'Simbad' e 'Maratona em NY' são destaques do Cena contemporânea no domingo

Espetáculos investem na força corporal para criar atmosfera impactante e promover novas relações com o público

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Paulo Barbuto/Divulgação

As possibilidades abertas com o intenso trabalho corporal em cena chegam ao público por meio de dois premiados espetáculos: Simbad, o navegante, de São Paulo, e Maratona em NY, da Colômbia. O primeiro se inspirou na companhia brasiliense Nós no Bambu para construir o criativo cenário, sendo considerado o melhor espetáculo infantil de 2015 e premiado em quatro categorias. 

A mistura de circo e teatro permite uma rica construção acrobática em cena. A cenografia feita em bambu transporta o espectador a um universo onírico e imaginativo. Enquanto isso, no segundo espetáculo, dois atores colombianos sobem ao palco e, com forte preparo físico, correm uma maratona enquanto refletem e discutem seus próprios conflitos.

Simbad é uma adaptação da história clássica As mil e uma noites e mostra que dois atores podem criar mundos, ilhas, barcos, tempestades e pássaros gigantes enquanto manipulam estruturas feitas de bambu. A técnica circense entra em cena através do trabalho com palhaço, que assume protagonismo na interpretação dos atores na hora de contar histórias; além das ricas acrobacias executadas no palco. Na história original, dois Simbads de diferentes profissões representam a dualidade do ser humano.

Rodrigo Matheus, um dos artistas em cena, lembra que As mil e uma noites são histórias contadas oralmente por uma contadora de histórias que tenta salvar sua vida. Entre os séculos 10 e 18, elas foram contadas oralmente entre famílias e os atores decidiram manter essa característica, criando a peça com texto em terceira pessoa e contado no passado.

“É uma história muito rica e cheia de possibilidades. No palco, fazemos o que mais gostamos: brincar de faz de conta por meio do teatro. Temos que contar com toda a imaginação da plateia, o que é muito legal, porque assim, os espectadores viram participantes”, destaca o ator.

O livro Mil e uma noites é uma coleção de histórias e contos populares, originários do Médio Oriente e do Sul da Ásia, compiladas em língua árabe a partir do século 19. Rodrigo lembra que a história tem grande força e apelo atual, já que fala sobre o que é ser humano neste mundo, sem pensar a cultura árabe como referência ao terrorismo ou outros aspectos negativos. “É importante lembrarmos que há gente boa e ruim em todos os lugares e que essa cultura é capaz de coisas maravilhosas.”

A figura dos dois palhaços foi escolhida para mostrar dois viajantes, que circulam mundo afora contando histórias. Em cena, eles criam a leveza necessária para crianças e adultos em meio a narrativas tão grandiosas. Rodrigo lembra que a ideia de utilizar os bambus veio depois de encontrar algumas fotos do grupo brasiliense Nós no bambu, aquele parecia ser o elemento correto. O ator passou três dias em um pequeno sítio da capital, com Marcelo Rio Branco, que o ensinou tudo sobre os bambus e suas estruturas triangulares. “Aprendi a cortar, tratar, queimar, proteger, amarrar e ocupar”, destaca.

O espetáculo é uma mistura entre duas artes complementares, o teatro e o circo. Rodrigo destaca que apenas com técnicas circenses poderia ocupar as estruturas do cenário como fizeram no espetáculo. “Amarramos os bambus em cena, montamos e desmontamos a cada cidade, e nos penduramos, subimos, escalamos. Mais técnica só significa mais liberdade”, afirma. Em cena, eles utilizam também treinamento de dança, tendo a ajuda de Ronaldo Aguiar, o outro intérprete em cena, que é bailarino de formação. “A mistura de linguagens é um acréscimo às magias que podemos utilizar, para agradar, impressionar, surpreender e encantar o público.”

Maratona teatral

Com Giancarlo Mendonza e Andrés Cabellero, Maratona em NY busca colocar o público em outro ritmo de respiração e presença. Em cena, dois amigos treinam para participar da grande corrida e, entre o cansaço do treino, a cumplicidade e a amizade, surgem questionamentos importantes sobre a vida e morte, presente e passado.
 
Juan Camilo Arias/Divulgação
 

O espetáculo se propõe a cruzar elementos de realidade, comicidade e metafísica. Para essa experiência metafísica, o diretor Giancarlo conta apenas que há uma surpresa ao final da peça, quando o espectador se sente vendo novamente tudo o que aconteceu na narrativa, mas com um sabor diferente para todos os acontecimentos.

Humor e realismo se cruzam no palco. Enquanto um dos amigos se mostra focado com o treinamento, o outro pensa em voltar atrás. O texto foi construído a partir da conexão com os atores, consequência de um trabalho de pesquisa e investigação. “Começamos a encontrar os ritmos diferentes dentro dessa ação de corrida”, destaca Giancarlo. Os atores correm durante todo o tempo em cena e dividem esse espaço com os espectadores. Para o diretor, essa experiência possibilita uma conexão com o público que passa pelo corpo.

Esse trabalho de corpo no teatro físico é fundamental. Giancarlo lembra que ele se faz a partir da presença física, da qualidade da tensão e percepção e a permanente ação e reação do que acontece na cena. A peça desafia os atores com um trabalho físico que chega ao limite, provocando que se mantenha um nível forte de presença em cena durante uma grande corrida. Nesse caso, os intérpretes estão fazendo um trabalho limite que condiciona outro estado de presença. É essa uma das provocações levantadas por ambos os grupos, que sobem ao palco para mostrar um precioso treinamento de interpretação e preparo corporal.

Juan Camilo Arias/Divulgação

Duas perguntas /Rodrigo Matheus — ator de Simbad, o navegante


Qual a importância de participar de um festival de teatro que reúne grupos de regiões tão diferentes do país e do mundo?
Divulgar o trabalho de forma consistente e ampla. Sem dúvida. É nos grandes festivais que um trabalho ganha as extensões, ganha o conhecimento do Brasil ou do exterior. O Cena Contemporânea é um Festival importantíssimo, e temos muito orgulho e prazer de estar aqui. Teremos, enfim, depois de três anos, a oportunidade de mostrar o espetáculo ao pessoal do Sistema Integral Bambu, o Marcelo Rio Branco e parceiros, e aos integrantes do Nós no Bambu, nossos inspiradores. Acredito que fazemos algo muito diferente deles, mas que sem dúvida veio dali. Só vendo o que eles fizeram poderíamos ter feito o Simbad.

Qual seria a importância do teatro para a sociedade atual?
Lembrar a todos da importância do encontro e da imaginação. Sem o ser humano de verdade, nós nos tornaremos máquinas. Precisamos nos encontrar, estar em lugares com outras pessoas, vendo pessoas fazerem coisas, e discutir ideias a partir daí. E precisamos imaginar, não podemos só observar as maravilhas da tecnologia. Só a imaginação possibilitou ao ser humano chegar aonde chegou. Temos que nos manter imaginando, e o teatro permite isso. Só as artes visuais, o circo, o teatro, a dança e a literatura permitem isso… E o teatro (e o circo e a dança) permitem todos esses juntos!
 
Cena Contemporânea
De 22 de agosto a 3 de setembro. Simbad, o navagente (SP): Domingo, no teatro Funarte Plínio Marcos, às 17h. Maratona em NY (Colômbia): Domingo, no teatro Sesc Garagem, às 20h, e segunda, às 19h. Outros espetáculos em cartaz domingo: Sementes (DF), no Espaço Imaginário Cultural (Samambaia), às 17h. Teto e Paz (DF), na Caixa Cultural, às 20h. Barro Rojo (Espanha), no Teatro Sesc Ceilândia Newton Rossi, às 20h.
 
 
 
 

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