Belchior propõe um alargamento de fronteiras da identidade em suas canções

Para Belchior, repudiando todo tipo de clichê, o que interessava eram as raízes humanas

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 Berbel Multimídia /Cortesia de Sérgio Zurawski

 
O personagem do “rapaz latino-americano e vindo do interior”, instituído na célebre canção do disco Alucinação, é, sem nenhuma dúvida, o mais marcante criado por Belchior em sua obra verbomusical. Mas de que maneira o artista cearense relacionou-se com os temas da proveniência do interior, da latinidade e da americanidade?

Pensando inicialmente na relação entre Belchior e a sua origem nordestina, vejamos o que diz o texto da jornalista Ana Maria Bahiana, publicado em 1980: “1976, ano dos cearenses? Eles não gostam de ‘determinismo geográfico’. Primeiro foi Pavão misterioso, de Ednardo, depois o ‘Rapaz latino-americano’, de Belchior. De mansinho, subterrâneo, Fagner chegou só em novembro”. O comentário da jornalista, além de expressar de modo emblemático a “invasão” dos três cantores cearenses no mercado da música nacional, chama a atenção para o fato de que os artistas não assumem o estereótipo geográfico como central em suas produções. No caso específico de Belchior, desde o início da carreira até mais recentemente, o compositor recusou o estereótipo de nordestino.

Nordestino 

Em 1973, por exemplo, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo ,de 14 de setembro, o artista asseverou: “Eu não sou representante do Nordeste, do Ceará, de coisa nenhuma. Se o Nordeste aparece na minha obra, é como raiz, matéria-prima, em termos afetivos (me afetou)”. E segundo afirmou nos anos 2000, em texto publicado em seu site (Release de Belchior: “A palavra cantada chega até nós”), Belchior assegurou que não era “cantador do Nordeste”, nem carregava “nenhuma figura muito determinada”. A respeito de ter declarado sobre o disco Alucinação que esse era o trabalho “de um nordestino na cidade grande”, Belchior esclareceu à época que se referia a “um nordeste verdadeiro, não um nordeste mítico, dos livros, que o eixo cultural Rio-São Paulo inventou para consumo próprio, para explorar cada vez mais as pessoas” (em entrevista ao jornalista Tárik de Souza no Jornal do Brasil, em 8 de agosto de 1976).

Essa negação do Nordeste estereotipado chegou às últimas consequências na canção Conheço o meu lugar, na qual o personagem defende e argumenta: “Nordeste é uma ficção! Nordeste nunca houve! / Não! Eu não sou do lugar dos esquecidos! / Não sou da nação dos condenados! / Não sou do sertão dos ofendidos!”.

Raízes humanas

Para Belchior, repudiando todo tipo de clichê, o que interessava eram as raízes humanas, “infinitamente mais importantes do que as folclóricas, regionais, tipicamente culturais”, segundo precisou o artista em entrevista à jornalista Silvia Wolfenson, em agosto de 1977 no Jornal de Música do Rio de Janeiro. Ele disse categoricamente que se o público ouvinte observasse bem,  encontraria em sua música as raízes humanas, muito mais do que as “culturais, folclóricas, regionais, nordestinas”.
 
Ecoando as palavras de Augusto de Campos em Balanço da Bossa (no texto Viva a Bahia-ia-ia, de 1974), que indagou “Desde quando a arte tem carteira de identidade? Qual a nacionalidade de Stravinski: russo, francês, americano ou simplesmente humano?”, o compositor Belchior então arrematou: “Eu não preciso afetar nenhuma nordestinidade, nenhuma brasilidade, nenhuma cearensidade porque isso já é natural em mim”.

Passemos agora a outro tipo de relação geográfica desenvolvida na identidade musical de Belchior. Apesar de defender um contexto não folclórico, associado ao autor ao não provincianismo, Belchior surgiu na música com toda a carga identitária de um sujeito jovem e latino-americano, investindo fortemente nesse jeito de ser e condição, mais especificamente com a canção-identidade “Apenas um rapaz latino-americano”, que funda essa imagem desde o seu primeiro verso. Sobre a música, Belchior avaliou em entrevista de 1983:

Esquina do mundo

“O fundamental dessa música, do “rapaz latino-americano” é justamente essa frase: “Eu sou apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior”. Essa afirmação enfática de ser um latino-americano. Portanto, uma pessoa na esquina do mundo, uma pessoa do Terceiro Mundo, uma pessoa na expectativa, uma pessoa dependente economicamente do restante do mundo, mas com uma capacidade enorme de desdobramento vital, de resistência, de rebeldia do espírito, de novidade, de transformação, de poder novo.
 

Então, assumir o fato de sermos latino-americanos, sendo brasileiros, sendo cearenses, sendo de Sobral, é justamente você participar da fraternidade latino-americana e isso diz muito de perto respeito àquilo que eu falo em muitas outras músicas, esse sentido de desinsular a cultura, de fazer com que a cultura seja penetrante, troque energias com todos os espaços. O Brasil é um país que está isolado culturalmente da grande tradição irmã latino-americana. Então, essa música, que dá continuidade a outras músicas de outros autores como Milton Nascimento, Rui Guerra, que já haviam levantado de alguma forma esse problema da latinidade e já era uma constante na literatura e a na poesia, sobretudo. Essa música dá continuidade àquela tradição inicial naquele momento.

Claro que ela também é uma música irônica, satírica e de humor branco, negro, amarelo e vermelho sobre a situação das pessoas em Latina América”. (Entrevista a Ricardo Guilherme, na Rádio Universitária FM em 06 de março de 1983, com transcrição de minha responsabilidade).

Ao mesmo tempo em que a constituição da identidade de Belchior está impregnada pela imagem do latino-americano (como resume A palo seco no verso: “Tenho vinte e cinco anos / De sonho e de sangue / E de América do Sul”), esse investimento implica, como consequência, a adesão de suas propostas e identificação com suas ideias pelos falantes e ouvintes sujeitos membros da América Latina.

"Então, assumir o fato de sermos latino-americanos, sendo brasileiros, sendo cearenses, sendo de Sobral, é justamente você participar da fraternidade latino-americana e isso diz muito de perto respeito àquilo que eu falo em muitas outras músicas"
Belchior, compositor
 
A voz da América 
 
A música de Belchior que resume todo o desejo do compositor, por meio do personagem de sua canção, com relação à recepção de sua obra pelo auditório da América Latina é certamente Voz da América, de 1979, cuja letra diz: “Tentar o canto exato e novo / (que a vida que nos deram nos ensina) / pra ser cantado pelo povo / na América Latina. / Eu quero que a minha voz / saia no rádio e no alto-falante; / que Ignes possa me ouvir”.

Constata-se, então, que na imagem midiática construída do (e pelo) cancionista cearense, aparecem inegavelmente e com muita frequência essas duas características identitárias: a primeira associada à origem natal e a segunda relacionada ao investimento na posição do sujeito “rapaz latino-americano”. As duas foram fortemente questionadas por Belchior. E foram manifestadamente ampliadas pelo cantor na declaração seguinte, aparentemente filiada ao ideário tropicalista: “Gosto de fazer uma música híbrida, que mistura elementos de brasilidade com o que acontece no mundo”. A afirmação de Belchior revela especialmente que a americanidade de sua música ultrapassa inclusive a fronteira latina, chegando a outras Américas.

Múltiplas filiações

Complementando a avaliação do artista sobre a sua própria obra, validada pela análise das canções do sobralense, o que se verifica de fato é que o cancioneiro de Belchior tem múltiplas filiações, ou seja, institui desde os valores interioranos, passando pelas questões latino-americanas e chegando ao mundo além-fronteiras brasileiras e latinas. Essas três inscrições dialogam a todo momento na produção musical de Belchior, que por isso pode ser considerado como muito mais do que apenas um rapaz vindo do interior, latino e americano. (JTC)

Josely Teixeira Carlos é professora de linguística, pesquisadora da USP, com teses de mestrado e doutorado sobre Belchior.

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