Caravanas contribui para universo inigualável de canções

Disco de Chico Buarque conserva visão ampla e atemporal dos clássicos

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postado em 23/08/2017 07:30

 
 
Divulgação/Chico Buarque
 
Entre o lirismo e a observação social-política, Chico Buarque construiu um inigualável universo de canções em sua carreira, ainda em progresso. E o novo disco, Caravanas, dá imensas contribuições para este catálogo, ainda que enfrente o mau humor nacional e talvez tenha que esperar a ressaca para ser definitivamente percebido.

Numa época em que o Brasil parece ter se transformado num imenso Maracanã, onde, na visão rodriguiana, vaia-se até minuto de silêncio, há uma iconoclastia que não perdoa nem os tesouros nacionais. Azar dos que não ouviram e não gostaram; Caravanas carrega gemas e mesmo quando centra o foco em assuntos do jornal de hoje conserva a visão ampla e atemporal dos clássicos.

A lírica Tua Cantiga — já conhecida e injustamente espinafrada nas redes sociais — abre o desfile de nove canções, que chega à faixa que deu título ao disco, uma canção épica que traça um paralelo entre as reações às migrações africanas para a Europa e a gentrificação das grandes cidades brasileiras. “Tem que bater, tem que matar/ engrossa a gritaria/ filha do medo, a raiva é mãe da covardia”, canta sobre uma base em crescendo, que mistura beat box e arranjo sinfônico.

Chico Buarque nunca teve medo de explorar ritmos. Em Blues para Bia, ele volta a experimentar o ritmo norte-americano de um modo absolutamente pessoal, em que apenas aproveita a estrutura de 12 compassos para desenvolver uma canção mais melancólica. Na letra, achados típicos do melhor que ele já produziu, diante de um amor impossível: “Talvez ela queria me avisar/ Que no coração de Bia/ Meninos não têm lugar/ Porém nada me amofina/ Até posso virar Menina/ Pra ela me namorar”.

Entre as sete canções inéditas, aparece Casualmente, um son abolerado, de Jorge Helder com letra em espanhol, com uma pequena homenagem ao neotrovador cubano Silvio Rodriguez na citação de um verso — “Es lo mismo, pero no es igual”. Em Jogo de bola, Chico Buarque brinca com jogos de palavras e com escalas musicais, que interrompem o samba sincopado, num relato singelo de quem agora só pode apreciar o jogo bonito. Caravana é um grande momento de Chico Buarque e que faz bem a um momento em que o país e a música brasileira enfrentam tantas dificuldades. Pelo menos a polêmica vai ser embalada por boa música.


Caravanas
CD de Chico Buarque de Holanda, com nove faixas, produção de Vinicius França, direção musical e arranjos de Luis Cládio Ramos. Lançamento da gravadora Biscoito Fino. Preço sugerido R$ 34.

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