João Bosco volta às inéditas depois de oito anos

João Bosco lança CD introspectivo para se contrapor ao caos de sons e de informações

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postado em 24/10/2017 06:30

Flora Pimentel/Divulgação

 
João Bosco poderia ser óbvio ao se ater à expressão Mano que zuera, título do seu novo álbum de canções inéditas, o primeiro depois de Não vou pro céu, mas já vivo no chão, lançado há oito anos. Razões para isso, nos tempos de hoje, ele teria de sobra. Mas o cantor e compositor mineiro optou pelo eufemismo, ao propor "silêncio para a reflexão".

Ele vai além em suas considerações: "As coisas andam muito tagareladas, há muito barulho que leva ao caos. Mas, prefiro achar que, implicitamente, o momento é próprio para a introspecção. Foi o que busquei com esse novo trabalho. Desde a idealização, o Mano que zuera me trouxe muito prazer, pois é resultado de algo feito sem pressa, com cuidado, a partir de uma linha de pensamento".

O artista vê o CD, o 26º de sua discografia — incluindo os gravados ao vivo — , tão ousado quanto Cabeça de nego, de 1986. "Eu e o Chico (o filho Francisco Bosco) tivemos muito tempo para elaborá-lo. Os textos dele, um pensador e filósofo, em plena maturidade, me provocam uma sensação boa, me sensibilizam e me instigam. Nos encontros em casa fomos construindo o repertório, atentos a todos os detalhes, inclusive os externos", conta.

A parceria entre João e Francisco Bosco, iniciada há 14 anos no CD Malabaristas do sinal vermelho, prevalece nesse CD, está presente em cinco das 11 faixas, com destaque para a que dá título ao CD, Onde estiver — inspirada no estilo Bob Dylan de contar histórias — , lançada como single; e Nenhum futuro, um irretocável retrato do Brasil de hoje. Um dos versos da letra diz: "Teu espelho olha de novo agora pra mim/ Eu suspeito que estamos fodidos enfim."

Obra vitoriosa

Quem está de volta é o Aldir Blanc, o eterno parceiro de João Bosco. Em Mano que zuera, ele assina o texto de Duro na queda, sério candidato a clássico. "Este samba foi uma espécie de ponto de partida do disco. Conheço Aldir desde 1970, Juntos fizemos muitas músicas. Temos uma obra vitoriosa, de mais de 40 músicas, mas manter a parceria é complicado, pois não queremos nos repetir. Duro na queda tem três partes. Começa com algo que remete a João Valentão, de Dorival Caymmy; e vai a Chega de saudade (Tom Jobim e Vinicius de Mores). São mestres que tenho como referências”, ressalta.

Sobre Arnaldo Antunes, novo parceiro e coautor de Ultra-leve (que tem participação especial de Julia Bosco), João fala do que os aproximou: "Nos conhecemos nos bastidores de programas de televisão e vínhamos esboçando fazer algo. No ano passado, fiz uma melodia inspirada no verão. Conversamos sobre isso, e ele me mandou uma letra em que fala do Rio de Janeiro como um todo e não apenas da Zona Sul, fugindo do ‘cidade partida’, a que se referiu, certa vez, Zuenir Ventura”.

Outra estreia em projetos de João é a do baiano Roque Ferreira. “Ele chegou ao disco pelas mãos de Maria Bethânia. Durante a turnê do Prêmio da Música Brasileira, em 2015, que passou por Brasília, ela me mostrou uma composição do Roque e sugeriu que eu fizesse uma parceria com ele. Fiz o contato e recebi a letra de Pé de vento, que, no final, cita Oyá, coincidentemente, o orixá de Bethânia”, relata.

Uma das grandes admirações do compositor é o saudoso multi-instrumentista e compositor Moacir Santos, cujo a obra conhece desde 1967, quando ouviu o LP Coisas e se apaixonou por Nanã, o tema de abertura. “Tempos depois, estava em Los Angeles, onde morava, e fui visitá-lo. Conversamos bastante e nos tornamos próximos. Quando gravava Badalhismo, ele estava no Rio e foi ao meu encontro no estúdio”, lembra. “Agora, quis homenageá-lo e incluí Coisa nº 2 no repertório”. Outras regravações são as de Sinhá (parceria com Chico Buarque) e João do Pulo, que fez com Aldir para Cabeça de Nego.

Mesmo evitando relacionar Mano que zuera ao momento vivido pelo país, o autor (com Aldir Blanc) de O bêbado e a equilibrista, imortalizada por Elis Regina e tido como o hino da Anistia, não foge do assunto. “Depois de tanta luta pela redemocratização do país, após o regime ditatorial, voltamos a conviver com o retrocesso, com o conservadorismo e a censura. Desde a eleição de 2014, o Brasil vive sob uma polarização exacerbada, o que dificulta o convívio entre pessoas que pensam de forma diferente. Espero que seja algo passageiro”.
 
 

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