Levi Girardi diz que profissionais do design precisam trabalhar integrados

Levi Girardi tem observado o mercado no Brasil e no mundo para chegar à conclusão de que é um erro compartimentalizar a produção em nichos de especialistas

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postado em 04/08/2017 12:21 / atualizado em 04/08/2017 12:26

Reprodução
 
O futuro do design está na compreensão de que não pode mais haver fronteiras entre as diferentes áreas. Sócio do Questto|Nó, escritório com sede em São Paulo e um laboratório em Nova York, Levi Girardi tem observado o mercado no Brasil e no mundo para chegar à conclusão de que é um erro compartimentalizar a produção em nichos de especialistas.

Na Questto|Nó, os núcleos de estratégia, pesquisa e engenharia trabalham de maneira integrada com os designers para garantir a circulação ágil de ideias. “O design que se pratica hoje é bastante diferente do design que se praticava há cinco, 10 anos”, explica Girardi. Uma das referências da área no país, ele traz para a 12ª Bienal Brasileira de Design Gráfico a conferência Design e inovação.

Dona de mais de 130 prêmios e autora de cerca de 900 projetos, a Questto|Nó tem contas como a Natura e a Ambev. São mais de duas décadas de experiência com uma equipe atenta às necessidades de inovação do mercado e à reinvenção do próprio modo de trabalho. “É superimportante para quem está entrando no mercado agora saber que não dá mais para a gente olhar para o design como vertical. O design está muito mais sistêmico. Está tudo muito interligado”, avalia Girardi.

“Essa interligação faz com que o designer tenha que ser também muito mais generalista e abrangente. Claro que a gente tem o especialista, mas é fundamental que você transite pelas outras áreas e consiga saber o que está acontecendo.” Ao lado, Levi Girardi fala sobre o futuro do design e como o mercado brasileiro está atrasado em relação à prática global.


Entrevista / Levi Girardi


Você diz que o design mudou muito na última década. Por quê?

Dentro do contexto que a gente vive hoje, não só no Brasil, mas no mundo, o design é uma disciplina em constante transformação, cada vez mais ligada aos negócios. O design está vivendo essa revolução digital e toda essa mudança cultural. O trabalho de design é um trabalho de inovação. O design é uma ferramenta para viabilizar. O mais bacana de tudo isso é que essas várias áreas, de serviço, de estratégica e de produto, têm que ser muito sistêmicas. Não necessariamente feito pela mesma pessoa, mas deve ter pessoas que fazem essa conexão entre as áreas. Quando você vê cases muito bons de produtos e serviços que nos últimos anos foram um sucesso, tudo tem a mesma língua, a mesma lógica, tudo colabora para que a entrega cruze a área e seja muito completa. Isso serve para telefone, carro, sabão em pó.

Por que chegamos ao momento de apagamento das fronteiras?

Porque se a gente não tiver essas não-fronteiras, a coisa não funciona. A equipe que trabalhava com a parte gráfica e a que fazia a parte de design de produto, a única coisa que tinham em comum era um briefing único e, em determinado momento, as coisas se juntavam. Hoje, não é mais possível. As equipes têm que trabalhar de forma integrada, têm que saber o que a outra está fazendo e, às vezes, até assumir o papel de outra competência para entender quando uma outra área de design está atuando naquele projeto. É um enriquecimento.

Isso tudo é uma consequência das mudanças que aconteceram nos últimos 20 anos?

Sem dúvida, a revolução digital. Nós viramos multimídia, hoje estamos conectados, isso tem impacto de vários lados. A forma como a gente trabalha hoje, como se relaciona com produtos, serviços e marcas é muito diferente. Então, a forma como desenvolvemos produtos e imagens é diferente também. Tem muito a ver com o momento cultural que estamos vivendo.

E qual o futuro do design?

Acho que cada vez mais a gente vai ter generalistas, até saindo da carreira. A gente está deixando as fronteiras do design gráfico. Estamos caminhando para ter outras disciplinas totalmente integradas. Isso está na parte de finanças, de meio ambiente, tem tanta coisa hoje que a gente tem que levar em conta para a concepção de um projeto, que o profissional tem que ser muito generalista mesmo. O design sempre foi assim, é uma característica do profissional do design estar muito atento a tudo que está acontecendo. E isso está sendo demandado de forma cada vez maior.

E como fica a formação do designer?

A formação tem que acompanhar isso e não me parece que está acompanhando. A gente não tem um diálogo grande hoje com a área acadêmica, o que é uma pena. Gostaríamos de estar muito mais ligados à vida acadêmica e aproveitar para trazer pessoas que estão saindo da universidade, pessoas novas.

Qual a importância de ficar atento para o mercado internacional e como as agências estão prospectando no Brasil?

Temos um laboratório fora do país, em Nova York, e estamos no mercado norte-americano e no mercado global. E aí a gente vê claramente essa mudança do que é trabalhar com design. Continua tendo essas verticalizações, mas são poucos os que trabalham por lá que são especialistas. A maioria é mais generalista, pensa mais a estratégia ajudando as empresas de forma estratégica a perceber o que elas têm que fazer para ter uma entrega melhor. No Brasil, a gente está um pouquinho atrás com essa forma de trabalhar de forma integrada.
 
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