mas acho que cada ouvinte se desperta para uma estratégia. Em cada estágio em que você se relaciona com uma pessoa, você consegue se abrir mais. Você vai confiando mais no amigo e vai compartilhando coisas em tons diferentes. Em vários momentos, tive que ser duro, em vários momentos dei limites às pessoas. É importante o limite para a pessoa entender que dói. Porque, às vezes, as pessoas são muito cruéis e acham que não dói no outro. O alerta à dor também é uma estratégia que passou pela minha vida em vários momentos.

 

Você é um dos nomes que ajudou a mudar a presença do ator negro na televisão brasileira. Você está satisfeito? O que ainda é preciso ser feito? 

Ih, um monte de coisas. Acho que continuamos em movimento, sempre na batalha para oferecer ao público entretenimento mais diverso, contar a mais pessoas e com maior qualidade a diversidade que somos e que às vezes negamos. A luta continua. Eu podia citar melhoras e problemas, mas acho que o movimento continua e o importante é continuarmos o movimento.

 

Quais seriam as melhores armas para combater o racismo? 

Nem a pau vou cair nessa cilada! As pessoas têm que pensar juntas. Pensar junto é uma arma. Às vezes, me olham como farol e eu tenho minhas estratégias de sobrevivência do meu lugar de exigência, mas acho que todo mundo tem que pensar nisso. O livro tem algumas reflexões, mas eu realmente quero inserir as pessoas. Essa nossa entrevista não vai bastar. Acho que essa entrevista vai ser mais útil se for um alerta para a gente pensar junto. Isso aqui. 

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