Cena Contemporânea levanta discussões sobre a natureza humana

Importantes artistas internacionais ocupam os palcos do Cena Contemporânea a partir desta terça. O evento também conta com apresentações musicais

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postado em 21/08/2017 08:50 / atualizado em 21/08/2017 10:37

Cena Contemporânea/Divulgação
 
Dois espetáculos fortes e impactantes assumem a função de abrir e encerrar o Cena Contemporânea de 2017. O texto ácido e atual de Black off, da África do Sul, se junta ao importante carioca A paz perpétua nos palcos do festival. O primeiro abre o evento, amanhã, e mostra o talento imponente de Ntando Cele, colocando em cena a questão do pensamento racista e o confronto com sua construção histórica. O segundo faz um recorte social para falar de ética, justiça, democracia, autoridade e violência. As duas criações se preenchem por uma importante crítica à desumanização fabricada pelos preconceitos, além do destaque para a natureza humana em sua mais visceral essência. O teatro firma-se como espaço que dá voz aos diálogos contemporâneos, além de colocar uma lupa sobre o lado mais sensível, perverso, bom e complexo do ser humano.

Formada pela Universidade de Durban, na África do Sul, a atriz, cantora e performer Ntando Cele sobe ao palco para interpretar um texto cheio de humor sutil e com uma pegada cínica, abordando tópicos críticos para a vivência do homem e da mulher negra na sociedade atual. O espetáculo com constante presença musical mistura performance, vídeo, música punk e comédia, criando a combinação ideal para tragar o público. 

“A ideia é que as pessoas sintam a complexidade do tema em vez de tentar ensiná-las uma lição. Soa estranho ainda ter que lidar com questões sobre racismo em 2017 da mesma forma com que as pessoas tiveram que lidar há 30 ou 50 anos ”, afirma a atriz. Para ela, as pessoas ainda lidam com o ódio e a culpa da mesma maneira. O objetivo é que o público se divirta e sinta-se incomodado com o texto.

Na história de Black off, que marca a abertura do festival, uma mulher negra está interpretando uma mulher branca e bem- sucedida que tenta ajudar os negros. Suas intenções seriam boas, no entanto, seus preconceitos, que não são apenas pessoais, mas transportados através da história, impedem que ela forneça qualquer tipo de ajuda. 

“Ela não reconhece as pessoas negras como pessoas verdadeiramente. Entre os clichês ironicamente trabalhados na peça estão: o fato de que os negros não gostam de arte complicada, pois suas vidas são complicadas o suficiente. As pessoas brancas são superiores e têm um coração bom para os mais fracos; as pessoas brancas sabem o que é melhor para todos; eles têm as soluções para os problemas criados e cuidam do planeta com o veganismo e a reciclagem”, destaca Ntando, que lembra o sarcástico texto da peça. 

Estereótipos
Como atriz negra, Ntando lembra que está sempre em minoria nas produções teatrais e que ainda é vista como exótica e interessante de maneira antropológica. Muitas pessoas ainda não enxergam seu potencial como atriz real, mas quase como um objeto de estudo. “Como atriz negra, eu costumava desempenhar papéis estereotipados. Todos os países são muito diferentes, mas os clichês raciais são parecidos. A narrativa de que o branco é o certo continua a ser a mesma, como se vê também na política”. Para ela, o teatro mostra sua eficácia ao abordar os problemas reais da sociedade. Ele deve fazer as perguntas às quais as pessoas estão interessadas.

O texto foi escrito em parceria com Raphael Urweider, que destaca a característica da peça de  misturar poesia, humor e cultura punk. Para ele, a arte sempre tem uma função social, ainda que não pretenda ser política. Raphael é um homem branco que nasceu em um país predominantemente branco, a Suíça. Escrever para uma atriz negra que interpreta uma mulher branca inconscientemente racista cria a possibilidade de cavar a fundo seus próprios preconceitos. “Como o país mais poderoso do mundo atualmente tem um presidente racista, que reúne homens brancos abertamente racistas à sua volta, é fácil perceber a importância de tratar desse tema agora”.
 
Nil Caniné/Divulgação
 
Diálogos atuais
A paz perpétua, que encerra o festival, tem direção de Aderbal Freire-Filho, um dos mais importantes nomes da cena teatral brasileira contemporânea. Em cena, cinco personagens, sendo quatro cachorros e um homem. Três cães jovens disputam um único lugar em uma corporação de combate ao terrorismo, sendo testados por um cão veterano. 

O que sobressai, sobretudo, é o que eles pensam, uma discussão sobre os valores da sociedade contemporânea. “No processo de criação do espetáculo, tratamos de encontrar a medida de expressão animal de cada personagem, sabendo, no entanto, que estávamos em um jogo de espelhos: cachorros com sentimentos e pensamentos humanos, refletindo a natureza animal do homem. Qual a formação de cada um, como eles reagirão em situações de perigo?”, destaca o diretor. 

Durante o processo, a aproximação com o terrorismo nacional não distanciou a história de sua discussão original: o terrorismo que ameaça o mundo. Os temas do espetáculo são atemporais, vistos sob uma perspectiva atual. Ele fala de terrorismo, mas fala especialmente da natureza humana, por isso seus personagens são cachorros: como esses cachorros falam, pensam, têm sentimentos e opiniões, a natureza humana projetada neles fica mais visível. Para Aderbal, a função social da arte independe de um artista achar que a arte tem que ter ou não uma função social.

Shows
Para expandir os horizontes e atrair um público diverso ao festival o Cena Contemporânea promove duas semanas de shows musicais gratuitos. Entre os palcos de todo o Distrito Federal, ruas e espaços externos, as apresentações teatrais se juntam aos shows do Complexo Cultural da República. Na abertura, Tulipa Ruiz e Marcelo Jeneci e no encerramento, Lô Borges. Outros artistas, como Otto, Alberto Salgado, e seis dias do projeto Buraco do Jazz. A ideia é reunir música e artes cênicas, misturando públicos, linguagens e gêneros artísticos.

Cena Contemporânea
O festival acontece de amanhã a 3 de setembro, em espaços diversos da cidade. Confira a programação completa no site do Correio. Os shows musicais do Buraco do Jazz acontecem de amanhã ao dia 27, sempre às 21h. As demais apresentações musicais vão até 3 de setembro, no Complexo Cultural da República. Confira a programação completa no site do Correio. A classificação indicativa é livre e a entrada é franca.
 
Serviço 
Black Off
Teatro Sesc Garagem, dias 22, 23, 24/08 às 21h. Teatro Sesc Ceilândia Newton Rossi, 25/08, 20h. Teatro Sesc Paulo Gracindo, 26/08, 20h.

A paz perpétua
Teatro Funarte Plínio Marcos, 02/09, às 19h e 03/09, 20h. 
 
Duas perguntas // Aderbal Freire Filho
Qual a importância da criação do texto levado para os palcos? Ele dialoga com o público de maneira mais efetiva?

O teatro só existe no palco. Um texto de teatro, por melhor que seja, ainda não é teatro, é literatura. Será lido por sua qualidade poética ou porque não existem tantos teatros à disposição para ver as peças de Shakespeare, por exemplo. Por que editam poucas peças de teatro? Porque, em princípio, o leitor de literatura dramática seria apenas o artista de teatro. A literatura dramática, por natureza, é incompleta. No texto dramático estão as palavras que os atores devem dizer, às vezes indicações de como essas palavras devem ser ditas, etc. É, enfim, uma parte do teatro. O filósofo Alain Badiou, que é também autor de teatro, resume bem isso: ele fala do teatro como o campo de ideias-teatro. E diz que essas ideias-teatro não podem ser produzidas em nenhum outro lugar, por nenhum outro meio, fora da representação, fora da cena. E diz mais, que nenhum dos elementos isoladamente está apto a produzir as ideias-teatro, nem mesmo o texto.
 
Enquanto diretor, como você trabalha as relações entre ator, texto e público?

O diretor de teatro é o artista que concebe o espetáculo, isto é, cria um espetáculo como um pintor pinta um quadro, um escritor escreve um romance, um compositor compõe uma sinfonia. Ele faz isso com outros artistas, os atores, o autor do texto, o cenógrafo, etc. Ele opera a poética cênica e seu atelier é a sala de ensaios. O teatro ilimitado - que não é realista e limitado como foi em determinado período de sua história, até ser substituído pelo cinema - o teatro ilimitado, repito, acontece na imaginação do espectador, do artista-espectador. Quando o cinema faz Titanic ele mostra o navio, o mar, etc. Quando eu encenei Moby Dick, o mar, o navio, a baleia, todos apareciam na imaginação do espectador. Então, enquanto estou no atelier, trabalho com esse artista ausente, o público, de diferentes maneiras, até imaginando sua participação objetiva, quando é o caso. Ele é fundamental, estou sempre pensando em despertar sua imaginação. No fim das contas, uma cena é sempre uma provocação a imaginação do espectador. Ela, a cena, existe concretamente e ao mesmo tempo deve provocar outras existências subjetivas.

Programação Cena Contemporânea 2017


TERÇA, 22.08
21h – CAIXA Cultural - Black Off – África do Sul

QUARTA, 23.08
10h – Praça da Bíblia - Estrutural – Poéticas Urbanas – DF
19h – Teatro SESC Garagem – Barro Rojo – Espanha
20h – Teatro SESC Gama Paulo Gracindo - Velejando Desertos Remotos – DF
21h – CAIXA Cultural - Black Off – África do Sul

QUINTA, 24.08
19h – Teatro Funarte Plínio Marcos – Tremor and More - França
19h – Teatro SESC Garagem – Barro Rojo – Espanha
21h – CAIXA Cultural - Black Off – África do Sul

SEXTA, 25.08
19h – Teatro SESC Garagem – Tsunami – DF
20h - Teatro SESC Gama Paulo Gracindo – Barro Rojo – Espanha
20h – Teatro SESC Ceilândia Newton Rossi - Black Off – África do Sul
20h30, 21h30 e 22h30 – Parque Olhos D’Água – O Inominável – DF
21h – CAIXA Cultural – Dança e Percussão - França

SÁBADO, 26.08
11h e 16h – Auditório 1 do Museu Nacional da República – Festival Primeiro Olhar
17h – Teatro Funarte Plínio Marcos – Simbad, o Navegante – SP
17h – Teatro Lieta de Ló Planaltina – Sementes - DF
20h - Teatro SESC Gama Paulo Gracindo – Black Off – África do Sul
20h – Teatro SESC Taguatinga Paulo Autran – Dança e Percussão - França
20h – Teatro SESC Ceilândia Newton Rossi - Barro Rojo – Espanha
20h30, 21h30 e 22h30 – Parque Olhos D’Água – O Inominável – DF
21h – CAIXA Cultural – Teto e Paz - DF

DOMINGO, 27.08
11h e 16h – Auditório 1 do Museu Nacional da República – Festival Primeiro Olhar
17h – Teatro Funarte Plínio Marcos – Simbad, o Navegante – SP
17h – Espaço Imaginário Cultural Samambaia – Sementes - DF
20h – Teatro SESC Garagem – Maratona em Nova York – Colômbia
20h – CAIXA Cultural – Teto e Paz - DF

20h – Teatro SESC Ceilândia Newton Rossi - Barro Rojo – Espanha

SEGUNDA, 28.08
16h – Asa Norte – Carnaval de Kitinete - DF
19h – Teatro SESC Garagem – Maratona em Nova York – Colômbia
20h – Teatro SESC Taguatinga Paulo Autran – Tsunami - DF
21h – CAIXA CULTURAL – O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu - SP
21h – Teatro Funarte Plínio Marcos – Duas gotas de lágrimas – DF
22h – Asa Norte – Carnaval de Kitinete - DF

TERÇA, 29.08
16h – Asa Norte – Carnaval de Kitinete - DF
19h e 21h – Teatro SESC Garagem – Afinação I – SP
20h – Teatro SESC Gama Paulo Gracindo – Teto e Paz - DF
20h – Teatro SESC Taguatinga Paulo Autran – O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu - SP
20h – Teatro SESC Ceilândia Newton Rossi – Duas Gotas de Lágrimas - DF
22h – Asa Norte – Carnaval de Kitinete - DF

QUARTA, 30.08
19h – Teatro Funarte Plínio Marcos - As Guerrilheiras - SP
20h – Teatro SESC Gama Paulo Gracindo – Teto e Paz - DF
20h – Teatro SESC Taguatinga Paulo Autran – Afinação I – SP
20h – Teatro SESC Ceilândia Newton Rossi – O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu - SP
21h – CAIXA Cultural – Há mais futuro que passado – SP

QUINTA, 31.08
19h – Teatro Funarte Plínio Marcos - As Guerrilheiras - SP
20h – Teatro SESC Gama Paulo Gracindo – O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu - SP
20h – Teatro SESC Ceilândia Newton Rossi – Afinação I – SP
21h – CAIXA Cultural – Há mais futuro que passado – SP

SEXTA, 01.09
19h – Teatro Funarte Plínio Marcos – Velejando Desertos Remotos - DF
20h – Teatro SESC Taguatinga Paulo Autran – Vaga Carne – MG
21h – Teatro SESC Garagem – Dissidente - BA

SÁBADO, 02.09
11h e 16h – Auditório 1 do Museu Nacional da República – Festival Primeiro Olhar
19h – Teatro Funarte Plínio Marcos – A Paz Perpétua - RJ
20h – Teatro SESC Ceilândia Newton Rossi – Vaga Carne – MG
21h – Teatro SESC Garagem – Dissidente - BA
21h – CAIXA Cultural – A Moscou – Um Palimpsesto - DF

DOMINGO, 03.09
11h e 16h – Auditório 1 do Museu Nacional da República – Festival Primeiro Olhar
19h e 21h – Teatro SESC Garagem – Vaga Carne - MG
20h – Teatro Funarte Plínio Marcos – A Paz Perpétua - RJ
20h – CAIXA Cultural – A Moscou – Um Palimpsesto - DF
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