Evento Latinidades tem prévia nesta terça-feira

Estreia oficial é apenas em 27 de julho. Mas pré-evento tem gravação de DVD e debates sobre a cultura negra

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postado em 25/07/2017 07:02 / atualizado em 24/07/2017 19:05

Donas Filmes/Divulgação
 
Há 10 anos, o festival Latinidades entrou para o calendário da capital federal como uma forma de celebrar o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. Realizado sempre na semana da data, a 10ª edição do evento ocorrerá de 27 a 30 de julho, com atividades em diferentes locais do Distrito Federal.

Nesta terça-feira (25/7), o Latinidades terá uma espécie de aquecimento ao que virá nos próximos dias. Sob o nome de Esquenta Latinidades, o evento terá exposição, intervenção, discotecagem, apresentações artísticas e roda de conversa na Estrutural, além da gravação do DVD da rapper Vera Verônika na Funarte. "A ideia é justamente descentralizar. Nós sempre fazemos uma ação fora do padrão. Pensamos na Estrutural porque é o local que tem o maior percentual de população negra do DF. Quisemos levar um pouco do que estamos pensando para lá", explica Bruna Pereira, da organização do Latinidades.

A programação de hoje começa às 15h no Coletivo da Cidade (Estrutural) com abertura da exposição A cidade é feminina, intervenção da Cia Bisquetes, discotecagem de Selektha Joy e shows de Ellen Nzinga, Lidia Dallet e Martinha do Coco. Intitulada Conhecer o passado é fortalecer o presente e garantir o futuro, a roda de conversa terá coordenação de Dyarley Viana e presença das convidadas Lúcia Xavier, coordenadora da Organização Criola; a rapper Preta Rara, famosa também pela mobilização nas redes #EuEmpregadaDoméstica; e Martinha do Coco, mestra do samba de coco e da cultura popular.

Esta será a segunda vez que a historiadora e rapper Joyce Fernandes, mais conhecida como Preta Rara, estará no Latinidades. No ano passado, a paulista participou do evento para falar sobre a repercussão da página #EuEmpregadaDoméstica criada em 19 de julho de 2016 com o objetivo de compartilhar suas experiências quando atuou como doméstica. "Foi criada de forma não proposital, não pensada, eu estava em casa de férias do meu antigo trabalho e veio à minha cabeça coisas que já tinha passado como empregada doméstica e resolvi postar nas redes sociais", lembra.

Neste ano, Preta Rara participará do Esquenta Latinidades fazendo uma espécie de chamamento. “É um evento megaimportante para fortalecer o afrowork, a rede de contatos. Além disso é uma forma de mostrar que as mulheres negras não estão sozinhas. É um grande momento da gente se fortalecer: existir para resistir”, define. Aproveitando todos os seus projetos— Preta Rara é rapper e faz parte dos movimentos Ocupação GGG, contra a gordofobia; Hip-hop resiste; e a página #EuEmpregadaDoméstica— ela levará música e também debate para o evento. "A minha proposta é dar continuidade na luta das mulheres negras lá atrás. Andar para frente, mas sempre olhando para trás, trazendo para o presente e para o futuro. É uma troca geracional que eu acho importante", defende.

Música negra no Latinidades


À noite, a programação retorna ao centro da capital com show da cantora Vera Verônika, na Funarte. A apresentação será a gravação do DVD da artista em que ela celebrará os 25 anos de carreira. A captação do material teve início no ano passado, quando Vera gravou 12 videoclipes, e o show de hoje coroa o material com 13 músicas com presença de diversos convidados, como Rapadura e Nelson Triunfo. "A Vera é uma parceira do evento há muito tempo. Ela é uma mulher negra do hip-hop, isso quer dizer muito. É uma forma de dar visibilidade a esse trabalho tão especial", explica Bruna Pereira.

A rapper conta que gravar durante o Latinidades foi um sonho: "Conseguimos concretizar isso. Eu já participei do evento como cantora, palestrante, mediadora, feirante, minha ONG (Acesso-DF) sempre está junto como apoiadora. Eu acho que Brasília não vive mais sem o Latinidades. As mulheres do Brasil inteiro ficam esperando. Não tem só shows, tem formação cultural e a possibilidade de estar próxima de uma mulher negra de referência".

Visão de futuro

Após o "aquecimento desta terça", a programação oficial começa na quinta-feira e segue até domingo. Neste ano, a temática do evento é "Horizontes de liberdade: afrofuturismo nas asas de Sanfoka" e surgiu baseado na situação atual do país. "Estamos num momento bastante difícil para as mulheres negras, tanto político quanto econômico. Pensamos numa temática que abrisse uma perspectiva para sonhos. Mas não de algo que não se concretiza, mas como uma utopia, um ponto de luta", explica Bruna Pereira.

Para isso, o festival trouxe inspirações no movimento artístico do afrofuturismo e do conceito de Sankofa. "Quisemos trazer de uma forma mais ampla o pensamento do futuro, porque o negro muitas vezes é pensado como algo do passado. Nossa proposta ao unir o afrofuturismo e o conceito de Sankofa é olhar para trás e colocar uma direção ao futuro com diversos tipos de debates, mesas e mostras pensando em horizontes de liberdade", defende a idealizadora.

Mesmo com o baixo orçamento deste ano — o festival chegou a fazer uma campanha de financiamento coletivo para bancar os custos —, a programação dos quatro dias é intensa, com mesas de debates, mostra de cinema, lançamentos de livros e apresentações, todas gratuitas. "Tivemos que fazer algumas adaptações. Mas o Latinidades é como as mulheres negras: a gente se vira na dificuldade", comenta Bruna.


SERVIÇO
Esquenta Latinidades
Coletivo da Cidade (Estrutural). Das 15h às 18h. Com abertura da exposição A cidade é feminina, intervenção da Cia Bisquetes, shows de DJ Selektha Joy, Ellen Nzinga, Lidia Dallet e Martinha do Coco, e roda de conversa Conhecer o passado é fortalecer o presente e garantir o futuro com Dyarley Viana, Lúcia Xavier, Joyce Fernandes e Martinha do Coco. Entrada franca. Classificação indicativa livre. Teatro Plínio Marcos (Complexo Cultural da Funarte). Das 20h às 22h30. Gravação do DVD de Vera Verônika. Entrada franca. Classificação indicativa livre.
 
 

Entrevista // Preta Rara

Arquivo Pessoal/Divulgação

 
Você se tornou famosa nas redes sociais com a hashtag #EuEmpregadaDoméstica, em que denuncia e compartilha a situação das empregadas no Brasil. De onde veio a ideia do projeto?
Eu estava de férias e me veio na cabeça as coisas que eu já tinha passado como empregada doméstica e resolvi postar nas redes sociais falando para as pessoas usarem a hashtag #EuEmpregadaDoméstica. Criei e abriu um campo gigantesco para as pessoas discutirem a questão do trabalho doméstico no Brasil. Foi bom porque serviu para levantar o tapete da família tradicional brasileira e mostrar que existem mulheres ainda trabalhando em situações análogas à escravidão. De onde eu venho e falo, 79% das trabalhadoras domésticas são mulheres pretas. Esse espaço não pode ser destinado só às mulheres negras e não pode ser hereditário. Demorei muito tempo para entender que currículo com foto e boa aparência não é de mulher negra. Depois de entregar milhares de currículos, não me chamaram para trabalhar e tive que ser doméstica. E minha mãe ficou triste porque já sabia das mazelas que eu ia vivenciar.

Como militante, qual é a principal mensagem que pretende passar nos projetos em que se envolve?
Meu trabalho tem algo bem claro que se chama gerar incômodo.  Eu acredito que por meio do incômodo vem a mudança, ninguém vai ficar com uma pedra no passado e andando. Vai parar e tirar essa pedra para dar continuidade. Existem vários projetos: a Ocupação GGG falando sobre gordofobia; Hip-hop resiste sobre a questão do hip-hop como ferramenta pedagógica para os professores e alunos como opção a mais de cultura e conhecimento. Eu dialogo e passeio por várias vertentes, o que eu pretendo passar é mostrar a diversidade da cultura brasileira, para diminuir a questão do racismo e para as pessoas entenderem que não somos todos iguais, porém somos todos diferentes com os mesmos direitos. Esses direitos que são negados a quem é preto, pobre e das categorias LGBT. É desse lugar que venho fazer essas provocações. E, na música, também acho que é mais fácil passar a mensagem do que num palaque.

Seu mais recente trabalho é um álbum de 2015. Está trabalhando em algum CD ou projeto novo?
Minha vinda para São Paulo foi para fazer e começar a produzir meu novo trabalho musical. Ainda não sei se vou fazer um disco, mas já estou engatinhando e fazendo algumas músicas como a Pesadona, que fala sobre gordofobia. Mas o que estou trabalhando é a websérie Nossa voz ecoa, que estreia em agosto. É como se fosse um programa de televisão de entrevista, que será postado a cada 15 dias. A websérie nada mais é do que um grande portfólio dos meus trabalhos. Tem um episódio sobre cada projeto. Um dos meus convidados é o Criolo. Já recebemos convite de dois canais de televisão a cabo querendo conhecer o projeto. E talvez a segunda temporada seja vinculada na tevê.
 

Você estará em Brasília para participar do festival Latinidades. Você já conhecia o evento?
O Latinidades eu já conheço desde a primeira edição. Meu sonho era participar e nunca me convidavam. Eu ficava ansiosamente esperando para ser convidada. Mas a minha primeira participação foi no ano passado falando da página #EuEmpregadaDoméstica e foi muito importante. Neste ano, eu vou para o Esquenta Latinidades. Vou fazer um show na periferia de Brasília, vou cantar e fazer um grande chamamento para as mulheres chegaram conosco no dia 27 (de julho, quando começa o evento). No ano passado abriu um campo gigantesco para as pessoas me chamarem em Salvador, Minas Gerais, Curitiba... pelo fato das pretas levarem meu nome para seus estados. É uma grande rede de contato, além disso é uma grande rede de fortalecimento para mostrar que as mulheres negras não estão sozinhas. Um grande momento da gente se fortalecer: existir para resistir.

Você participará de uma roda de conversa com o tema "Conhecer o passado é fortalecer o presente e garantir o futuro". O que pretende trazer de debate para essa mesa?
Essa mesa é bem emblemática. Eu, enquanto historiadora, é bem isso que a gente faz na história: conhece o passado para entender o presente e meio que prever e garantir esse futuro. É importante saber quem começou todas as lutas. Nenhuma luta a gente inventa. Na luta das domésticas antes de mim já tinha uma mulher que fazia isso a Laudelina de Campos Melo. A primeira mulher preta a criar o Sindicato das Domésticas. Ela fez uma luta na cidade de Santos, no interior em Campinas. A minha proposta nessa mesa é isso: dar continbuidade na luta das mulheres negras lá atrás. Sempre andar para frente, mas olhando para trás trazendo para o presente e para o futuro. É uma troca geracional que eu acho importante.

Na sua opinião, qual é a importância de um evento como o Latinidades e da data do dia 25, quando se celebra do Dia da Mulher Negra Afro-Latina-Americana e Caribenha?
A importância do evento é que um dos maiores eventos da América Latina. É importante as pessoas perceberem essa magnitude e grandiosidade. Para mostrar que nós mulheres negras temos voz e somos protagonistas da nossa história. Durante muito tempo quem não era preto contava nossa história. O Latinidades tem essa importância de trazer essa dimensão e esse fortalecimento para quem participa. A gente vai lá, bebe da fonte do saber e escuta as manas pretas falando, quando chegamos nos nossos estados queremos disseminar esse conhecimento. A data do dia 25 é importante na questão política também porque esse atual governo está tirando todos os direitos dos trabalhadores e as mulheres pretas também estão sendo negadas aos pouquíssimos e pequenos direitos. É importante trazer essa fala para esse dia de celebração e de reivindicação de direitos de espaço, de fala e mostrar que persistimos e resistimos.
 

Confira a programação completa do Latinidades

 
Programação completa

Terça-feira (25/7)
Das 15h às 18h -- Esquenta Latinidades: papo preto e periférico
Abertura da Exposição A Cidade é feminina | Intervenção - Cia Bisquetes | Discotecagem -Selektha Joy | Apresentações artísticas - Ellen Nzinga, Lidia Dallet e Martinha do Coco

Roda de Conversa - "Conhecer o passado é fortalecer o presente e garantir o futuro"
Coordenação: Dyarley Viana (Inesc) | Convidadas: Lúcia Xavier (RJ) - Coordenadora da Organização Criola; Joyce Fernandes/ Preta Rara (SP) - Cantora, Militante, Turbanista e Professora de História; e Martinha do Coco (DF) - Mestra do Samba de Coco e da Cultura Popular

Das 20h às 22h30 -- Gravação do DVD Vera Verônika - 25 anos
Retirar ingresso com uma hora de antecedência. Sujeito a lotação de espaço. Local: Teatro Plínio Marcos do Complexo Cultural da Funarte.

Quinta-feira (27/7)

Das 10h às 12h - Mesa 1 -- Memórias de visionárias
Local: auditório principal do Museu Nacional. Convidadas: Rosana Paulino (SP), Elisabete Aparecida Pinto (BA), Célia Cristina da Silva Pinto (MA) e debatedora, Giovanna Xavier (RJ).

Das 14h às 15h -- Cine Afrolatinas
Local: auditório pequeno do Museu Nacional. Filmes: Encontro das Águas (2016, 30 min), de Zaíra Pires, Flávia dos Santos e Mestre Negoativo; e Antonieta (2015, 15 min), de Flávia Person

Das 15h às 17h -- Mesa 2 - Miragens do futuro no presente
Local: auditório principal do Museu Nacional. Convidados: Marcelo Caetano (DF), Erica Malunguinho (PE), Kênia Freitas (DF) e debatedora, Larissa Fulana de Tal (BA).
   
Das 18h às 19h -- Espaço Literário: Lançamento do livro Griôs da Diáspora Negra
Local: auditório principal do Museu Nacional. Por: Ana Flávia Magalhães Pinto (DF)

Das 19h às 21h -- Mesa 3 - Afrontosas: agir para transformar
Local: auditório principal do Museu Nacional. Convidadas: Viviane Ferreira (SP), Maria Clara Araújo dos Passos (PE) e Vilma Reis (BA).

Sexta-feira (28/7)

Das 10h às 12h -- Oficina 1 – Utopias coletivas e projetos de futuro
Local: auditório menor do Museu Nacional. Apresentação de Nátaly Neri (SP) e mediação de Lúcia Xavier (RJ).

Das 14h às 15h
- Cine Afrolatinas
Local: auditório menor do Museu Nacional. Filmes: Rainha (2016, 30 min), de Sabrina Fidalgo; e Beatitude (2015, 15 min), de Délio Freire.

Das 15h às 17h -- Mesa 4 - Ciência, tecnologia e projetos de transformação social
Local: auditório principal do Museu Nacional. Convidados: Buh D'Angelo (SP), Brenda Costa (BA), Silvana Bahia (RJ) e debatedora, Katemari Rosa (RS).

Das 17h às 19h -- Espaço literário
Palavra preta: mostra nacional de negras autoras
Local: auditório principal do Museu Nacional

Às 19h -- Diálogos transatlânticos
Em parceria com o projeto Vidas Refugiadas
Local: auditório do Museu Nacional. Convidadas: María Ileana Faguaga Iglesias (Cuba), Nkechinyere Jonathan (Nigéria) e mediação de Aline Maia (RJ).

Sábado (29/7)

Das 9h às 18h -- Oficina 2: WordPretas
Em parceria com IFB Estrutural, Minas Programam e PretaLab
Local: Instituto Federal de Brasília - Campus Estrutural

Das 10h às 12h -- Oficina 3 - Dança: Coupé Décalé
Coupé Décalé é uma dança africana nascida do intercâmbio da diáspora marfinesa em Paris e da própria Costa do Marfim. Por: Kety Kim Farafina

Das 12h às 14h -- Espaço literário
Palavra preta: mostra nacional de negras autoras
Local: auditório principal do Museu Nacional

Das 14h às 16h -- Mesa 5 - Moda preta: poder, lacre, transformação
Local: auditório principal do Museu Nacional. Convidadas: Luciane Barros (SP), Magá Moura (BA), Ana Paula Xongani (SP) e debatedora, Nátaly Neri (SP).

Das 17h às 18h -- Cine Afrolatinas + debate com Day Rodrigues
Local: auditório menor do Museu Nacional. Filme: Mulheres Negras: Projetos de Mundo - O filme (25 min, 2016), de Day Rodrigues e Lucas Ogasawara.

Das 19h às 21h -- Desfile Afrolatinas
Marcas convidadas: Pinto Musica (Moçambique), Rogue Wave (Angola) e África Plus Size (São Paulo). Discotecagem: DJ Donna (DF).

Das 21h às 22h30 -- Stand up: Tia Má – Com a Língua Solta
Entrada gratuita (retirar ingresso 1h antes do início do evento). Local: auditório principal do Museu Nacional

Domingo (30/7)

Das 10h às 12h -- Oficina 4 - Roda da Mãe Preta - Ancestralidade e Maternidade
Roda da Mãe Preta é um grupo de mães negras, formado a partir de inquietações sobre a educação de suas crianças. Por: Taisa de Souza Santos. Convidadas: Priscila Obaci e Ana Paula Xongani.

Das 11h às 13h -- Oficina 5 - Dança com P. Afrobeat e Dança Afro. Por Vanessa Soares   

Das 14h às 16h -- Oficina 6 - Malungas: autocuidado como insurgência. Por Layla Maryzandra

Das 14h-17h -- Espaço literário
Palavra preta: mostra nacional de autoras negras
Local: auditório principal do Museu Nacional

Das 16h às 17h -- Showcase com Craca e Dani Nega + Lançamento de clipe da música Papo Reto
Com apoio da Fundação Cultural Palmares
Entrada gratuita. Local: auditório do Museu Nacional

Às 18h - Festa Latinidades
Com DJ Donna (DF), ZAV (Moçambique) e Oshun (EUA)
Local: Outro Calaf (Setor Bancário Sul). Ingressos antecipados à venda no site https://www.sympla.com.br/festa-latinidades__163197. Primeiro lote: R$ 30 (até 30/7), e R$ 35 (na hora). Não recomendado para menores de 18 anos.
 
 
 
 
 
 
 
 
 


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