Conheça o clássico livro Úrsula, de Maria Firmina dos Reis

Um dos primeiros romances que aborda a perspectiva abolicionista em seu enredo, escrito por uma mulher, não é muito conhecido, ou estudado nas escolas. Entenda a importância da obra para a literatura brasileira

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postado em 04/08/2017 11:00 / atualizado em 04/08/2017 12:15

Reprodução/CapadoLivro


“Mesquinho e humilde livro é este que vos apresento, leitor. Sei que passará entre o indiferentismo glacial de uns e o riso mofador dos outros, e ainda assim o dou a lume”. A frase, que até pode parecer um pouco pessimista, é o primeiro parágrafo do livro Úrsula, romance escrito por Maria Firmina dos Reis, que usou a naturalidade de maranhense para assinar a obra -- designando os limites do ano de 1887 para uma mulher que se aventurava nas letras. 

Mesmo sem o nome nas primeiras edições de Úrsula, Maria escreveu uma obra que transcendeu gerações e propôs uma nova abordagem à retratação do escravo brasileiro. Aliás, “mesmo” é uma palavra que pode simbolizar grande parte da história do livro de Maria: mesmo sendo 1887, Úrsula foi escrito por uma mulher; mesmo sendo um contexto literário onde o escravo não tinha um espaço, Maria escreveu um enredo que engloba o ponto de vista do negro; e mesmo tendo importância fundamental a literatura brasileira, poucos sabem sobre Úrsula, ou Maria.

Por isso, o Correio foi ouvir especialistas, levantar informações e deixar claro porquê Úrsula merece ser a sua próxima leitura, principalmente, após saber que o raro livro pode ser gratuitamente baixado pela página do portal Suplemento, no link: facebook/suplementopernambuco

Você em 2017, e Úrsula em 1887


A grafia das palavras “Abysmos” (abismos) e “Deos” (Deus) que Maria Reis aplicou em Úrsula se junta com tantas outras palavras escritas diferentemente do que conhecemos hoje. Isso serve para apontar uma época tão longínqua quanto se é possível imaginar, mas com uma coragem tão moderna quanto se é possível buscar, pelo menos é o que acredita Danglei Pereira, professor de literatura brasileira e coordenador de pós-graduação em literatura da Universidade de Brasília. “Úrsula é um romance de meados do século 19 que ao abordar temas polêmico como a espoliação de personagens menos favorecidos socialmente, antecipa o vigor irônico e derrisório de (outros) contos”, defende.

Você deve estar se perguntando: mas que coragem? A resposta é simples: o ato de representar personagens negros por um ponto de vista positivo, mesmo sendo um típico livro de folhetim (aqueles com uma história separada em partes, de típica leitura feminina e burguesa da época) que levanta a bandeira do abolicionismo. Segundo Pereira, "ao apresentar a situação dos escravos em uma sociedade, ainda modulada pela monarquia e a escravidão e, principalmente, problematizar as relações humanas no século 19, o romance coloca em discussão problemas até então pouco discutidos nessa sociedade”.

A história de Úrsula

A princípio, o livro parece ser mais um com o típico triângulo amoroso entre Úrsula (a jovem humilde e desamparada), Tancredo (o homem afortunado e bem apessoado) e o tio de Úrsula (o vilão sem escrúpulos). Mas mesmo – lembra dessa palavrinha? – que a sinopse pareça tão comum aos folhetins de época, os três personagens que realmente ganham a trama contam a história de um Brasil, até então, não plenamente representado: o Brasil escravocrata.

Túlio, Susana e Antero são três personagens negros, que questionam, agem e acima de tudo: traçam uma identidade do Brasil. “Uma das principais contribuições do romance de Maria Firmina dos Reis é problematizar a formação identitária no Brasil ao focalizar personagens silenciados historicamente”, ensina Pereira. Já o professor Eduardo Duarte e a mestre Adriana de Oliveira, em artigo publicado pelo portal PasseiWeb completam: “O negro não foi apenas colocado na trama em pé de igualdade frente ao rico cavaleiro. Mais que isto, ele foi a "base de comparação" para que o leitor aquilatasse o valor do jovem herói branco”. 


Maria, Machado e o poder do cânone literário


Naturalmente, Maria não foi a única autora a tratar a escravidão ou o racismo no Brasil, como o professor Pereira aponta: “É preciso lembrar que os autores negros do século 19, entre eles, Machado de Assis e, posteriormente, Cruz e Souza e Lima Barreto, já na transição para o século 20, também problematizam a fragilidade de uma literatura brasileira feita, apenas, por personagens ‘brancos’”. 

Mas por que não é tão comum ouvir, ou estudar o trabalho de Maria? “Ler o texto literário em sala de aula é tarefa cada vez mais rara em nossas escolas e vestibulares e, por isso, não só o romance Úrsula vem perdendo espaço na sala de aula; mas a discussão do literário e sua especificidade”, ressalta Pereira, que ainda completa: “Esta situação é algo muito preocupante e que denota a necessidade de retomarmos a leitura literária como fator de formação de cidadãos críticos”.

“Acredito que as aulas de língua portuguesa e literatura devem valorizar a diversidade de autores e obras literárias em um contexto de ampliação dos limites fixos do cânone. Ler literatura é uma possibilidade de ampliar nossos conhecimentos de mundo e valorizar criticamente nossa formação cultural”, conclui o professor.
 
* Estagiário sob supervisão de Vinicius Nader 
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