Mônica Salmaso explora universo caipira em novo álbum

Cantora grava canções do gênero em novo disco e redescobre pérolas de artistas como Cartola e Roque Ferreira

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postado em 20/08/2017 07:00 / atualizado em 18/08/2017 17:50

Paulo Rapoport/Divulgação

 

Ao longo de quase três décadas, Mônica Salmaso construiu uma das mais bem avaliadas trajetórias na MPB. Compromissada com a cultura musical brasileira, essa sofisticada intérprete paulistana emprestou seu canto a gêneros diversos — desde o disco de estreia, em que focalizou os afro-sambas de Baden Powell e Vinicius de Moraes.

 

Depois, vieram elogiados projetos, nos quais colocou em relevo a obra de mestres, como Chico Buarque (Noites de gala, samba na rua), Guinga e Paulo César Pinheiro (Corpo de baile), além de outros gravados em Voadeira, premiado, em 1999, pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA); e Alma lírica Brasileira, que a levou a conquistar o troféu de melhor cantora de MPB na 23ª edição do Prêmio da Música Brasileira. Só para citar alguns deles.

 

No 11º disco de carreira, Mônica incursiona pelo universo da música rural, que resultou no álbum Caipira. Neste trabalho, que a permitiu interpretar criações de compositores de diferentes gerações, ela tem o acompanhamento de Neymar Dias (viola caipira e baixo acústico), Proveta (clarinete e sax tenor), Toninho Ferragutti (acordeon). Teco Cardoso produziu o CD e toca sopros. Há, ainda, a participação de André Mehmari (piano) e Robertinho Silva (percussão).

 

Mônica conta que a ideia de gravar o Caipira é antigo. “Sou uma pessoa urbana, nascida e criada numa megalópole chamada São Paulo, mas sempre me encantei com a diversidade. Em 2003, convidada pelo Sesc para tomar parte der um projeto temático que abria espaço para estilos musicais diversos, tive liberdade para escolher o assunto. Aí, desenhei um show voltado para a música caipira, intitulado Casa de caboclo”. Após a definição, a cantora convidou o escritor, contador de causos e violeiro Paulo Freire para participar. “Ele morou em Urucuia (MG), conviveu com Manoelzão, personagem de conto do Guimarães Rosa, e conhece com profundidade o universo sertanejo”, revela.

 

Garimpo

 

Algumas das músicas do Caipira vêm do repertório do Casa de caboclo. Outras, segundo ela, estavam guardadas na memória, “numa espécie de baú de afetividades”. Há, ainda, pérolas que garimpei no nosso folclore e canções que são fruto de pesquisa”. Ela cita, entre outras, A velha, o tema religioso Alvoradinha, Primeira estrela de prata (Rafael Altério e Rita Altério), Minha vida (Vieira e Carreirinho), Açude verde (Sérgio Santos e Paulo César Pinheiro) e Leilão (Hekel Tavares e Joracy Camargo).

 

Surpreende o fato de algumas das faixas do Caipira serem de consagrados autores da MPB que, a princípio, não teriam nenhuma relação com o tema, como o carioca Cartola e os baianos Gilberto Gil e Roque Ferreira. “Em 2003, quando ia gravar Iaiá, disco em que o samba está em destaque, fui ao Rio de Janeiro. Indo à Lapa, assisti a um show de Teresa Cristina e nos tornamos amigas. Ela então me apresentou Feriado na roça, uma inimaginável música caipira de Cartola. A guardei e gravei agora”, comenta. Uma outra que provoca um certo estranhamento neste disco é Bom dia, rara parceria de Gilberto Gil e Nana Caymmi, composta há 50 anos.

 

“Eu já ia gravar no CD Água da minha sede, samba de Roque Ferreira, que ele fez com Dudu Nobre. O Roque soube e me ligou, propondo uma inédita. O repertório já estava fechado, mas quando ele cantarolou ao telefone Baile perfumado, imediatamente decidi gravá-la, mesmo tendo que deixar de fora, outra música, escolhida anteriormente”, revela.

 

Para Mônica, Sonora garoa, de Passoca — outra faixa do álbum — é um clássico caipira moderno; enquanto a moda de viola Saracura três potes (Cândido Canela e Téo Azevedo), gravada por Tonico & Tinoco e Pena Branca & Xavantinho, pertence à tradição. “Para mim foi uma honra fazer dueto nessa música com o grande Rolando Boldrin”, frisa.

 

Letrista que transita com familiaridade por todos os segmentos da MPB, Paulo César Pinheiro é parceiro de Breno Ruiz na canção que dá título ao projeto. No verso inicial ele diz: “Sou tabaréu, sou capiau, sou caipira/ É a prosa que eu trago na viola e na lira/ É do mato, é da rocha é do chão”. Ter conhecido Bruno, em Itapetininga, no interior de São Paulo, e se inteirado do trabalho que ele desenvolve contribuiu para Mônica se decidir pelo projeto.

 

“Mônica se apaixonou de tal forma pelo tema, que participou de praticamente todo o processo do Caipira — da direção musical, ao lado de Teco Cardoso, à assinatura das fotos da capa e do encarte. “Esse é meu disco caipira, com todo o respeito que eu tenho pelo Brasil mais profundo. Neste momento, é mais urgente do que nunca, respeitarmos o que somos e cuidarmos da gente”, afirma emocionada.

 

Crítica // Caipira (Mônica Salmaso)

 

Sertão ampliado

Paulo Pestana

(Especial para o Correio

 

Paulo Rapoport/Divulgação

Letras diretas, ponteados repetitivos, ritmos dolentes e muita tristeza fazem da música caipira um retrato da simplicidade matuta. Mas nada é simples com Mônica Salmaso. E não é por ser caipira que tem que ser jeca.

Com um grupo de músicos de fino padrão, criou Caipira, disco que amplia as fronteiras do sertão brasileiro a partir de escolhas surpreendentes no repertório e de opções sofisticadas nos arranjos. Mesmo para quem já havia gravado Cuitelinho acompanhada apenas pelo piano, no disco Alma Lírica Brasileira.

Não é uma compilação das melhores modas, nem uma antologia de gêneros rurais; ao contrário, é uma percepção pessoal da cantora, que partiu de uma seleção de mais de cem canções coletadas pelo violeiro Paulo Freire. Mas ela optou por abrir o leque e incluiu canções urbanas e compositores contemporâneos que dialogam com o Brasil profundo.  

A música que dá título e abre o disco é vestida com arranjo sofisticado, sem acordes, com dedilhado de piano, flauta e uma viola apenas dedilhada, sem palheta, mostra o leque de intenções. Outras liberdades são tomadas com a inclusão de Bom Dia (que Nana Caymmi cantou no Festival da TV Record em 1967) e Água da Minha Sede (gravada por Zeca Pagodinho). Mas nada quebra o espírito interiorano.

Nesse imenso universo caipira, há espaço para a chamada música de raiz, representada, entre outras, por duas joias que ganharam interpretação marcante: Leilão, de Heckel Tavares e Joracy Camargo, já gravada por Cyda Moreira, e Minha Vida, de Carreiro e Carreirinho, com um trabalho exemplar do violeiro Neymar Dias.

Há mais: o divertido pagode A Velha, de Zezinho da Viola, traz um arranjo que emula as retretas do interior, e Saracura Três Potes (já gravada por Tonico e Tinoco) é valorizada pelo dueto com Rolando Boldrin, cerzida apenas pela viola.

Mônica Salmaso mostra a precisão técnica de sempre, imprimindo sua marca nessas canções tão distantes de seu repertório usual. Para além da viola, ela encontra os tambores maranhenses na religiosa Alvoradinha. Na outra ponta, vai aos morros cariocas buscar Feriado da Roça, originalmente um samba-canção de Cartola, com tintas trágicas.

O baiano Roque Ferreira ainda contribui com a bela Baile Perfumado, uma das poucas inéditas do disco. Monica Salmaso segue o caminho da roça, mas optou por uma trilha menos tortuosa e que não interrompe sua trajetória; ao contrário, reforça a caminhada de uma cantora que emociona e sabe por onde anda.

Caipira 
Novo disco de Mônica Salmaso. Lançamento da Biscoito Fino, com 14 faixas. Preço sugerido: R$ 29,90.

 

 

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