'É uma necessidade comentar o tempo em que vivemos', diz Paulo Miklos

'A gente mora no agora' é primeiro disco do músico pós-Titãs. Em entrevista ao Correio, ele fala sobre a carreira e o momento atual

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postado em 20/08/2017 07:00 / atualizado em 18/08/2017 17:52

Bruno Trindade/Divulgação

 
“Chorar é importante igual sorrir/Avisa que eu voltei sem sair daqui.” Os versos de Emicida são um perfil preciso do momento atual do parceiro Paulo Miklos. Em um espaço de pouco tempo, o ex-Titã perdeu, anos atrás, o pai, a mãe e a esposa. Sem usar drogas há anos, Miklos precisou encontrar em si forças para superar os baques sem recaídas. E conseguiu. O cantor se manteve longe dos vícios, se apaixonou outra vez e gravou um disco: A gente mora no agora (título retirado da letra de Emicida, que abre o álbum).

O álbum, o primeiro depois da saída dos Titãs, canta a volta por cima, a recuperação e a necessidade de viver o presente. Repleto de parcerias (que vão de Tim Bernardes a Guilherme Arantes e a Erasmo Carlos), o disco é um retrato autobiográfico do cantor. “Eu sinto que esse disco tem muito a minha cara e me identifico muito com ele”, conta. 

Em entrevista ao Correio, Miklos, que também é ator e grava em breve um suspense ainda sem título nos arredores de Brasília, fala sobre o álbum, as parcerias, a carreira e a importância, em um disco tão pessoal, de falar sobre política.

Entrevista // Paulo Miklos

Como se sente agora fora do Titãs? Algo que fez parte da sua vida toda…
Eu estou muito satisfeito com o disco novo que acabei de fazer. Eu acho que não conseguiria fazer um trabalho com essa magnitude ainda dentro da banda. Eu tive duas experiências importantes, que foram meus primeiros discos solo, paralelos ao trabalho do grupo. Então, uma vez fora da banda, eu pude me lançar por inteiro em um novo trabalho e ele vem com essa força de quem arriscou e se entregou completamente ao novo disco.

A gente mora noagora é um disco de muitas parcerias… Como foi isso? Foi sua vontade desde o início fazer um disco assim?
Isso foi se delineando aos poucos. Eu tinha muito material, algumas letras, várias ideias musicais. Na verdade, é uma característica minha mesmo essa coisa de transitar e trabalhar com muita gente, eu gosto muito de fazer isso. Desenvolver algo em parceria significa você dar uma contribuição e receber um estímulo do outro lado e chegar a um lugar onde nenhum dos dois poderia chegar sozinho.

Ao mesmo tempo, é um disco muito pessoal, pelo menos é a impressão que fica ao ouvir, que é totalmente seu… Como encontrar isso com as parcerias?
Nesse disco, eu tenho parcerias com ídolos, com amigos da vida toda e com novíssimos que eu acompanho e admiro. Alguns deles conheceram minha história recente, entenderam aquilo que estava por trás e compuseram inspirados nisso. O Guilherme Arantes, por exemplo, compôs inspirado numa letra que fala de superação, de reencontro com o amor. Então, isso aconteceu algumas vezes no disco e é muito interessante, por exemplo, que o Emicida tenha feito um perfil meu tão preciso em A lei do troço.

Da letra do Emicida, veio esse título A gente mora no agora, que é quase um mantra… Tem reflexos na sua vida pessoal?
Sem dúvida. O significado que está por trás desse título, desse conceito do disco é, justamente, não viver a nostalgia do passado e não cair na ansiedade do futuro. Eu acho que temos que viver o presente intensamente e fazer agora aquilo que a gente vai colher depois.

Tem essa questão do agora, mas do ontem também… Então, o que o tempo de carreira que você tem e o amadurecimento trouxeram?
Trouxeram muito autoconhecimento e experiência. E foi com isso, com a experiência de uma vida toda de trabalho, que eu fiz esse disco. Por isso, ele tem uma brasilidade tão presente, porque a minha formação é da música brasileira. Então, esse disco tem muito de autobiográfico, do meu passado recente e também de tudo que eu ouvi desde moleque.

Pode ser surpreendente pra quem só conhece seu lado roqueiro… Foi sua intenção mostrar mais desse outro lado?
Com certeza, e eu acho que as pessoas vão gostar porque eu continuo com a mesma pegada, com a mesma gana, com a mesma vontade como intérprete, que é aquilo que eu aprendi com o rock and roll. E o disco também tem guitarras, tem essa coisa do rock.

Com essas parcerias, você fez um passeio entre gerações… De Erasmo a Tim Bernardes, você se sente ligado a tudo isso?
Me sinto, sim. É muito interessante como o fato de eu ter feito essa costura com os parceiros todos, de gerações diferentes e de gêneros diferentes também, me definiu muito. E eu acho muito interessante ter conquistado essa unidade, porque a minha vontade era ter essa coisa diversa, esse convívio com tantas ideias diferentes. Acho que eu sirvo aí como um elemento de sintetizar essas coisas todas.

Você claramente está de olho nessa nova geração. Vivemos um momento bom na nossa música?
Acho que é um bom momento, sim. Temos essa possibilidade da internet, que é algo que pode trazer o artista para mais perto do público. E o artista acaba indo para grande mídia a partir de um reconhecimento que acontece primeiramente no meio digital, virtual. Alguns desses artistas novos que eu admiro estão presentes nesse disco.

Você parou há um bom tempo com todas as drogas… O que mudou artisticamente, fez alguma diferença nesse sentido?
No meu caso, sim. Foi fundamental parar. Eu estou num momento muito bom. Eu passei por todas essas perdas que eu tive e, quando isso aconteceu, já estava limpo e isso foi fundamental para que eu tivesse forças para lidar com essas situações.

Você construiu também uma carreira muito intensa como ator na tevê, no cinema, no teatro… Como a sua vertente musical conversa com essa outra?
Eu acredito que sou um intérprete. Minha maneira de cantar, de me apresentar, vai diretamente numa linha que se estende até o ator. O ator também é um intérprete. As coisas meio que se misturam e uma sai de dentro da outra. Eu vejo isso como uma extensão. Para mim, tem essa naturalidade.

Você já se aventurou pela música, pela tevê, pelo teatro, pelo cinema… Falta alguma coisa? Tem algum outro talento aí que a gente não sabe?
Olha, se eu tivesse, eu mostrava. (risos) Mas, por exemplo, na cozinha eu sou péssimo, só sei fritar um ovo. E jogando bola, só jogo bem no gol…

Tem política também no disco, como  em País elétrico (parceria com Erasmo Carlos)… Falar de política em um disco que é tão pessoal foi uma necessidade?
É uma necessidade sempre comentar o tempo, a época que a gente vive e tentar de alguma forma fazer com que esse comentário seja atemporal, que fale sobre o homem. Eu acho da maior importância comentar aquilo que a gente passa. É lógico que, no futuro, as pessoas podem ouvir e falar: “Bicho, eu estou vendo isso agora”. Ou não, achar que ficou datado, mas a gente trabalha para que essas coisas sejam perenes.

Paulo Miklos/Divulgação
A gente mora no agora
Paulo Milkos. Deck. 12 faixas. R$ 24,90.
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