O filme da vida 'dele': Selton Mello se mostra mais confiante em novo longa

Cinema e literatura se unem nos bastidores do lançamento da mais nova empreitada de Selton Mello no cinema: O filme da minha vida

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 02/08/2017 06:00 / atualizado em 02/08/2017 12:29

Vitrine Filmes/Divulgação

Cinema e literatura nunca estarão distantes da rotina do ator e diretor Selton Mello. Não ao acaso, as duas expressões se unem nos bastidores do lançamento da mais nova empreitada dele no cinema: Selton teve O filme da minha vida — o terceiro da carreira de cineasta — realizado por causa da seletiva perspectiva do chileno Antonio Skármeta. Foi esse mesmo autor de O carteiro e o poeta quem quis ver o livro que criou (no original, Um pai de cinema) transformado em longa pelas mãos de Selton Mello, de 44 anos.

A fita chega amanhã às telas de cinema, com visível chance de representar o Brasil na vaga do Oscar de 2018. Vale lembrar que O carteiro e o poeta, sob adaptação do inglês Michael Radford, emplacou cinco indicações para os prêmios, e No, também derivado da obra de Skármeta, outra. Entre as possíveis referências aninhadas no terceiro longa, Selton não desencoraja citações indiretas aos filmes do celebrado diretor que curte bastante, François Truffaut (Duas inglesas e o amor). “No terceiro filme, como diretor, tive mais confiança na minha voz, na minha forma de expressão”, reforça, entretanto.

A densidade do longa de estreia, Feliz Natal (2008), dialoga com coisas que Selton Mello admite amar ler: de Philip Roth a Gabriel García Márquez, passando por Dostoiévski e o sempre relido Machado de Assis. “Ao observar os meus filmes (entre os quais O palhaço), vejo sempre três protagonistas que se deslocam para um lugar diferente, para olhar a vida de cada qual, em perspectiva, e voltarem modificados”, analisa o ator e diretor.

Em O filme da minha vida, a cidade de Fronteira, especificamente o interior de um cinema, revigora a vida do protagonista Tony, cercado por uma quase insolúvel questão do passado relacionada ao personagem interpretado por Vincent Cassel. “Acho bonito: dizem que um cineasta faz o mesmo filme a vida inteira. Acho que estou me encaixando nesta estatística”, reforça ao falar da obra que contempla, entre outros feitos, encabeçar o filme nacional mais visto em 2008, Meu nome não é Johnny; estar entre os 50 nacionais mais rentáveis, com Lisbela e o prisioneiro (2003), e arrastar 1,2 milhão de público, com O palhaço (2011).
Tanto êxito faz aumentar as especulações para um viés internacional na carreira de Mello, posto à prova numa nova produção de José Padilha anunciada pela Netflix e que trata de corrupção no Brasil. “Como brasileiro, procuro olhar o mundo de uma forma otimista. Acho que talvez, de todo este lamaçal, que sempre existiu, e que na verdade agora só foi exposto, e que acompanhou a gente durante todas as eras; espero que dele venha a luz”, completa.


Liberdade e segurança 
No terceiro filme, você começa a ficar mais liberto das suas referências. Não vi, nem revi nenhum filme em especial ou nada da literatura que me inspirasse especificamente. Você começa a ter mais confiança mesmo na sua voz, no seu olhar, na sua forma de se expressar. O livro em que me baseei (de Antonio Skármeta) já me causou um encantamento. Eu sabia que ali tinha um material rico que eu pudesse contar numa história cheia de lirismo e de doçura. O trabalho foi ir além das páginas do livro. O cinema é uma linguagem, e precisa de mais coisas, para além das palavras. O Skármeta foi muito generoso para me deixar livre para voar.

Longe do real
A sequência da dança com as meninas, no pátio da escola — com a Bia Arantes e a Bruna Linzmeyer, que interpretam irmãs — era uma das cenas que eu tinha mais expectativa de filmar. Pensava em fazer o protagonista (Johnny Massaro) voar, literalmente, de encantamento e de beleza. Aquela cena encerra uma metáfora do comportamento do personagem durante o filme inteiro. Falava muito isso para o diretor de fotografia, Walter Carvalho: era um guia para o personagem central. Queria um filme em que o protagonista não tocasse o chão, completamente, o tempo todo. Tem sempre uma suspensão: é um filme onírico. É um filme que poderia ser um grande sonho. Pensei em filmá-lo desta forma, apostar em algo que não fosse realista. De realidade, a gente já está cheio: queria um filme-sonho! Um filme-memória.

Laços de família
Quando penso na possibilidade dos filhos, penso na música do Ira!: “Se meu filho nem nasceu, eu ainda sou o filho” (risos). Então, eu sou o filho. Meu carinho pelos meus pais, o afeto que nos une — junto com meu irmão (Danton Mello) — desemboca num núcleo muito afetivo. É normal que quando eu conte uma história — bem como tudo na minha vida — eu dedique a meus pais. No caso deste filme, quis deixar isso cravado na tela, numa dedicatória, como uma tatuagem.

Pintor e mestre
Reencontrar, no set, o diretor de fotografia Walter Carvalho, com quem trabalhei em Lavoura arcaica (em 2001) foi lindo, cara. Foi a gente se reencontrar, numa outra configuração, mas absolutamente afetiva: ele é uma espécie de “um pai de cinema” (o título do livro original de Skármeta) para mim. Ele também era o fotógrafo do primeiro filme que fiz: Uma escola atrapalhada (1990) — tinha Trapalhões, Supla, Angélica, e Grupo Polegar (risos). Houve encontros ao longo dos anos com o Walter e ainda tem minha relação de amizade com Lula Carvalho (filho de Walter). Foi lindo fazer O filme da minha vida ao lado do Walter, este pintor, este grande artista que é o Walter.

Mais experiente
Com a idade, acho que tenho ganhado maturidade e uma tranquilidade maior. O tempo ainda dá uma confiança maior no que você faz. Melhora a ponte com quem você lida, e, no meu caso, lido com o público. Eu sei quem é meu público e tenho uma relação com ele muito impressionante. Crianças, pessoas idosas, ricos, pobres gostam muito do meu trabalho: uns por causa da Mulher invisível, outros por causa de O auto da compadecida, outros tantos, por causa do Lavoura arcaica. Tenho um público muito variado. São pessoas que acompanham meu trabalho, e este é um dos motivos de eu ter proposto a viajem, pessoalmente, pelo Brasil inteiro, para lançar o filme. Acho que fizemos um filme lindo, e o público merece este filme. Ofereço o filme para o público como um presente.

Tipo exportação
Pode ser que venha a acontecer isso de investir na carreira no exterior. Vontade eu tenho. O que não dá é, nesta altura do campeonato, eu me mudar para o exterior e começar tudo do zero, para lutar, dia a dia, por um espaço. Se eu fizer algo aqui e que ecoe lá, coisas como O filme da minha vida, como a série que eu tô fazendo com o José Padilha (Tropa de elite) para a Netflix. São trabalhos que podem me apontar para o mundo – e se abrirem portas – aí, sim, fará sentido ir para fora da série. Posso ainda falar muito pouco, por questões de contrato. Chama-se O mecanismo e trata da corrupção no Brasil.

Casal de cinema
No meu novo longa, pensava muito na personagem Luna (Bruna Linzmeyer) como uma menina à frente do tempo dela. Com o Tony (Johnny Massaro), ela forma o casal ideal: ele é o poeta que escreve e ela, a moça que fotografa. Eles são o casal cinema. Ela tem uma visão poética sobre a vida e um pensamento diferenciado sobre o tempo. Curti a ideia disso: Luna quase inventando, naquela época (no século 20), a selfie. Quanto à minha ideia de cinema, como diretor, lido com tudo: com imagem e com reforço nas falas do roteiro. Usando a minha arma, que é a câmera, há a possibilidade de ser mais direto. Tem uma cena, no filme, que cita o longa Rio vermelho, e na qual corto direto da cara do Montgomery Clift (de Rio vermelho) para o Johnny Massaro. Num emendar, vou do herói de um clássico para a imagem do herói do meu filme.

Personagem animal
No livro de Skármeta, há uma passagem que trata do comparativo entre vacas e homens. E quando fui na locação do meu personagem Paco (um tipo humilde), havia porcos extraordinários. Eram imensos, grandes (risos). Me deu o insight: o personagem estava em crise em torno de ele ser um homem ou um rato. Mas, naquele caso, o homem era um porco; em crise com o que estava fazendo. Sem spoiler (risos). Ele tem um mistério que só quem for ver o filme vai entender. Peguei a ideia da vaca e coloquei na boca do Paco para formatar a crise pessoal dele, bem humana por sinal. Ele está ali, em cena, e se pergunta ‘o que estou fazendo?’ Sou um homem ou sou um porco?” De fato, é como ele se sente, por momentos.

Pedalando com você 
O Tony (Massaro, em O filme da minha vida) não se sente herói, na verdade, ele se vê como coadjuvante. Isto é uma beleza do protagonista do meu filme. Ele ganha, ao longo do filme, a confiança de ser um protagonista. E misturando os assuntos: há vantagem em envelhecer? Sim, vem da confiança. É o que acontece com meu protagonista. É por onde me identifico com ele e foi o que me levou a contar esta história. Não sou protagonista em todos os lugares que chego, sou secundário em muitos momentos e ambientes da minha vida. Claro que o foco está em mim, quando você chega num ambiente repleto de câmeras. Mas, como cidadão, eu consigo fazer muitas coisas normalmente. Eu não tenho nem carro! Ando de bicicleta. Meu veículo é uma bicicleta, então, isso já diz muito.
 
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.