Para poetas da cidade, Drummond é fundamental e incontornável

A morte do autor mineiro completa 30 anos nesta quinta (17)

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postado em 17/08/2017 07:30 / atualizado em 17/08/2017 10:54

Kleber Sales/CB/D.A Press


Atrás da personalidade acanhada, “dos óculos e do bigode” de Carlos Drummond de Andrade, havia um poeta. Dos grandes. O mineiro de Itabira “sério, simples e forte” tornou-se um dos nomes mais importantes da literatura brasileira. Exatos 30 anos depois de sua morte, Drummond é fundamental e incontornável, apontam poetas de Brasília ouvidos pelo Correio.
 
Autor de A nação drummondiana (livro que analisa a relação entre o autor e o país), o poeta e professor de literatura da Universidade de Brasília (UnB) Alexandre Pilati afirma que a obra de Drummond tem a estatura dos grandes clássicos. “Estamos diante de um autor como Machado de Assis, Cervantes, que tem uma obra que significa para além do tempo e que toca em questões que são fundamentais”, avalia.

Para Pilati, Drummond foi responsável por levar as questões levantadas pelos primeiros modernistas brasileiros a outro patamar de maturidade. “Ele conseguiu fazer o que os primeiros modernistas não conseguiram, que é produzir uma obra que fosse genuinamente brasileira, mas sem exotismo e verdadeiramente universal”, explica.

Drummond é influência central para a poesia de Pilati. Ele acredita que, pela força da obra, o escritor é referência para inúmeros escritores. “Muitos poetas dessa geração e de gerações anteriores começaram a ler ou escrever embalados na poética dele”, acrescenta.



Provocação

Um dos nomes mais importantes da poesia brasiliense, Nicolas Behr concorda que Drummond é uma influência incontornável. “Influenciou todo mundo, não tem como escapar. Ele é inevitável, todo mundo passou por ele”, comenta. Para ele, Drummond atrai tanto por trazer sempre uma provocação, um mal-estar permanente. “Ele está sempre te cutucando, te arranhando, sempre com a agulha na veia. Isso faz a grandeza do Drummond. Ele esteve na contramão e foi instigador”, observa.

De Drummond, Nicolas guarda lembranças curiosas e afetivas, como quando ligou para o poeta para mostrar alguns versos que parodiavam a obra do mineiro e ouviu: “Olha, cuida da sua poesia. Deixa a minha em paz”. “Eu sempre conto essa história para mostrar como a porrada é importante na vida do poeta. Ela vale por 10 mil elogios. Isso me norteou e me enriqueceu”, conclui.

Durante a ditadura, quando Nicolas foi preso por distribuir livros mimeografados que teriam, segundo os militares, material pornográfico, Drummond escreveu uma carta que o defendia. “A carta está na defesa do processo. A grandeza humana do Drummond é uma coisa que baliza com a poesia dele e não faz sombra a ele, como outros escritores”, conta Nicolas. Ele também se recorda de uma carta em resposta ao primeiro livro, que enviou a Drummond. “Essa eu plastifiquei e guardo”, lembra.

A personalidade contida de Drummond faziam com que o poeta não desse importância a grandes prêmios ou condecorações. Behr acredita, no entanto, que o poeta mineiro merecia o Nobel. “A obra dele é enorme, não ganhou prêmio Nobel porque não escreveu em inglês. Ele merecia, mas não ligava para isso”, comenta.

Novos autores

A relação da poeta Marina Mara com Drummond começa antes de ela se mudar para Brasília. Marina morava no Rio de Janeiro e tinha a estátua de Drummond como uma espécie de ouvinte. “E a estátua de Drummond era meu divã. Às vezes, a cidade não era tão maravilhosa assim, e eu contava para ele. Foi também o primeiro a ouvir muitos dos meus poemas”, lembra.

Em 2010, Marina começou o projeto Declame para Drummond, que distribui poemas para celebrar o autor. “É um projeto de circulação de poesia autoral em homenagem a ele, porque ele dava espaço e visibilidade a novos autores. Mais de 400 poetas participaram e quase meio milhão de poemas foram espalhados pelo meio do caminho”, explica.

A simplicidade da poesia de Drummond é uma das características que chamam a atenção de Marina. “É atemporal e parece uma conversa. É como se você estivesse tomando um pingado em uma padaria de esquina de Copacabana. Ele é simples, mas nunca simplório”, analisa.

Essa capacidade de escrever sobre temas profundos de maneira simples conquistou a poeta Carla Andrade. “A simplicidade dos versos, a falta de hermetismo para falar de coisas profundas e complexas, a oposição aos lugares comuns, a universalidade e os versos livres me impressionaram.”

Drummond é, por isso, uma das grandes influências da mineira radicada em Brasília. “Para mim, ele é isso: humildade, conteúdo, simplicidade, e a profundidade de Minas, o que tanto quero passar nos meus poemas”, reflete Carla.

Foi também pelo escritor que Lisa Alves começou a se interessar pela poesia. Quando leu Tarde de maio, a poeta foi arrebatada. “Senti uma necessidade existencial de conhecer toda a obra de um autor. Eu fui completamente convertida”, lembra.

Drummond foi capaz de dar voz a sentimentos e questões profundas, ressalta Lisa. “Ele de fato reverberou o tal do sentimento do mundo. Drummond fala de solidão, medo, submissão, instinto, luto, amor, desejo. Como poeta, ele me apontou o caminho. Em meu livro Arame farpado é bem evidente a influência dele”, destaca.

Canção amiga

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me veem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.
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