GOG prepara disco para comemorar 25 anos de estrada

O rapper brasiliense faz campanha de crowdfunding para lançar o trabalho 'Mumm-rá High Tech'

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postado em 29/08/2017 07:10

Fuca Calixto/Divulgação
 
 
É impossível dissociar a história do hip-hop brasiliense à imagem do rapper GOG. Quem tem contato com o trabalho de Genival Oliveira Gonçalves desde os tempos em que era apenas um menino nas QI e QEs do Guará sabe que ele não restringe a carreira às asas do avião. Segue, justamente, pelo extremo oposto. Como um andarilho, percorre todos os cantos do Distrito Federal e do Entorno, seja para atuar em trabalhos sociais em presídios ou escolas, seja para manter o que chama de rap “porta a porta”, com um contato direto com o público. Essa tem sido a busca constante do veterano do gênero, mesmo quando as rimas cortantes ainda não eram bem-vistas no meio mainstream.

No ano em que celebra 25 anos de carreira (o primeiro disco, Peso pesado, data de 1992), GOG decide recorrer à coletividade, recurso com o qual já estava habituado, para lançar o 11º álbum. Batizado de Mumm-rá High Tech, o disco está em uma vaquinha virtual no site Kickante.

“É um projeto desafiador. O nome do álbum, Mumm-rá High Tech, fala da pessoa que quebra todos os territórios, todas as caminhadas, e precisa estar sempre se renovando. Sempre acreditei no hip-hop de autogestão, mas também no apoio do público. Fora o crowdfunding, tenho um ‘agente financeiro’ chamado Banco Nós por Nós, que, na verdade, sou eu mesmo. A moeda é a palavra. As pessoas compram e depois falam como preferem pagar. Eu tenho índice zero de inadimplência”, conta.

O último recurso foi, durante muito tempo, a principal forma de GOG manter-se ativo na cena do hip hop. Antes que nomes com o cacife de Emicida, Criolo, Rael e Karol Conka aparecessem na tevê, nas rádios, nas capas de revista e em campanhas publicitárias, era preciso subverter o sistema. Mais que isso: foi necessário reorganizá-lo à sua maneira. “O hip-hop faz um poema sujo, discute temas que a música e a sociedade brasileira não querem discutir”, emenda.

Com nove faixas, Mumm-rá High Tech está em processo de finalização e tem produção assinada por DJ Caique e Leo LP. “Venho aprendendo muito. Foi muito importante a chegada dessa nova geração do rap. Ela veio para ocupar um espaço em desuso do hip-hop. As batalhas e os moleques que estão a reinventando. Tudo isso veio para o meu disco”, adianta. O vinil e um espetáculo que seguirá a estética teatral com direção do espanhol Carlos Laredo também estão nos planos. Quatro videoclipes já foram produzidos. O último deles, Universo Gueto, teve imagens captadas na comunidade Santa Luzia, na Estrutural.


Recompensas
As contribuições para viabilizar Mumm-rá High Tech começam em R$ 10. Por esse valor, é possível fazer o download do CD por e-mail. A doação mais alta, de R$ 500, tem como recompensa o nome do contribuinte nos agradecimentos do telão durante o show de lançamento mais um par de ingressos para o evento, uma camiseta, o CD físico e download do álbum no e-mail.


Ponto a ponto | GOG

Porta-voz
Essas comunidades, como a Estrutural, eram carentes. Hoje são “querentes”. O hip-hop tem um papel muito importante nisso. Para o clipe Universo Gueto, escolhi gravar na Estrutural, e dentro dela, a comunidade Santa Luzia, porque a maior diferença de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil está em Brasília, comparando os moradores do Lago Sul aos de lá. Quando li essa informação ,pensei na hora em produzir o clipe. É uma comunidade superorganizada e que recebe trabalhos sociais importantes. Cerca de 70% dela vai ser “arrancada” para fazerem uma avenida, uma rodovia que ligará a Estrutural a Brazlândia. Eles estão próximo a uma Área de Preservação Ambiental (APA) e, ao mesmo tempo, do lixão. São pessoas amáveis, estão sempre sorrindo, reescrevem o conceito de felicidade que não está ligado somente a rua asfaltada, com saneamento básico. Estão ali porque têm esperança de ter uma moradia. Mesmo que, do ponto de vista político, isso seja muito complicado, eles têm associação de moradores, são unidos. É algo singular.



Preconceitos
Eu, particularmente, não tenho problema de público no Distrito Federal. Recentemente, fizemos uma releitura do meu primeiro grupo de rap, o Viela17, com Japão, Dino Black e DJ Manomix na Casa do Cantador. Tivemos lotação máxima, mais de 1,2 mil pessoas presentes em uma quinta-feira. Se o artista não estiver antenado com as tecnologias, se não tiver um bom timing, boa presença de palco, dialogar com os meios de comunicação, e outro conjunto de coisas, não vai para a frente. Alguns artistas não conseguem porque não falam com o público dessa forma. Veja o projeto Prata da Casa, da Tribo da Periferia. Eles souberam trabalhar em todos os momentos da carreira, inclusive no atual.



Música independente
A música independente tem uma característica: ela é dependente. Dependente dos diálogos sociais, de uma teia que te leve no ciclo da música. Em contradição a isso, há uma geração atual que está com o “FAC” e o queijo na mão. Só fazem eventos se tiverem FAC ou verba pública. Venho de um movimento de autogestão. A gente faz, e faz mesmo! Na pracinha, na quadra de esporte, no bar, na boate, na creche, na escola. Onde tiver espaço, estamos trabalhando. Temos um circuito de batalhas de MCs em Brasília de segunda a domingo. Ceilândia, Guará, Valparaíso. É o termômetro da rua, extremamente importante para ter gente te aplaudindo no palco.



Mainstream
O rap é música negra. Se você falar isso para as novas gerações, alguns podem te questionar. Isso aconteceu com o rock. No fim dos anos 1960, tínhamos Chuck Berry. Depois veio o Elvis Presley. Parece que o Chuck não existiu. Da mesma forma o hip-hop está cumprindo um papel, mas está bem mais superficial no mainstream. São músicas pequenas. Eles têm uma capacidade linguística e metafórica muito legal, mas falta o “pré-sal”, o ouro negro embutido. A todo momento eu falo que, em 1992, minha música me situava como periférico. Hoje, me defino como um homem negro. Essa foi a grande transformação que a música fez para e em mim. O hip hop não acompanhou e não seguiu esse caminho que eu segui.



Redes sociais
A internet hoje está menos democrática. A oportunidade é cada vez mais difícil. Atrás de likes vêm os cleptomaníacos de “cap”. A organicidade existe, mas é preciso ter poesia no topo e na base. Não só o rap, mas todo movimento musical que tem essa discussão do social, do étnico, do racial tem que estar em todos os lugares. Estou no Congresso Nacional, no Senado Federal, trabalhei em campanhas. No entanto, simultaneamente ia a cadeias, a orfanatos, às Unidades de Internação Provisória de Jovens. Discutindo a sociedade como um todo, não só o que está mais perto e que agrada no palco.



Preconceitos
Somos muito subutilizados não só pelos movimentos sociais, mas pelas escolas, pelos professores, por todos aqueles que poderiam se aproveitar mais dessa experiência que a gente tem. No país da bola, o que vai decidir o jogo é a bolinha do “zói”. O governo, o Estado, a ONG, eles olham a gente de lado, olham a gente como exóticos. Eu, como parte e fragmento de um grande universo, escuto que sou esse lastro que faltava.



GOG por Japão, do Viela17
“Conheci o GOG no início da década de 1990. Já o acompanhava em algumas apresentações, e o Dj Raffa me ligou dizendo que ele estava procurando alguém pra tocar junto. Foi aí que eu entrei para o grupo Viela17. Trabalhar com o GOG foi um dos maiores ensinamentos que um rapper poderia ter. Ele é um guerreiro, batalhador e um cara sem igual. Tive a honra de ser o braço direito dele por quase uma década, aprendi muitas coisas e pude mostrar minha arte de forma respeitosa e consequentemente aceita. Devemos nos orgulhar desse cara que, com sua arte e determinação, foi um dos rappers que colocaram Brasília na linha de frente do rap nacional. Vida longa, poeta.”
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