Nuno Ramos transforma edição do Jornal Nacional em trabalho artístico

Em obra criada para a internet o artista se apropria do programa e coloca canção na boca dos apresentadores

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postado em 09/09/2017 07:34

Eduardo Ortega/Divulgação

 
Foram necessárias pouquíssimas ferramentas para que Nuno Ramos conseguisse transformar uma edição histórica do Jornal nacional em seu primeiro trabalho criado para a internet. No ar no site www.aarea.co há nove dias, a obra Lígia combina imagens da edição que anunciou o impeachment de Dilma Rousseff e o vazamento dos áudios de Lula e da ex-presidente com a melodia de Lígia, música de Tom Jobim gravada nos anos 1970.

Ao se apropriar do programa, Nuno coloca a letra da canção na boca dos apresentadores William Bonner e Renata Vasconcelos graças a recursos simples, mas meticulosos, de edição. Ele identificou as sílabas durante as falas dos apresentadores e afinou com a voz de João Gilberto. “Tudo na edição, sem nenhum recurso técnico”, avisa o artista.

O resultado é algo um tanto patético e grotesco, meio robótico e descolado da realidade, uma combinação que resulta da vontade do artista de pensar sobre o Brasil a partir do presente e do passado. “Acho que vi a Bossa Nova como espécie de outro tempo, aquilo que a gente perdeu. E achei interessante. Não quis fazer um protesto, nem uma denúncia, nem uma coisa a favor da Dilma. Não era um meme de internet”, diz.
 

O artista garante que não teve a intenção de fazer uma obra partidária, mas admite uma postura política que consiste em pensar os rumos do país. Para isso, deu uma dimensão simbólica à canção da Bossa Nova. O impeachment, para Ramos, foi um momento muito violento da história do país, acompanhado de uma sensação de anúncio de tempos negros. Já Lígia representa um período no qual era possível olhar para o Brasil com alguma esperança.

“O impeachment é um momento auspicioso, foi uma coisa muito violenta que foi normalizada. Um buraco, um momento de virada para pior. A bossa nova foi um momento em que o país estava indagando o futuro. Embora Lígia seja uma canção tardia, ela arrasta ainda o espírito do Tom Jobim, essa coisa pra frente, melancólica, mas ao mesmo tempo doce. Acho que alguma coisa virou e o pior do país apareceu”, lamenta Ramos.

Lígia é o primeiro trabalho do artista criado diretamente para a internet. Nuno Ramos não é muito ligado ao universo dos relacionamentos pelas redes. Não tem contas nas redes sociais, mas lida bem com outras ferramentas como e-mail e sites. Pensar o trabalho como algo possível de ser realizado apenas na rede traz questões novas para Ramos.

“É curioso porque você fica muito exposto e há algumas respostas boas, outras não”, avalia. “O lugar público é um lugar impuro, você não se identifica inteiramente com aquilo que você causa. Imagino que alguém que trabalha com música tenha isso o tempo todo. Para mim, é meio inédito e causa um certo desconforto.”

Posicionamento político

Se a rede é inédita na trajetória do artista, a postura política é bem conhecida. A obra de Ramos costuma carregar uma reflexão sobre a conjuntura, mesmo que isso não seja explícito nem oferecido imediatamente ao espectador. Aconteceu com Bandeira branca, instalação concebida para a 29ª Bienal de São Paulo em 2010. No trabalho, três urubus eram mantidos em cativeiro na área central do prédio do Parque Ibirapuera enquanto se ouviam as músicas Bandeira branca, Carcará e Boi da cara preta. A obra gerou polêmica, internautas criticaram o uso de animais, e Ramos conseguiu provocar uma discussão sobre a relação entre arte e política, um dos objetivos da instalação.

No ano passado, o artista abordou novamente essa relação com um ato para protestar contra a anulação do julgamento dos policiais militares que participaram da chacina do Carandiru. Em um apartamento em São Paulo, ele reuniu 24 convidados, entre eles Paulo Miklos, Bárbara Paz, Zé Celso Martinez Correa e Laerte, para ler e transmitir on-line os 111 nomes dos presos assassinados. O mesmo massacre gerou uma obra apresentada em galeria há 24 anos, uma instalação na qual cada pedra disposta no chão do espaço representava um morto.

“Toda obra tem algum horizonte político, nem que seja o da fuga, o de bater. Mesmo sem relação direta. Mas acho que algumas coisas que fiz são mais chamadas pelo agora. Lígia é uma delas. Mas algumas coisas parecem carregar um sentido mais imediato, como a leitura dos 111 nomes. Lígia é um trabalho que fiz com pouco tempo, com poucos recursos, mas acho que tem uma coisa mais explícita com o momento que estamos vivendo”, diz o artista.

Além de Lígia, Nuno Ramos está em cartaz na Galeria Anita Schwartz, no Rio de Janeiro, com a exposição Grito e paisagem, na qual retorna às pinturas matéricas que o destacaram como um dos talentos do grupo de pintores da Geração 80. Além disso, o artista, que também é escritor, acaba de lançar o livro Adeus, cavalo, cuja definição não se encaixa nem em romance, nem em contos, nem em poesia. Está mais para teatral o novo livro, cuja escrita se inscreve num espaço pontuado por gestos impelidos a um ator, pensamentos soltos e possíveis falas.


Entrevista / Nuno Ramos

Por que juntar a canção e o Jornal nacional?
Acho que eu queria um pouco uma melancolia grande que vem dessa fusão de dois tempos. Tem o agora de uma espécie de voz múltipla que a Globo tem, que está em toda parte, cantando uma canção lírica onde alguém vai narrando a cidade: havia um lugar de onde olhar (o país) que a gente perdeu e que a imprensa também perdeu. Acho que a imprensa é parte constitutiva dessa crise, ela precisa aprender a se pensar também. Então fiz isso. É uma espécie de Jornal nacional alternativo, como se pudéssemos substituir um pelo outro.


É uma crítica, mas é uma ironia também, né?
A gente não é dono do que faz. Acho que é uma crítica sim, acho que a imprensa está em questão, não no sentido de alguém dizer a ela qual o lugar dela, mas de ter que lidar com manifestações da sociedade civil que a ponham em questão. Não tenho atração nenhuma por regulação de mídia, acho perigoso, leva a um lugar pior, mas de toda forma acho que a imprensa tem que se pensar. E queria contribuir com isso. Você vai ver que tem uma coisa meio cômica, robótica, que acho que vem dessa fusão de dois tempos muito díspares onde o que parece natural na verdade não é.


Como assim?
A gente está vivendo uma situação perigosa. Não há nada em perspectiva. Qual é a voz que está abrindo um veio para nós? Não tem. Isso me parece um negócio duro e eu queria captar um pouco isso com poucos recursos. Gosto muito daquela frase do Caetano que diz que o Brasil precisa merecer a Bossa Nova. A gente, definitivamente, não mereceu e ainda perdeu um pouco. Acho que Bossa Nova ainda oferece esse contraste. Especialmente na obra do Tom, que é um disparate de grandeza estética.


Não tem uma postura partidária, mas tem uma postura política, né?
Acho que não tem uma coisa partidária, mas é difícil não pensar essa obra como uma obra, em algum nível, política. Ela está tentando atuar e, de alguma maneira, é um tijolinho que pensei.



Arte contemporânea
O www.aarea.co foi criado em fevereiro pelas curadoras e pesquisadoras Lívia Benedetti e Marcela Vieira como um espaço dedicado à arte contemporânea brasileira. “A gente sentia falta de algum lugar para mostrar arte sem uma grande estrutura”, explica Lívia. “O trabalho na internet pode ser alcançado por muitas pessoas que talvez não fossem a uma galeria. E esse trabalho do Nuno se alastrou muito.” As curadoras costumam convidar artistas cujo trabalho não tenha necessariamente uma intimidade com a internet. “A gente gosta de ver as obras deles se desdobrarem para essa mídia”, conta Lívia. As obras costumam ficar em cartaz por três semanas e Nuno Ramos é o sexto artista convidado do site. A obra Lígia pode ser vista diariamente, a partir das 20h30
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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