'Prezo e brigo pelo meu sotaque', diz Jesuíta Barbosa sobre papéis

Em entrevista, ator pernambucano comentou desafios para viver papel cômico em 'Malasartes e o duelo com a Morte'

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postado em 09/08/2017 11:12

Rogério Resende/Divulgação
Fortaleza - No primeiro papel como protagonista nos cinemas, o pernambucano Jesuíta Barbosa, 26, estrela Malasartes e o duelo com a Morte, que estreia quinta-feira em todo o país. No papel título, o ator participou do lançamento do longa, no Cine Ceará, festival realizado até sexta-feira (11). 

Tentando viabilizar o filme desde os anos 1980, o diretor Paulo Morelli enxerga um lado positivo nos percaços que impediram, até então, a realização do longa: a presença do ator responsável por encarnar Pedro Malasartes. "Estava esperando o Jesuíta nascer", brinca o cineasta, que, na década de 1990, em uma das tentativas de emplacar o projeto, daria o papel a Selton Mello. 

Em entrevista ao Diário de Pernambuco, Jesuíta comenta a construção do personagem e o desafio de trazer a cultura popular ao cinema. Confira: 

Mazzaropi foi uma inspiração?
Eu assisti ao filme de Mazzaropi, mas eu não me detive a imitá-lo. Ele é uma grande referência, claro, em todos os sentidos, é um homem que fez cinema, produzia e atuava. Acho que (o novo filme) se assemelha ao de Mazzaropi porque nos dois o Malasartes tem uma doçura, enquanto na literatura ele aparece de forma mais diabólica. 

Você está habituado a papéis dramáticos. Como se preparou para uma comédia? Houve preocupação em não ser caricato? 
A caricatura é um lugar interessante, em que você transborda as possibilidades de atuação. A comédia está no ridículo e a caricatura é uma referência. Então, não nego esse lugar caricato, ele às vezes pode entrar. O drama é que tem um tempo muito diferente. Para mim foi mais difícil, por vir experimentado um cinema no drama, com tempo de silencio muito maior, de pausa, de pensamento. 

Quais foram as outras referências para compor o personagem?
Esse Malasartes é uma experimentação. Existem vários, não é o único. Teve o de Mazzaropi e vão vir outros. É um Malasartes que tem lugar (na figura) do palhaço. Ele é grande, é ridículo, e não tem medo de colocar para fora as expressões. Figuras do folclore são referência para Malasartes: Mateus, o nosso palhaço tradicional, que aparece no cavalo marinho e no reizado, os caretas e os papangus, que são brincantes. 

Você está habituado a papéis dramáticos. Como se preparou para uma comédia? Houve preocupação em não ser caricato? 
A caricatura é um lugar interessante, em que você transborda as possibilidades de atuação. A comédia está no ridículo e a caricatura é uma referência. Então, não nego esse lugar caricato, ele às vezes pode entrar. O drama é que tem um tempo muito diferente. Para mim foi mais difícil, por vir experimentado um cinema no drama, com tempo de silencio muito maior, de pausa, de pensamento. 

Visualmente, o filme parece ambientado em um interior do Sudeste, mas há variedade de sotaques e alguns momentos da trilha remetem a ritmos Nordeste. Houve tentativa de universalizar o cenário? 
Malasartes tinha que se ambientar no Brasil, já que é uma figura tão icônica ibero-americana. Uma hora a gente entendeu que tinha que ser misturado esse sotaque. Não é problema. A gente criou uma cultura de defesa, de cada estado se defende. Ou também de negar o sotaque, principalmente na TV. Se criou uma cultura de neutralizar o sotaque e isso é uma bobagem. É a nossa característica. Eu prezo e brigo pelo meu sotaque. É o que tenho, eu trabalho com isso. E minha constituição é essa, de fala, de expressão. Se vem uma pessoa pede para falar mais neutro, eu digo não. Seria diminuir minha potência de expressão. 

Vale abordar mais a cultura popular no cinema? 
Existe massificação, a globalização se coloca de forma imperialista. A gente endeusa o cinema norte-americano cheio de efeitos especiais. Embora tenha efeitos, Malasartes trata de cultura popular. Uma história que, falando francamente, estava sendo esquecida. O que é a cultura sem memória? O que é um povo sem memória? A gente tem que fazer cada vez mais. Um filme sobre Mateus e Catirina, como seria? Existe essa cultura de colocar o cinema de Hollywood, industrial, em um lugar muito benquisto e as pessoas começam a negar muito cinema nacional. E, principalmente, as pessoas que não assistem e não vivem o cinema nacional são as que falam mal e não entendem o que a gente faz. 

* O repórter viajou a convite da organização do festival Cine Ceará

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