Coletânea com novas bandas faz homenagem à psicodelia brasileira

Catorze grupos contemporâneos resgatam clássicos do underground nacional no álbum 'Tributo à psicodelia brasileira'

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postado em 27/07/2017 07:00 / atualizado em 27/07/2017 11:48

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press

  
No fim da década de 1960 e início dos anos 1970, a música brasileira fervia. Movimentos como a Tropicália e o Udigrudi  incorpovaram experimentalismos, inovações e letras radicais e lisérgicas às raízes do som nacional. A distorção alucinante do fuzz nas guitarras, os sintetizadores e instrumentos incomuns faziam o som de algumas bandas. A inventividade e a maluquice desses grupos, à exceção de alguns mais populares, virou, porém, página pouco lembrada da história da música do país.

Novos grupos influenciados por aquele som, e o trabalho de alguns pesquisadores, no entanto, colocaram, nos últimos tempos, a psicodelia tupiniquim de volta à pauta. Uma dessas tentativas de resgatar a lisergia nacional é o álbum Tributo à psicodelia brasileira, uma homenagem aos artistas do gênero.
 
 

Com 14 bandas do cenário contemporâneo, o projeto traz releituras de canções importantes para a psicodelia no país. De nomes conhecidíssimos, como Gal Costa e Rita Lee, a grupos mais undergrounds, como Ave Sangria, a coletânea faz um passeio pelo cerne da lisergia musical brasileira.

O idealizador da coletânea foi o designer Fabricio Bizu. Ele está à frente do selo Psico BR, especializado em discos e pôsteres psicodélicos brasileiros. Bizu fez a seleção das canções que entrariam no álbum e levou a ideia ao selo independente  Miniestéreo da Contracultura, que deu suporte ao projeto.  

O músico e produtor Eduardo Kolody foi um dos organizadores da coletânea. Depois da lista com as músicas feitas por Bizu, ele colaborou na seleção das bandas e na produção do tributo. “A ideia era mesmo convidar alguns artistas novos para tocar versões dos  grupos antigos. E em especial apresentar músicas que não eram tão conhecidas, que não são os chavões da psicodelia nacional”, explica.

Com a seleção e o convite das 14 bandas, cada uma delas trabalhou separadamente sua faixa. Kolody conta que não havia restrições quanto ao método de gravação ou algo assim. “Cada banda foi responsável pela própria gravação, ninguém foi obrigado a cumprir termos, seguir estrutura de arranjos... A ideia era que cada um fizesse uma versão sua da música”, explica.
 
Muito celebrada fora do país, a psicodelia nacional ainda se mantém obscura no país. Esse foi um dos fatores que motivou o lançamento da coletânea. “Existem alguns nichos que o próprio brasileiro não conhece. Os gringos reeditam material nosso lá fora, e ninguém aqui conhece. Então, a ideia era tentar trazer isso para esse público mais novo”, explica Kolody.

A música Cultura e civilização (composição de Gilberto Gil mais lembrada na voz de Gal Costa) abre o álbum. A canção é tocada pela banda brasiliense Rios Voadores, da vocalista Gaivota Naves. Logo depois, o grupo da capital Joe Silhueta (representado pelo vocalista Guilherme Cobelo) apresenta uma versão de Nas paredes da pedra encantada. Cobelo acompanha a banda de Eduardo Kolody, a Orquestra abstrata.
 
Janine Moraes/Divulgacao
 

A música faz parte do álbum Paêbiru: Caminho da montanha do sol, de Lula Côrtes e Zé Ramalho. Um dos mais raros e desejados álbuns da psicodelia brasileira, Paêbiru foi lançado em 1975 e, nele, a dupla abusa do experimentalismo e da fusão de gêneros. “É um disco que eu gosto muito. Minha monografia em história foi sobre esse movimento, essa turma do nordeste, com Lula Côrtes, Zé Ramalho, que se chamava Udigrudi”, comenta Cobelo.

Ele conta que sempre foi influenciado por bandas do gênero. “Muita coisa de Zé Ramalho, Mutantes e outras não tão psicodélicas, mas que, para mim, também entram nisso, como Secos & Molhados”, conta. Para ele, ainda há muito para se conhecer sobre o gênero. “É algo sub-lembrado, apesar de a internet promover um resgate. Mas ainda tem muita coisa para descobrir, muito para pesquisar. Outras pérolas devem aparecer”, acredita.

Projetos como esse tributo, acredita o músico, são possibilidades de trazer a psicodelia brasileira de volta à pauta. É uma maneira de tornar o passado, presente. Muitas releituras no disco tentam dar uma modernidade estética àquele som, é uma maneira de apresentar a novas pessoas.”

Reprodução/Internet

Tributo à psicodelia brasileira

Vários artistas. Miniestéreo da Contracultura. 14 faixas. Disponível em aqui.

Divulgação/Bento Araújo
Psicodelia brasileira em livro
Foi ao ouvir um disco de Ronnie Von, em 1999, que o jornalista Bento Araújo se deu conta de que existia rock psicodélico produzido no Brasil. “Eu já conhecia, obviamente, bandas como Os Mutantes e Novos Baianos, mas o fato do Ronnie Von também ter praticado o gênero me deixou intrigado”, contou ao Correio. O príncipe, como Ronnie ficou conhecido nos tempos de Jovem Guarda, foi responsável por três discos clássicos da psicodelia brasileira (desprezados à época, mas relançados e cultuados hoje). A partir da descoberta do LP Ronnie Von (de 1968), Araújo começou a vasculhar músicos que também tivessem praticado ou só flertado com a psicodelia em terras tupiniquins. Da pesquisa, surgiu o livro Lindo sonho delirante — 100 discos psicodélicos do Brasil, um apanhado do gênero no país.

 

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