Biografia lançada nos EUA mostra novas facetas de Ernest Hemingway

Além disso, a obra questiona o perfil de ícone da masculinidade sustentado por ele durante a vida

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Ernest Hemingway sempre foi sinônimo de força. Seja pela escrita seca e dura, seja pela figura de machão e de herói de guerra ostentada pelo autor durante boa parte da vida, Hemingway parecia inabalável. Só parecia, porque uma análise mais aprofundada da trajetória do escritor, que se matou em 1961, revela que, na verdade, ele era atormentado por diversos traumas e questões mal resolvidas.

Uma nova biografia, lançada por enquanto apenas nos Estados Unidos, vai a fundo na vida de Hemingway e explora em 752 páginas passagens e facetas pouco lembradas do escritor. Ernest Hemingway: A biography, de Mary Dearborn, é o primeiro livro sobre sobre ele escrito por uma mulher (e Hemingway já foi biografado pelo menos sete vezes antes).

Dearborn enfrentou o desafio com as credenciais de ser uma exímia pesquisadora e por ter feito a biografia de  grandes nomes da literatura norte-americana, como Norman Mailer e Henry Miller. Entre redação e estudos, foram sete anos para concluir a obra.

O trabalho de Mary Dearborn se diferencia das anteriores por trazer à tona algumas questões da personalidade do escritor quase sempre deixadas de lado pelos biógrafos. As dúvidas quanto à sexualidade, por exemplo, são um tema pouco explorado.

A escritora Zelda Fitzgerald (mulher do também escritor Scott Fitzgerald, um dos amigos de Hemingway) disse, certa vez, que “ninguém poderia ser tão machão”. Segundo Dearborn, Zelda tinha razão. No fundo, Hemingway estava longe de ser o ícone da virilidade que o personagem público dava a entender.

O autor conviveu com dúvidas sobre a identidade de gênero e a sexualidade até o fim da vida. Para Dearborn, essa questão, inclusive, foi uma das responsáveis pela derrocada de Hemingway e pelo sofrimento causado pela depressão até o fim trágico da vida.

As questões sobre sexualidade envolvendo Hemingway remontam à infância do autor. No livro, há uma fotografia dele ainda bebê vestido como mulher, algo que seria até comum para o período. A mãe, Grace, no entanto, criou o escritor e a irmã Marcelline (1 ano e 6 meses mais velha) como se fossem gêmeos, alternando entre os gêneros.

Hemingway nunca abandonou essa ambiguidade, segundo a biografia, e jamais conseguiu definir ou entender como se sentia. Ao jornal espanhol El País, Dearborn rechaçou a hipótese de que o escritor, no entanto, fosse um homossexual reprimido.

“Foi indubitavelmente queer (de gênero ambíguo). Superou, se preferirem, o fato de se definir como gay. Inverteu as expectativas existentes sobre a identidade e o comportamento de homens e mulheres”, disse. Na intimidade, o escritor teria se aproximado do que se chama de fluidez de gênero hoje.

Todas essas questões teriam culminado na formação da personalidade pública excessivamente viril e masculina. É notório que Hemingway foi extremamente machista e abusivo nos casamentos que teve. Uma de suas esposas, a escritora Martha Gellhorn declarou, depois da separação: “Um homem precisa ser um grande gênio para se constituir como um ser humano tão repugnante”.

Como pai

Hemingway tinha uma relação complicada com o filho mais novo, Gregory. O garoto começou a se vestir como mulher, segundo Dearborn, aos 13 anos e mudou de sexo aos 63. Gregory enfrentou forte resistência da família, mas, mesmo assim, se definiu como mulher e adotou o nome Gloria. Tragicamente, morreu em 2001 sozinha em um Centro de Detenção em Miami.

A questão de identidade de gênero de Gregory claramente estava relacionada ao pai, para Dearborn. Hemingway queria uma filha e disse isso a Gregory diversas vezes, especialmente quando estava de mau humor.

Saúde

A biografia também aborda temas como a preocupação do escritor com a saúde. Hemingway mantinha tabelas com registros diários da pressão sanguínea e das calorias consumidas. Além disso, pesava-se várias vezes ao dia e mantinha frascos cheios com a própria urina.

Para a biógrafa, esse comportamento obsessivo era uma forma que o autor encontrava para tentar lidar com problemas mentais. Por causa disso, tomava uma série de remédios.

O livro também enfatiza a predisposição genética para as doenças mentais. Toda a família dele sofreu com algum problema. Tudo isso foi intensificado pelas experiências na guerra, o alcoolismo, as questões de identidade e lesões cerebrais que sofreu durante a vida.



752
Páginas da biografia



1961
Ano da morte do autor
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