'Já vivemos épocas mais criativas', diz Sidney Magal ao Correio

O cantor comemora 50 anos de carreira em 2017

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Juliana Torres/Divulgação

 
“Brega, cafona, palhaço, bicha.” Sidney Magal foi chamado de tudo isso durante a carreira. A resposta de um dos cantores mais populares do Brasil, no entanto, nunca foi agressiva. Ele sempre preferiu usar a descontração e a música para mostrar o que e quem, de fato, era.
 
Para comemorar os 50 anos de carreira, o cantor de 64 anos prepara show, livro e filme. Em entrevista ao Correio, ele lembra, com alegria, o passado e o início da carreira. Sem perder o bom humor, Magal fala sobre sexualidade, preconceito e mudanças. Ele também critica a música que impera nas rádios de hoje: “Nós já vivemos épocas mais criativas”.

Entrevista // Sidney Magal
 
Você foi “descoberto” pela Polygram, cantando na noite. O que chamou a atenção deles naquele momento?
Na verdade, a história real é que eles tinham perdido um artista que foi para outra gravadora. Se não me engano, era o Odair José ou o Balthazar. E eles queriam um artista jovem e que cantasse bem para colocar no espaço que ficou. Tinha um rapaz sambista que cantava no mesmo lugar que eu, e ele já tinha ido à Polygram, feito testes. Alguém comentou com ele que a gravadora procurava essa pessoa e ele disse: “Conheço um cara que é boa pinta, que canta legal”. Aí, eu fui, fiz o teste e eles gostaram.

E como era a influência da gravadora e do empresário no que você fazia? Você tinha liberdade?
Naquela época, não se tinha muita liberdade. Principalmente entre os cantores populares. Os cantores da MPB, os compositores (Caetano, Gil, Gal) tinham muito mais atenção e consideração das gravadoras, que viam os artistas populares mais como produto.

Isso te incomodava?
Não me incomodava, porque eu estava fazendo o que eu gostava e porque eu tinha um cara (o Robert Livi, que foi meu empresário, produtor e é o autor de Sandra Rosa Madalena) que tomava conta da minha carreira e entendia minha personalidade artística, meu repertório. Eu ficava tranquilo porque ele sabia perfeitamente o que eu queria e ele brigava pelos meus direitos. Eu ficava na minha, porque é do meu temperamento e porque era a primeira grande oportunidade da minha vida.

Não aconteceu de você fazer nada que não quisesse, então...
Aconteceu, sim. Em 1980, na verdade, que foi exatamente quando eu me separei desse empresário, a gravadora deu um pitaco que foi muito errado. Eles disseram que a minha imagem era muito forte e poderia estar cansando o grande público. Quer dizer... Erraram redondamente! Aí, eu cortei o cabelo bem curtinho e gravei um repertório todo romântico. Só que eles erraram muito, porque o público ficou revoltado. Aí, eu vi que nem sempre a gravadora tinha razão. A partir daí, eu comecei a me impor um pouco mais.

Vinicius de Moraes era seu primo. Como era a relação de vocês?
Era um pouco distante. Quando eu comecei, ele já era um grande compositor, grande poeta. Mas às vezes a gente se encontrava. E eu, garoto, pedi coisas para ele, pedi músicas, por exemplo. Quando pedi, ele respondeu: “Meu primo, com essa sua pinta, com essa sua voz e garotão do jeito que você é, eu ia é pra galera, não ia ficar cantando bossa nova no banquinho, não”. Eu aproveitei e fui mesmo pra galera, fui gravar música popular. Mas ele fez coisas por mim também, mandou bilhetes para empresários famosos da época, pedindo para me darem uma força, por exemplo.

Eu cresci em uma família de músicos e comecei a cantar muito cedo. Eu cantava na boate, na churrascaria e já achava que aquilo era o auge. E eu queria levar adiante acontecesse o que acontecesse. E eu via muitos cantores da noite que não saíam de lá. E eu ficava conformado com isso. Achava legal ser um cantor da noite. Por isso, eu segui o caminho natural da carreira. Eu sempre curti muito todas as coisas que eu faço. Então, eu sempre achava: “Isso aqui é demais, mas ainda vai ter muito mais coisa legal”. E hoje, aos 50 anos de carreira, eu vejo que realmente teve muita coisa mais legal.

No começo, muita gente te tachou de cafona, mas depois seu trabalho passou a ser mais valorizado… Só te entenderam com o passar do tempo? 
Não foi nem questão de entender. Nos anos 1970, havia muito preconceito. Preconceito de imprensa, de rádio (as FMs não tocavam os artistas mais populares, certos jornais e revistas não citavam). Mas foi uma fase que o país passou, existia um preconceito social, uma coisa de “eu não posso me misturar, eu não posso gostar do que meu pedreiro e minha faxineira gostam”. Não é que eles não gostassem, eles se divertiam com o que a gente fazia, mas não podiam assumir. Hoje, as pessoas acabaram aceitando que música é música e ponto final.
 
Reprodução/Internet
 
Você sempre recusou o termo brega… Por quê?
Eu não recusava, eu só achava que era pejorativo. Porque eu sabia que os bregas eram os puteiros, aquelas boates decadentes de beira de estrada. Então, a intenção da palavra era pesada, não queria dizer popular, divertido, diferente, nada disso. Ela queria dizer de mau gosto mesmo. Eu achava pejorativo, mas nunca me incomodou. Às vezes, dizem que fui do brega ao cult. E eu digo: “Gente, não tem diferença, a questão é a aceitação, meu trabalho continua o mesmo, as pessoas é que mudaram a forma de pensar”.

De onde vem essa latinidade tão forte que você tem? 
Veio desse meu empresário Robert Livi, que era argentino. Ele teve uma influência muito forte nisso. Ele conhecia um repertório muito grande lá de fora e eu comecei a ouvir e me identificar pela forma passional de cantar, de usar muito corpo. Tanto que eu não fiz questão de fazer carreira na América Latina, fora do Brasil, porque eu pensava que lá eu  seria mais um. Se eu tivesse hoje o físico daquela época e quisesse ser lançado para competir com o Ricky Martin, eu poderia tranquilamente (risos). Mas eu pensava isso, prefiro ficar aqui, porque aqui sou diferente da maioria.

Você gerava muitos comentários pela maneira como se apresenta, por juntar aspectos da masculinidade e da feminilidade… 
Sim. E eu cheguei a dizer várias vezes que eu achava que todo ser humano é bissexual quando nasce, que as pessoas têm seus desejos e vontades independentemente do sexo que elas tenham nascido. Hoje, o mundo está se abrindo muito para essa ideia e mostrando que é isso mesmo. O ser humano é igual. Eles são machos e fêmeas porque um nasceu com um órgão e o outro, com outro, mas a cabeça, o sentimento, a pele, o suor, o cheiro, tudo isso é igual.

Reprodução/Internet

Mas te incomodava a maneira como as pessoas falavam?
Não, porque era meu temperamento ser assim. E eu já pensava dessa forma naquela época. Então, não ligava se me chamavam de gay, de bichinha louca ou de qualquer coisa porque eu achava uma bobagem. E eu vinha de um trabalho na noite, então eu convivi com travestis, com todo tipo de gente, e sempre foi natural para mim, nunca me chocou.

Hoje fala-se mais sobre preconceito, gênero, sexualidade… Você acha que evoluímos nisso?
Nós evoluímos na liberdade que conquistamos, mas, na minha opinião, ao mesmo tempo, involuímos nas cobranças e nas críticas. Você hoje tem liberdade maior de ser o que quer ser, sair do armário, declarar o que quiser. Mas existem as pessoas que, ainda hoje (e não deveria ser assim), fazem críticas, são preconceituosas e maldosas, muito maldosas. Tem coisas que vejo e não acredito que estou em 2017… Não dá para acreditar.

Como você avalia o tipo de música que faz sucesso hoje?
Nós já vivemos épocas mais criativas. Os anos 1970 e 1980 foram muito mais criativos. Mas não é só no Brasil. Hoje você pega 10 cantoras americanas e elas cantam de maneira muito parecida. E, aqui, aconteceu o mesmo com a música sertaneja, você tem 2.500 duplas sertanejas cantando da mesma maneira. Os anos 1970 e 1980 foram infinitamente mais criativos. É uma pena.

E o que levou a isso?
Hoje você tem um acesso louco a várias coisas com a internet e isso passa a ser usado financeiramente, porque quem tem mais poder consegue muito mais coisas. Os empresários que se interessam por essas duplas são grandes investidores (que colocaram muito dinheiro nisso e estão ganhando mais ainda) e veem a música e a arte como um grande negócio. Isso que levou a essa pasteurização no mundo inteiro. É muito fácil pegar alguém medíocre para cantar, afinar a voz dele no computador, lançar porque ele é bonitinho e colocá-lo em todas as rádios.

Hoje, com a idade, você continua com o mesmo pique?
Na cabeça da gente, muda muita coisa. Hoje eu acho muito cansativo, muito chato, quase insuportável, as viagens em si, o deslocamento. Esperar avião, enfrentar atraso em aeroporto, depois pegar carro, ônibus. A gente fica de saco cheio disso, mas é recompensado pelo momento do show. Quando você sobe no palco e vê todo mundo cantando e gritando, você rejuvenesce sei lá quantas décadas.

Vai sair uma biografia sua também. E como é esse processo de lembrar de tudo? Tem uma coisa meio dúbia, né? De trazer lembranças boas e outras nem tanto…
O livro foi escrito pela jornalista Bruna Fonte. É interessante porque, quando você começa a conversar com uma pessoa para isso, você fica mais aberto e fala coisas que normalmente não fala, porque não quer passar tristeza… Às vezes você finge algo para não deixar transparecer para o seu público. Num livro desses, você deixa isso pra lá. Quer saber de uma coisa? Na capa do livro, eu estou de cabeça branca e eu vou falar o máximo que eu puder da minha vida com o maior sinceridade.
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