Todo poder às drags: artistas brasileiras vivem bom momento na música

Com a ascensão de Pabllo Vittar, artistas brasileiras ganham destaque no meio musical emplacando sucessos e garantindo visibilidade

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postado em 30/08/2017 06:00 / atualizado em 29/08/2017 17:59

Marlon Brambilla/Divulgação
 
Até o ano passado, a drag queen mais conhecida do mundo era RuPaul, 56 anos. Ela ganhou destaque ainda nos anos 1990 na tevê norte-americana e se tornou famosa mundialmente após a criação do reality show RuPaul’s drag race, no ar nos Estados Unidos há nove temporadas e com uma versão brasileira em breve. No entanto, neste ano, o título mudou de dona e veio para o Brasil.
 
Desde janeiro, a maranhense Pabllo Vittar, 22 anos, está em alta. Tudo começou com o lançamento do primeiro álbum da artista, Vai passar mal. Com 10 faixas inéditas e autorais, Pabllo viu suas canções se tornarem hits no país. A começar por Todo dia, que virou um dos sucessos do carnaval brasileiro e, agora, está em disputa judicial — o rapper Rico Dalasam contesta os direitos autorais da faixa. Problemas à parte, a música fez com que Vittar se tornasse a drag com mais visualizações em um clipe original no YouTube. Todo dia superou o número de acessos de Sissy that walk, de RuPaul, que era recordista. Pabllo Vittar também bateu RuPaul em outro quesito. A brasileira é a drag com o maior número de seguidores nas redes sociais.
 
A mais recente faixa, Sua cara, gravada em parceira com Anitta e com o projeto eletrônico Major Lazer, expandiu ainda mais a repercussão de Pabllo Vittar. Por gravar novamente com o DJ e produtor Diplo, ela chegou a diversos países. O clipe da música possui mais de 134 milhões de visualizações no YouTube. E Pabllo tem aproveitado esse bom momento, lançando com Preta Gil a faixa Decote, que teve o clipe divulgado no Fantástico, aparecendo em diversos programas de televisão e estando confirmada na novela A força do querer, que tem debatido a transexualidade por meio da personagem Ivana.
 
 

Toda essa boa repercussão em torno de Pabllo Vittar serviu para movimentar o cenário drag no Brasil, principalmente, ligado ao mundo da música. Pabllo, que ganhou notoriedade na internet em 2015 com Open bar, versão de Lean on, de MØ, agora vê suas músicas autorais no topo das paradas, como Todo dia, K.O., Sua cara e Decote. “Não digo que Pabllo abriu portas, ela escancarou para todas nós. É bacana que a gente se una por uma bandeira, uma arte. Ela está influenciando, sim, para ter mais abertura. Ela veio para revolucionar o mercado mundial e é hoje a maior drag da história”, analisa Aretuza Lovi, drag brasiliense que também faz parte do cenário musical.

Cenário musical

Aretuza começou sua carreira em Brasília, onde trabalhava como hostess e apresentadora em uma casa noturna da cidade. “Com o tempo, eu percebi que o personagem tinha caído no gosto. Arezuta assumiu outras formas, que eram mais caricatas, que não eram tão femininas, era uma coisa muito humorística e, com o passar do tempo, vi que precisava inovar”, lembra. Assim, Aretuza lançou em 2013 a faixa Striptease. O clipe gravado em Brasília conquistou mais de 12 mil visualizações e fez com que a drag brasiliense fosse notada por Marília Gabriela, que a convidou para participar do programa Gabi quase proibida, do SBT.

Desde então, Aretuza Lovi apareceu em outras atrações televisivas, como Amor & sexo, da Rede Globo — que também deu espaço para Pabllo Vittar, que foi do elenco fixo por duas temporadas — e gravou dois álbuns, o disco Popstar e o EP Nudes. “Mesmo que nenhuma música (desses materiais) tenha estourado no Brasil afora, foram álbuns que me ensinaram a produzir, compor, receber críticas e elogios”, explica Aretuza. No ano passado, Aretuza viu surgir o primeiro hit, a faixa Catuaba, gravada com outra drag, Gloria Groove. A canção tem mais de cinco milhões de visualizações no YouTube. Devido ao sucesso da faixa e o bom momento para as drags, Aretuza está em fase de gravação de um novo material, Mercadinho, um disco com 12 faixas autorais, que conta com produtores envolvidos com nomes como IZA e Ludmilla, e mostrará várias facetas de Aretuza.
 


Dificuldades

No mercado musical há quatro anos, Arezuta lembra que o começo foi difícil e teve que enfrentar muitas barreiras daqueles que desacreditavam no trabalho. “A gente ainda passa por dificuldades sendo drag e sendo artista no meio gay. Mas hoje não deixo as dificuldades me abalarem, levo como aprendizado e foco no que está dando certo”, afirma. Sobre o atual momento, Aretuza decreta: “É muito legal ver que a galera abriu os olhos para o mundo drag, não como um comércio, mas por acreditar no potencial. Estamos aqui para mostrar que ser drag é muito mais do se vestir de mulher, é uma arte que deve ser respeitada.”
Outra artista que tem recebido bastante atenção no meio é a drag Gloria Groove. O maior hit da artista é a faixa Império, que, em 10 meses, conquistou mais de quatro milhões de visualizações no YouTube. A chegada de Gloria ao meio drag aconteceu em 2014. “Trabalho com música desde sempre, com 7 anos eu já cantava por influência da minha mãe ,que é cantora. O que eu não esperava era o fator drag”, admite.

A decisão por se lançar como drag veio motivada pelo sucesso do reality show RuPaul’s drag race e a experiência no teatro musical na adolescência. “Eu não conhecia a ferramenta que ia me fazer sentir assim, eu não conhecia a possibilidade de fazer drag. Montada eu me sinto confiante, feliz e sem medo de ser eu mesma. Foi assim que começou meu trabalho como drag”, lembra Gloria Groove.

Assim como Aretuza Lovi e Pabllo Vittar, Gloria participou do programa Amor & sexo e viu suas músicas do EP O proceder (2017) se tornarem sucesso na internet. Apesar do bom momento para as drags, Gloria admite que, durante muito tempo, teve medo. “A insegurança de que fosse um momento, algo efêmero, que passaria. Mas estou abandonando esse medo, esse pensamento, porque estamos num ritmo de trabalho de qualidade, muito benfeito, e temos mídias e ferramentas ao nosso favor para divulgar nosso trabalho melhor”, analisa. Atualmente, Gloria está trabalhando em um novo material, o primeiro com uma gravadora, que terá participação de convidados especiais.

A paulista Lia Clark é outro nome de destaque do cenário brasileiro. A artista se montou pela primeira vez em 2014 com inspiração em uma ex-participante do Big brother Brasil. No ano passado, decidiu começar a investir na carreira musical com o lançamento do single Trava trava, que faz parte do álbum Clark boom. Neste ano, garantiu o primeiro grande hit da carreira, a faixa Chifrudo, gravada em parceria com Mulher Pepita, o vídeo da canção tem mais de seis milhões de visualizações no YouTube. O mais novo clipe, Boquetáxi, foi lançado em Brasília em 25 de agosto, em evento na Victoria Haus. 
  
Polêmica no YouTube
 
Nesta semana, Pabllo Vittar foi vítima de hackers em seu canal no YouTube. O canal foi invadido, o clipe de K.O. retirado do ar e a foto do perfil substituída por uma imagem do deputado federal Jair Bolsonaro. Na tarde do mesmo dia, a drag conseguiu recuperar o canal.

Acompanhe as drags em Brasília

Confira a agenda das drags que estarão em setembro no DF

  • Pabllo Vittar
A dona do hit Todo dia fará apresentação dupla na cidade. Em 7 de setembro comanda a primeira micarê gay de Brasília, o #Blocodafarra, ao lado da cantora de axé Carla Cristina. No dia seguinte, faz show à noite na boate Victoria Haus.

  • Gloria Groove
A drag estará em 18 de setembro na cidade para participar de um show da Semana da Diversidade LGBTI, Teatro Paulo Autran, em Taguatinga.
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