Para celebrar 80 anos, Roberto Menescal se apresenta no CCBB até domingo

Marcos Valle, Cris Delano, Cely Curado, Márcia Tauil, Ivan Lins e Leila Pinheiro são alguns dos convidados

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postado em 07/09/2017 07:30

Quinho Mibach/Divulgação


O barco que conduzia Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli e outros tripulantes num passeio de mar entre as cidades de Cabo Frio e Arraial do Cabo, no litoral fluminense, ficou à deriva no Oceano Atlântico. Mesmo diante do susto, inspirado no ruído de seguidas tentativas para religar o motor, que não pegava, Menescal se pôs a dedilhar o inseparável violão e criou uma melodia.

Um reboque conseguiu levar a embarcação até a costa, enquanto a tripulação cantava: “O barquinho vai/ A tardinha cai...”. No dia seguinte, Menescal e Bôscoli se reencontraram e, ao recordar do fato, acabaram criando O barquinho, que viria a se tornar um clássico da bossa nova. O compositor e violonista capixaba, um dos ícones do sexagenário movimento, será reverenciado com o projeto Dia de luz, festa de sol. A série de shows, que estreia em Brasília, celebra também os 80 anos desse gigante da música popular brasileira.

Dia de luz, festa de sol ocupa o teatro do Centro Cultural Banco do Brasil, neste fim de semana, e Menescal recebe colegas de ofício para a comemoração. Hoje, tem como convidados, o companheiro bossanovista Marcos Valle e Fernanda Takai, vocalista da banda de rock mineira Pato Fu. Na sequência da programação, se juntam a ele no palco Marcos Valle (novamente) e Cris Delano (amanhã); Cely Curado, Márcia Tauil, Nathália Lima e Sandra Duailibe (sábado); Ivan Lins e Leila Pinheiro (domingo). Todos os show têm início às 20h.



Dia de luz, festa de sol
Roberto Menescal convida Marcos Valle e Fernanda Takai, hoje; Marcos Valle e Cris Delano, amanhã; Cely Curado, Márcia Tauil, Nathália Lima e Sandra Duailibe, sábado; Ivan Lins e Leila Pinheiro, domingo. Todos os shows têm início às 20h. No teatro do Centro Cultural Banco do Brasil (Setor de Clubes Sul). Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia). Não recomendado para menores de 12 anos. Informações: 3108-7600.




Entrevista Roberto Menescal

Menescal, foi em Vitória, sua terra natal, onde você iniciou a relação com a música? 
Comecei com a música aos 12 anos no Rio de Janeiro. Mas foi numa das férias em Vitória que me encontrei com o violão, uma paixão à primeira vista.


Com que idade iniciou a carreira musical? 
Eu me tornei profissional da música quando recebi um convite da cantora Silvinha Telles para que eu fizesse um tour com ela da Amazônia até o Rio, com um show de violão e voz. Eu tinha 19 anos. Corajosa, ela! (risos)


Que lembranças guarda dos primórdios da bossa nova?
Ihhhh! Faz tanto tempo! Foi uma chegada muito natural, pois éramos todos jovens. Começamos a criar nossas próprias músicas voltadas para jovens. Havia na época o samba-canção, que adorávamos, mas não era bacana aqueles meninos que já usavam bermudas, cantando “ninguém me ama, ninguém me quer”.


Era um estilo musical originário da classe média, moradora da Zona Sul do Rio de Janeiro? 
Basicamente, porque adorávamos jazz e nos reuníamos para ouvir todos aqueles ídolos intocáveis, nos apartamentos das garotas da Zona Sul. A partir dali fomos construindo as raízes da bossa nova, que veio da mistura do samba e do jazz, ouvido nos musicais do cinema.


O apartamento de Nara Leão, na Avenida Atlântica, em Copacabana, dever ser mesmo tomado como berço do movimento, ou ele teve origem também em outros locais?
Claro que a coisa nasceu muito no apartamento de Nara, pois os pais dela abriam as portas para nosso pequeno grupo à qualquer hora do dia e da noite. Mas outros lugares começaram a nos receber, mas tudo começou no apartamento da Nara, uma espécie de clube.


Atribui-se a Tom Jobim, Vinicius de Moraes e João Gilberto a paternidade da bossa nova? Concorda com isso, ou discorda? 
Na minha opinião, os três formam o tripé da bossa nova. Paralelamente ao crescimento deles, fazíamos nossas experiências. Eu, Carlos Lyra, Durval Ferreira, João Donato, Ronaldo Bôscoli e outros mais.


Que relação tinha com Tom, Vinicius e João?
Conheci João antes de existir o nome de bossa nova, e fui muito influenciado por ele com seu suíngue e harmonias. Com Jobim foi um pouco diferente, pois passei um ano tentando conhecê-lo, indo aos lugares onde era anunciado sua presença. Mas ficava nervoso, tomava um porre de cuba-libre e era levado para casa antes da chegada dele. Para minha surpresa, o Tom bateu na porta de minha escola, no apartamento de quarto e sala que eu e Lyra alugávamos para dar aulas, e me convidou para gravar com ele, parte da trilha do filme Orfeu do carnaval. Foi a gloria total. Aí decidi largar meus estudos e virar músico.


Os bares do Beco das Garrafas, em Copacabana, fazem parte da história. Eles, realmente, foram importantes para os bossanovistas?
Da maior importância, principalmente para a bossa instrumental.A história que deu origem ao sucesso O barquinho, um dos clássicos da bossa, é verdade ou lenda? Poderia relembrá-la?
É história mesmo. O que seria uma brincadeira imitando a tentativa de fazer ligar o motor do barco, à deriva, pegar, acabou virando a música de maior sucesso, composta por mim e Bôscoli.


Ronaldo Bôscoli foi seu grande parceiro. Que recordações guarda dele?
Bôscoli, sem dúvidas, foi meu parceiro mais constante. Mesmo sendo completamente diferentes um do outro, conseguíamos criar coisas totalmente inesperadas musicalmente.


Além de João Gilberto, que outros intérpretes destaca naquele período? 
Johnny Alf, Lúcio Alves, Dick Farney, Nara Leão, Sylvia Telles, Alaíde Costa, Claudete Soares, Tamba Trio, Os Cariocas e muitos outros.


Hoje, a bossa nova é mais cultuada nos Estados Unidos, Europa e Japão. São continentes onde você costuma se apresentar? 
Só no Japão fui cerca de 30 vezes. Estamos sempre viajando para o exterior. Acontece que as pessoas, aqui no Brasil, não têm conhecimento de como nossa música é cultuada lá fora. Outro dia, alguém me perguntou: “E o Ivan Lins, tão bom e completamente parado, né?” Se soubessem da importância do Ivan, ficariam muito espantados. É um dos artistas brasileiros mais bem-sucedidos no exterior!


Há dois anos houve a retomada do Beco das Garrafas. Por que não existem outros locais em que a bossa possa ser ouvida no Rio?
Em Buenos Aires há dezenas de casas de tango. Nos Estados Unidos proliferam clubes de jazz. E no Rio?


Em Brasília existe o Clube da Bossa, palco em que você já se apresentou. Como o avalia?
Acho muito legal esse trabalho feito por esses apaixonados pela bossa nova na capital. Se em cada estado acontecesse isso!!!


Bye bye Brasil é sua única parceria com Chico Buarque. Como foi esse encontro artístico?
Foi uma encomenda do cineasta Cacá Diegues para que fizéssemos o tema do seu filme Bye Bye Brasil. Ele nos disse que tinha que ser nós. Partimos para o trabalho e, o que foi bom, acertamos a mão. É nossa única parceria.


Como foi sua experiência como diretor artístico de gravadora e como tem sido manter o selo Albatroz?
Passei 15 anos como diretor artístico da Polygram, hoje Universal. Isso me deu uma abertura musical e artística fantástica. Se isso não tivesse acontecido, essa minha passagem por lá, talvez hoje eu fosse apenas um bossanovista, radical, o que não seria bom. Quando saí de lá, fundei um selo, o Albatroz, onde continuei fazendo coisas de que gostava e acreditava. Com algumas obras conseguimos sucesso, como a série Aquarelas brasileiras, com interpretação de Emílio Santiago, que vendeu 6 milhões de discos em sete lançamentos. Hoje só utilizamos a Albatroz como uma produtora de discos para o Brasil e, principalmente, o exterior.


Chegar à plena maturidade em constante atividade artística te traz que tipo de satisfação?
Continuar  realizando o que fazia há 60 anos. O que acreditei naquela época, me dá certeza de que tomei o rumo certo.


Ser homenageado com o projeto Dia de luz, festa de sol, que celebra seus 80 anos, representa o que?
É o resultado desses 60 anos de trabalho como músico, compositor, produtor e arranjador. Tá bom, né? (risos).
 
 
 
 
 
 
 



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