Cinema

Estreias da semana trazem produções de diretores da nova geração

Nas telonas, eles despontam com imensos desafios, em filmes como 'Olhando para as estrelas' e 'Invisível'

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postado em 09/11/2017 07:33 / atualizado em 08/11/2017 19:17

Reprodução / Internet
 
 
Tímida e com confiança difícil de ser conquistada, a jovem Thalia Macedo, a partir dos 14 anos, ganhou a companhia regular de uma câmera de cinema. Pouco importava que, pela deficiência visual, não viesse a desfrutar, com a plenitude, o resultado final da exposição no documentário Olhando para as estrelas, estreia de hoje, com a assinatura de Alexandre Peralta. Numa realidade dinâmica, cultivada pela jovem, não há espaço para lamúrias: ela lança livros, finaliza, atualmente, um curso de direito em São Paulo; além de ser um modelo de perseverança, como uma das alunas mais destacadas da Associação de Ballet e Artes para Cegos Fernanda Bianchini, mantida em São Paulo.
 
 
 
“Na escola regular, Thalia sofria, com um bullying sutil. Aliás, a escola sempre foi um desafio para ela, por ela ser ignorada por todos. Era o pior que podia acontecer: capaz, ela via o maior dos dilemas, na jornada dela, sendo bastante subestimada. Mas, no filme, Thalia vai encontrando o seu espaço — sem impor nada”, ressalta o cineasta Peralta. Conquistar a autonomia é um dos maiores desafios da moça, com as colegas retratadas no filme que incrementa uma lista de roteiros com proposições e barreiras destinadas a personagens jovens, da qual fazem parte títulos em cartaz na cidade, como o argentino Invisível e o nacional Gabriel e a montanha (leia entrevistas com os diretores).
 
Aos 32 anos, o diretor Alexandre Peralta (de Olhando para as estrelas) tem no currículo feitos importantes, por causa do filme: com o retrato da associação de ballet para cegos, obteve o Student Academy Award (dado pelos votantes do Oscar) e viabilizou apresentações internacionais para dançarinas, no Dance on Camera (da Film Society of Lincoln Center, em Nova York) e no Festival de Cinema de Los Angeles.
 
“Percebo que é um documentário emocional; não é racional. Fugi da ideia de colocar especialistas dizendo como dançar é difícil, e, mais ainda, na condição dos cegos. Tive cuidado, porém, para saber até onde ir, sem acentuar dramas. Quis um filme para ser sentir como um balé. Desbravamos, em um ano de pesquisa, o entendimento da linguagem. Buscamos integrar uma narrativa, sem palavras, ao filme”, conta o cineasta. A trajetória cinematográfica do grupo que se apresentou nas Paraolimpíadas de 2012 (em Londres) conta com um aparato de acessibilidade: com aplicativo sincronizado por smartphone, ganhou versão de audiodescrição.


Cinco perguntas // Fellipe Barbosa, diretor de Gabriel e a montanha

Autor de Casa grande, longa muito elogiado pela crítica, há três anos, e o novo Gabriel e a montanha, sucesso até no circuito francês, o carioca Fellipe Barbosa, assume que nunca se imaginou como porta-voz do cinema jovem brasileiro. “Nunca preparei um filme com isso em mente. Mas, de fato, meus dois últimos protagonistas são jovens”, observa. Vendo o público do mais recente longa (em cartaz, depois de exibido no Festival de Cannes), Barbosa crê tocar profundamente os jovens que têm espírito aventureiro, “aqueles que querem sair da bolha, se aventurar”. Na tela, uma empatia natural emana da tela, com a interpretação de João Pedro Zappa para o protagonista, um turista brasileiro que morreu na África, em 2009.
 
“Quero muito que o filme chegue ao público com coração e espírito jovens. Eles transformam o impacto do filme, pela tendência de se apegar ao personagem. Dá muito ânimo passar essa experiência ao público”, analisa o diretor, aos 37 anos. O próximo projeto do diretor, que começa a ser filmado na próxima semana, é sobre uma família enorme: será Domingo, com imagens em Pelotas (RS). O roteiro é de Lucas Paraízo (coautor de Gabriel e a montanha), em nova parceria com Barbosa, junto com o russo Kirill Mikhanovsky. “É um roteiro muito baseado na infância do Lucas, nas memórias de infância. O longa se passa em um churrasco de ovelha, numa família decadente”, adianta. O pano do fundo coincide com a posse de Lula, em 2003. Em cena, como protagonistas, estarão Camila Morgado e Ittala Nandi (na pele da matriarca).
 

Você ficou satisfeito com a repercussão de Gabriel e a montanha no exterior e em Cannes?

Fiquei muito feliz, em Cannes: o filme recebeu dois prêmios de juris distintos. O longa foi muito bem acolhido pela crítica francesa, foi destaque na Cahiers du Cinéma, teve uma crítica belíssima da revista Positif, chamada de capa para as críticas do Le Monde e do Liberation, dois dos jornais mais importantes do país. Em oito semanas, chegou a 83 mil espectadores — o que é magnífico e raro para um filme brasileiro. Realmente, estou muito feliz.

Qual o maior aprendizado, na sua jornada particular que refaz o percurso empreendido por Gabriel?

Preciso de mais tempo para elaborar e decifrar meus verdadeiros aprendizados. Mas eu aprendi muita coisa ao longo das minhas viagens pela África, aprendi muito sobre o espírito hospitaleiro dos africanos, a capacidade de compartilhar o pouco que têm, uma alegria muito grande em dividir. Sempre me tocou muito a relação deles com a morte; falam dela, com um sorriso no rosto, como se fosse algo natural que eles estão vencendo. Eu tentei muito me imbuir desse espírito no filme — olhar para a morte do Gabriel com um sorriso no rosto, assim como a África olha. Não toda a África, não é uma generalização, mas principalmente a partir das viagens que fiz, a oeste do Lago Vitória, descendo Uganda, Ruanda, Burundi. Aprendi sobre como é relativa a pobreza: ela não existe, até o rico ou alguém de classe média chegar. Quem somos nós para dizer que alguém é pobre, quando a pessoa tem chinelo para calçar, comida na mesa e uma escola para ir? Aprendi muito sobre as inúmeras vantagens e riscos de viajar sem medo, com o peito aberto, com muita fé, uma certa fé no destino mesmo.

Como foi a sondagem junto à família?

Estou em contato com a família do Gabriel desde 2009, quando ele desapareceu. Tentei ajudar dentro do possível, junto com os amigos. E expressei meu desejo de tentar contar a história, até pela minha relação com a África. Eu já tinha ido para Uganda em 2007, tive uma conexão muito forte com o e-mail que o Gabriel escreveu de Uganda para a família, e-mail esse que aparece no filme. Ele descreveu um desejo de ficar na África, desejo que eu tive também. Acho que essa minha experiência na África deu legitimidade para eu fazer o filme. Eu e Gabriel não éramos tão próximos, mas gostávamos muito um do outro. Acredito que o ciclo se fechou na sessão no Festival do Rio, que teve muitos amigos e familiares do Gabriel presentes. Muitos me abraçaram, chorando, dizendo que reconheceram o Gabriel ali.

De onde veio a força de não elaborar tão somente um cinema de homenagem a um amigo, e demonstrar também, no filme, as falhas dele?

Difícil dizer de onde veio essa força. Mas eu acho que faz parte de mim. Não me interessava fazer um filme sobre um cara idealizado, sobre um santo, e não interessaria ao Gabriel também. Talvez a força tenha vindo da família dele, que abriu os arquivos, abriu as histórias e os corações. Mas ninguém estava interessado que eu criasse um santo — era uma preocupação, inclusive, mostrar ele como um ser humano complexo, com imperfeições. O Gabriel dizia para a mãe Fátima que "os santos são muito chatos". Apesar disso, posso dizer que o Gabriel tinha uma ligação muito forte com São Francisco, com a história dele de peregrinação, desapego.

Em que sentido?

O filme trata muito sobre essa qualidade: Gabriel vai se despindo dos seus apegos, até desapegar do próprio corpo, no caso, desaparecer na natureza, se camuflar com a natureza, se transformar na natureza, na busca de algo puro. A maneira mais justa de homenageá-lo é não transformá-lo num santo, é olhar para ele de frente e perceber que os erros dele e as contradições dele poderiam ser minhas também. O 
Gabriel é um espelho para mim, por mais que eu tenha viajado para a África antes dele, eu não tinha coragem de fazer a viagem tão radical e tão absoluta como ele fez. Achava que seria mais justo, no filme, confrontá-lo com todas as suas multiplicidades. O Gabriel conjuga características que a gente julga excludentes, mas podemos ser tão altruístas quanto egoístas, tão humildes quanto arrogantes. Acho que o amor verdadeiro olha nos olhos, ele compreende os defeitos e imperfeições e ainda assim consegue amar o outro. Foi esse o movimento que tentei fazer com o Gabriel.
 
 

Três perguntas // Pablo Giorgelli, diretor de Invisível

Há 30 anos, na maior parte das férias, o diretor argentino Pablo Giorgelli tem vindo ao Brasil. Entre diversões, trabalha — como na apresentação do programa de entrevistas Janelas abertas. “Não apareço em quadro: são mais interessantes as repostas dos entrevistados do que as minhas perguntas”, exagera. Sob esta ótica, de atenção ao próximo, ele construiu o longa Invisível, em cartaz, a partir de hoje. Depois de tratar do conflito com a paternidade vivido por caminhoneiro (em Las acacias), Pablo retorna ao tema da família: uma jovem está na sinuca de bico de gravidez inesperada. 

 
“É meu segundo filme e me sinto, algo, como principiante. Não mais um jovem, aos quase 50 anos, mas me vejo como um diretor adolescente”, diverte-se. Naturalismo, cineastas romenos, neorrealismo italiano e realismo indiano comovem Pablo, enquanto espectador. “Depois de Las acacias, tive duas filhas, minha mãe está envelhecendo, há 10 anos, perdi meu pai, e minha família está repleta de mulheres! Tenho sogra, cunhada — quase não temos homens mais”, explica sobre a atenção concentrada em Ely, protagonista de Invisível. Cercado por tantas mulheres, o argentino poém desencoraja comparação com o cinema de Almodóvar. “Não me sinto tão próximo dele. Trasfondo, meu próximo filme, terá 30 homens esprimidos dentro de um submarino, e se passa durante a Guerra das Malvinas”, arremata.

 
Por que apostou em Invisível?

 
Meus filmes são feitos com o atravessar um processo no qual tento descobrir a forma da narrativa. O trajeto de Invisível me conectou com a minha própria adolescência. No filme, desponta o bairro em que fui criado La Boca. O conteúdo pessoal e a realidade, claro, interferem nos meus filmes. Um assunto e uma perspectiva recorrente na adolescência está ligada à identidade. É quando descobrimos quem somos e o que queremos. No caminho, vem certa solidão, algo de desamparo. Há um sentimento de perda, com isso, e é nele que deposito o desenvolvimento do filme.

Tanto silêncio cerca a protagonista...

Tudo está na impossibilidade de ela se conectar com um mundo adulto, que desaparece. A escola não se apresenta, o Estado não a enxerga e o mesmo se passa com a instituição do hospital, a qual recorre, sem ser vista. O coração do filme está justamente na impossibilidade de que ela venha a se comunicar. A relação familiar sempre motiva meus filmes. Os vínculos despertam meu interesse. Enquanto realizava o filme, percebi o ciclo pré-aborto (ou não) que acompanha a protagonista. Ely pode vir a repetir uma história experimentada pela mãe.

Ely é dispersiva. Os jovens se apresentam, num crescente, assim?
 
Não é tão diferente de quando nós estivemos nos colégios. Tenho a impressão de que, à época, estive bastante distraído. É realmente uma etapa difícil. Noutra dimensão de invisível, me interessou contar foi o contexto social, político e econômico. Tudo influi diretamente na vida de Ely. Ela vem de classe popular, trabalhadora, opera numa instância em que o capitalismo tem se mostrado mais duro. Há falta de oportunidades, desigualdades, que atingem os jovens. É algo em medida global, mas mais presente na América Latina. É um sistema que gera deprimidos, gente que não sabe como se livrar de impasses. É uma verdadeira armadilha.


Estreias da semana 

Junto com estreias dos longas documentais No intenso agora (de João Moreira Salles) e de Uma verdade mais inconveniente (que reúne Al Gore e a crise de clima planetário), além da ficção baseada em bastidores reais de um torneio de tênis oitentista (Borg vs. McEnroe), filmes de personalidades consagradas alcançam o circuito de cinema local. Confira:
 
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Vazante
 
Polêmico, no pré-lançamento feito no Festival de Brasília, o longa de Daniela Thomas conta do contato de uma jovem branca com a dura realidade de um país escravocrata e patriarcal, no século 19.
 
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O outro lado da esperança
 
Premiado pela melhor direção, no Festival de Berlim, o finlandês Aki Kaurismäki conta do encontro de um cinquentão que apadrinha, sem muita vontade, um refugiado sírio. 
 
Gosto se discute 

André Pellenz assina a comédia em que os personagens de Kéfera Buchmann e de Cassio Gabus Mendes se veem às voltas com frigideiras e caçarolas, na trama de um chefe obrigado a se reinventar.
 
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