Gustavo Piqueira lança, durante a bienal, livro sobre a iconografia no país

Com carreira que ajudou a dar cara a várias editoras independentes do país, o designer de 45 anos construiu uma trajetória literária particular, com 20 livros autorais publicados

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postado em 04/08/2017 12:27

Arquivo Pessoal
Gustavo Piqueira gosta de ver seus projetos transitarem em diversas categorias. Podem ser livros, performances, objetos, no fundo, pouco importa: o que ele quer é que sejam vistos e lidos. Um dos nomes mais ousados e radicais do design gráfico brasileiro, criador do escritório Casa Rex, Piqueira passou os últimos anos debruçado sobre experiências que buscam inovar e subverter o próprio suporte do livro.

Com carreira que ajudou a dar cara a várias editoras independentes do país, o designer de 45 anos também construiu uma trajetória literária particular, com 20 livros autorais publicados. Piqueira participa da 12ª Bienal Brasileira de Design Gráfico no próximo dia 26 com uma palestra e lançamento de seu último projeto, Oito viagens ao Brasil, uma investigação da criação da iconografia brasileira nascida no século 16.

Algumas das ilustrações do livro também estarão em na exposição Primeiras Impressões — O nascimento da cultura impressa e sua influência na criação da imagem do Brasil. “É um livro sobre como surgiram as primeiras representações do Brasil e os telefones sem fio que foram nascendo e que, no fim, bem ou mal, por motivos muito pouco corretos, criaram a imagem do Brasil nos seus primeiros tempos”, explica. Dividido em oito capítulos, o livro é uma experimentação das diferentes possibilidades do designer como autor de um livro. Em um dos pequenos volumes, ele é o autor de um texto de ficção, mas não das imagens.

Em outro, é autor das imagens, mas não da narrativa. Texto de Hans Staden sobre sua viagem ao Brasil em 1557, histórias em quadrinhos e até um livro rasgado estão no trabalho. A mistura de ficção e não ficção, história e fantasia é uma constante nessa mescla de artes gráficas e literatura que pode ser chamada tanto de livro como de objeto.  “Pesquisando, comecei a achar curioso como a relação entre o surgimento das primeiras representações do Brasil que, bem ou mal, é o que a gente aprende nos livros de história, são o que ficou. Elas surgiram como fruto da cultura impressa da época e isso era uma coisa que eu nunca havia acessado nos trabalhos que li sobre o tema no Brasil.”

De acordo com Piqueira, o tema é tratado no país de duas formas apenas: ou com o viés do colonialismo ou das artes visuais. Ele notou que pouco havia de pesquisa a partir do olhar do design gráfico, embora o termo sequer existisse na época em que a iconografia foi construída.

Gutemberg descobriu os tipos móveis no século 15, pouco mais de seis décadas antes de os europeus chegaram às Américas. “A cultura impressa começou a se disseminar e, como era muito iniciante, os parâmetros dela eram totalmente novos, com coisas que, hoje em dia, a gente acharia absurdas”, destaca. “Eles usavam uma mesma imagem, por exemplo, de uma cidade, para representar várias cidades. Então, as distorções que aconteceram na representação do Brasil não eram exclusivamente devidas ao colonialismo europeu, ao europeu olhando esquisito. Também eram devidas a um modo de produção de imagens impressas na época, que era muito novo e estava se consolidando. Então, tudo que a gente tem hoje como quase óbvio era muito diferente”, ensina o designer.

Questionar o limite entre as linguagens é uma constante na produção de Piqueira, que viu seu Lululux, desenvolvido para a Editora Lote 42, selecionado entre as 50 obras expostas na Bienal. Lululux é um jogo de jantar que também é livro e combina narrativas visuais e escritas. “Acho que venho radicalizando em escala crescente”, reconhece.


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