Marina Colasanti completa 80 anos e acumula livros e prêmios

Autora de mais de 70 livros, Marina Colasanti completa 80 anos com duas obras, uma indicação para um prêmio internacional importante e dois volumes na gaveta

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postado em 05/11/2017 07:30

Marina Colasanti comemorou os 80 anos com um grande jantar oferecido para familiares e amigos, em 26 de setembro, mas não encerrou as celebrações no dia do aniversário. Na verdade, desde o início do ano, a escritora comemora a data redonda. Em 2017, ela lançou dois livros — Quando a primavera chegar, coletânea de contos com ilustrações próprias, e Tudo tem princípio e fim, com poesias para crianças — e foi agraciada com o XIII Prêmio Ibero-Americano SM de Literatura Infantil e Juvenil. No início do ano, Marina recebeu a notícia de que está na lista de 33 autores do mundo inteiro indicados para receber o Prêmio Hans Christian Andersen. Organizada pela International Board on Books for Young People (IBBY), a premiação é a mais importante na cena internacional da literatura infanto-juvenil e será entregue ao vencedor em março de 2018.

Para 2018, aliás, Marina tem muitos planos. Um livro de poesias para adultos e outro para crianças, com ilustrações do artista Rubem Grilo, estão perto de ir para o prelo. Fazer 80 anos, lembra a autora, não é algo que acontece de repente. “A gente vai avançando na vida e, de repente, chega a um ponto que, por convenções e por questões físicas, é um marco, mas o pensamento vem amadurecendo ao longo do caminho”, explica. 

A autora acredita que se fala pouco na morte e no envelhecimento nos dias de hoje, principalmente quando se trata de jovens e crianças. Há mais celebração da vida em forma de festa do que dos aspectos finitos que ela compreende. E isso pode ser um problema. “Essa vida em que tudo tem que ser realizado, em que estão o tempo inteiro dizendo que você tem que realizar seus sonhos, essa vida afastou os jovens, e sobretudo as crianças e adolescentes, da realidade inalterável que é a morte, o adoecimento, o problema, o impedimento, a guerra”, diz. “A compreensão e aceitação do sofrimento não é a negação. A aceitação é a vida. Porque faz parte.”

Marina teve conhecimento da morte e do sofrimento muito cedo. Filha de italianos nascida na Eriteia, morou em Trípoli (Líbia) quando criança e passou parte da infância na Itália, num momento de pós-guerra em que havia escassez de quase tudo. Quando veio para o Brasil, em 1948, aos 11 anos, se espantou com algumas coisas, como a abundância de comida e seu desperdício. Foi como jornalista, nos anos 1960, que deu os primeiros passos como escritora.

Das crônicas e contos publicados no Jornal do Brasil e na revista Nova às histórias infanto-juvenis e de poesia, a literatura se instalou e rendeu mais de 70 livros. Marina já ganhou prêmios como o Jabuti (seis, no total), o Portugal Telecom (hoje Oceanos), o Origenes Lessa (três) e outros que fazem parte de uma lista de 44 premiações. Aos 80 anos, casada com o também escritor Affonso Romano de Sant’Anna, a autora não mede palavras para falar da qualidade da produção literária para jovens no Brasil. Abaixo, ela analisa as modas literárias, fala sobre o exercício profissional da escrita, a importância de saber observar e critica a maneira festiva como as crianças e adolescentes são educados nos dias de hoje.


LC Agência de Comunicação/Divulgação


Entrevista/ Marina Colasanti

Escrever poesia para criança é diferente de escrever para adulto?
É. Quando trabalho poesia para criança, gosto de introduzir rimas com mais frequência, gosto de uma batida mais sincopada, porque acho que isso ajuda na memorização, e memorizar é útil, é um exercício cerebral. Quando faço um livro de poesia para criança, alterno poemas, digamos, verticais com poemas mais jocosos, que estejam mais visíveis no universo da criança, que participem do cotidiano. O medo do desamor, da morte, isso nasce com o ser humano. Estão sempre ali, mas são menos visíveis do que um pé de sapato sozinho, ao pé da cama, que é uma coisa que acontece com qualquer criança.


São mais de 70 livros, 44 prêmios, 20 teses escritas sobre o seu trabalho. O que te alimenta e inspira? Onde estão as boas histórias?
Eu olho. Olho muito. Presto uma atenção de bode na canoa. Presto muita atenção na vida. Minha arma de trabalho é o olhar. A palavra vem acoplada, vem depois. O meu instrumento de trabalho primeiro é o olhar: olho e comparo, olho e analiso, olho e chego perto. Gosto muito de olhar o pequeno, gosto de olhar aquilo que as pessoas não estão reparando.


Escrever para crianças e jovens é profissão, não é ocupação. Você frisa sempre que não é algo que faz porque é mãe ou avó. Temos dificuldade em compreender isso no Brasil?
Não conheço a fundo a literatura infantil de outros países, mas posso fazer uma análise da nossa produção porque volta e meia sou jurado, vou a muitas feiras e tal. A nossa produção para a infância é muito ruim. Temos autores estupendos, ilustradores belíssimos e conseguimos melhorar os padrões físicos dos nossos livros. Mas se publica muito lixo. Muito passarinho, muito gatinho. E são safras. Tivemos a safra da ecologia, muitos livros ensinosos, o ano passado foi a safra do vovô com Alzheimer. São temas que estão na moda. Certamente, teremos este ano 800 livros de bullying. São os temas na moda e que as editoras buscam, solicitam a determinados autores. Ou determinados autores se interessam por esses temas porque sabem que serão bem-aceitos. Mas o nível, o grosso da produção, é muito fraco.


É um problema da temática ou daqualidade? Por que é ruim?
Porque não tem qualidade de texto. Convencionou-se que, para falar para crianças, o coloquial é a maneira melhor e, quanto mais parecido com a fala da criança, mais ela vai gostar. O que absolutamente não é verdade. Por um lado, não tem qualidade de texto. Trabalha-se com palavras do cotidiano, usa-se muitos lugares comuns, fórmulas de escrita. E não tem conteúdo. Uma história da gata que ficou doente e vai ao veterinário e não estava doente, estava grávida — veja só, acabei de fabricar uma história —não é uma história, isso não é nada. Não tem conteúdo, não tem reflexão, não tem filosofia. Então fica um livro pobre.


Isso tem a ver com o fato de lermos pouco?
Grandemente. Lemos pouco e não temos a consciência de que não é porque a pessoa sabe grafar palavras que é escritor. A vozinha que conta histórias para os netos e que vem me dizer que publicou um livrinho —porque ela chama assim e nem isso chega a ser — não pensa, por exemplo, em subir no palco e representar Lady Macbeth, porque essa é uma profissão de atores. Escrever, no conceito de tantas pessoas e de muitos editores, não é uma função de escritor. Qualquer um pode escrever.


Você e Affonso gostam muito de arte, e ele, inclusive, escreve sobre isso. Você tem acompanhado essa situação de fechamento de exposição e censura em museus? 
Nesses fatos, tem vários elementos misturados. Um deles é que estamos em um momento de exacerbação política muito grande, por causa das eleições, por causa do descrédito da política, porque, toda vez que há um descrédito, aparecem os santos e os populistas gritando “pecado, pecado”. E temos um desconhecimento. Houve um equívoco da entidade financiadora (caso do Santander e da exposição Queermuseu) porque quem financia tem que saber se o produto que está financiando está de acordo com a imagem de seus consumidores ou não. E tem o fato em si. Hoje em dia, qualquer atitude ou qualquer nudez está valendo. Então fica difícil dizer isso não pode e isso pode, porque, a partir da pós-modernidade, liberou geral. Se a Marina Abramovic fica deitada numa mesa cheia de ferramentas cortantes e o público está autorizado, e o momento artístico é esse, a intervir no seu corpo, por que o coreógrafo de La bête (performance com homem nu no MAM/SP) não podia fazer essa intervenção no próprio corpo ligada a uma obra da Ligia Clark? Ele estava se posicionando como uma escultura móvel. Se aceitamos uma coisa, por que não aceitamos a outra?


Por quê?
São várias questões. Há um momento de acirramento quase religioso, estão aparecendo muitas perseguições a religiões afro-brasileiras, o Brasil não consegue se decidir sobre essa questão de ser um país laico. A França tem isso muito claro e estabelece isso em toda e qualquer oportunidade. No Brasil, somos laicos, mas temos crucifixos em toda parte, temos muitos feriados religiosos e não protegemos da mesma maneira todas as religiões. A tendência é proteger as mais fortes, as que têm bancada no Congresso ou que têm força por entidades internacionais, como a Igreja Católica e a protestante, que são universais. Então grupos religiosos também se arvoram a críticos da arte. E fica muito complicado.


Como argumentar com a afirmação “isso não é arte”, que tem se tornado comum para apontar trabalhos como o das exposições e obras censuradas? 
É um princípio de conversa que demonstra que a pessoa não andou lendo nadinha sobre os conceitos de arte da pós-modernidade. Falta educação artística no Brasil. Falta de todo tipo, e a artística então é considerada de uma irrelevância, de uma inutilidade enormes. Temos o Carnaval, por que precisamos de mais, não é mesmo? As pessoas não têm o menor conhecimento do que seja arte. O conceito de arte não existe. E seria fácil hoje ter educação artística ,porque os museus do mundo inteiro estão na internet, você pode mostrar aos jovens e às crianças sem ter que sair da sua escola.


A literatura infantojuvenil pode ser um veículo de educação?
Ela é um veículo de educação, mas Educação com letra maiúscula, porque é um veículo estético, uma vez que hoje temos ilustradores maravilhosos como Roger Mello, Graça Lima, artistas gráficos ilustrando para as crianças, dando para as crianças uma visão estética rica. E o conteúdo de literatura é sempre formador, porque a literatura existe não é pra distrair, encher o tempo, para isso se leem livros policiais. A literatura existe para filosofar a vida, para falar dos sentimentos, para pluralizar os sentimentos, para nos dar mais entrada naquilo que é ou pretendemos que seja a essência do ser humano. Nós não sabemos dos sentimentos dos animais, mas sempre nos arvoramos a ser os donos do sentimento. E a literatura serve para isso. Por isso ela é formadora.


Temas como o envelhecimento e a finitude da vida são importantes na literatura infantojuvenil? Por quê?
Os jovens passaram a ter uma vida, de certa forma, mais fácil, que foi vindo com a modernidade, com o passar dos séculos e dos anos. É uma vida onde o desejo está acima de tudo, tanto o desejo de objetos quanto o desejo sexual. Se a pessoa não vive dentro de uma guerra, como estamos vivendo agora na Rocinha, por exemplo, ela não traz a iminência da guerra, o perigo da guerra, a dificuldade da guerra dentro de si porque seus parentes, seus pais, seus avós, seus tios não passaram por isso e não lhe transmitem isso. Essa é uma sociedade do prazer, do entretenimento, do have fun, do divirta-se. Muita selfie, muita foto e o prazer em dose máxima.


O que perdemos com isso? 
Perdemos a compreensão do outro que está sofrendo, perdemos a vivência anterior da doença, da morte, da precariedade das coisas, perdemos a verticalidade da vida. A vida não é horizontal, a vida é vertical. Ninguém mais acompanha a morte, a morte não acontece em casa, não se vela em casa. Eu vi várias pessoas morrerem, mas isso é uma coisa da minha geração.

 
 
 
 
 
 

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