Teleport city: Instalação de Gabriela Bilá reflete sobre mobilidade urbana

Em instalações no Museu da República e na Rodoviária, a artista debate como a tecnologia é, ao mesmo tempo, fonte de problemas e soluções

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postado em 11/11/2017 07:30

Naiara Pontes/Divulgação

Gabriela Bilá é formada em arquitetura e sempre se preocupou com a mobilidade urbana. O tema, ela explica, permeia boa parte dos projetos de arquitetura e costuma ser uma questão de difícil resolução. Por isso, ela quis imaginar uma solução radical: e se o teletransporte fosse uma realidade acessível às massas? Os problemas da humanidade relativos ao transporte estariam acabados? Ou surgiriam novos problemas, inimagináveis?


Com essas perguntas na cabeça, Gabriela montou a exposição Teleport city, espaço de interação entre público e obras que simulam um mundo no qual o teletransporte seria uma realidade. A artista criou cinco instalações nas quais o visitante pode experimentar situações que remetem às perguntas motivadoras das obras. Para trazer o trabalho para a realidade, ela montou o Telepod, uma das instalações, entre as duas escadas rolantes da plataforma inferior da Rodoviária.

Durante a última quarta, os passageiros que passaram pelo local puderam visitar a instalação e refletir um pouco sobre como seria a mobilidade urbana caso o teletransporte fosse possível. “Seria bom demais”, diz a dona de casa Conceição Batista Araújo, 48. “Nosso transporte é muito difícil, cheio demais.” Ela e o marido, o sapateiro aposentado Moacir, 56, moram em São Sebastião e vão ao Plano Piloto de vez em quando. “Passamos mais tempo na parada do que dentro do ônibus. Mas a tecnologia está em evolução e os cientistas são magníficos, podem resolver esse problema”, acredita Moacir.

O estudante Rian Salomão, 23, mora no Guará, utiliza o transporte público todos os dias e avalia a mobilidade de Brasília como uma das piores que conhece. “Já experimentei transporte público em outras cidades e o de Brasília é um retrocesso. Era para ser acessível, mas não é, falta linhas e outros meios. O próprio metrô tem apenas duas linhas que ligam poucas cidades”, lamenta.

Barbara Cabral/Esp.CB/D.A Press


Para o estudante de engenharia Gabriel Victor Souza, 24, o problema da mobilidade urbana no Brasil é cultural. Ao excesso de carros em Brasília e à baixa qualidade do transporte público, soma-se um hábito ruim. “Na Europa, as pessoas não têm problema em pegar o transporte público. Mas aqui, a classe média não quer pegar de jeito nenhum”, compara o estudante.

Rian e o amigo Pablo Henrique, 20 anos e também estudante, fizeram questão de entrar no Telepod de Gabriela Bilá. No interior da instalação, o visitante é fotografado antes de escolher um destino em uma tela com o mapa-mundi. Uma vez escolhida a cidade ou região, a tela exibe um pequeno filme de videoarte criado pela artista para simular imagens do local selecionado. Pablo escolheu o teletransporte para Madri. “Porque gostaria de conhecer, pela cultura e pela arquitetura. Mas achei um pouco diferente do que vi de imagem de lá”, conta o rapaz, que mora em Samambaia e gasta, pelo menos, três horas por dia dentro do ônibus. “Esse trabalho me lembrou muito De volta para o futuro, a gente fica imaginando como seria se fosse verdade.”

As fotografias tiradas dentro do Telepod vão alimentar uma conta no Instagram (teleportfaces) que servirá como espaço de documentação do trabalho. A intenção de Gabriela é ressaltar, de forma poética e metafórica, as questões que envolvem a mobilidade urbana em Brasília. A ideia do trabalho surgiu quando a artista decidiu abandonar o carro e passar a se locomover de ônibus e bicicleta.

Barbara Cabral/Esp.CB/D.A Press
“Nossa relação com a cidade muda quando passamos a deixar de dirigir. Altera sua percepção. Temos um problema sério de mobilidade em Brasília. Seria uma cidade perfeita para ter um transporte ótimo porque é plana e tem uma malha racional até nas cidades satélites. Mas parece que não tem interesse de que isso se desenvolva. Tudo que é feito de melhoria de infraestrutura é sempre em função do carro”, lamenta Gabriela. E a metáfora do teletransporte, ela acredita, é perfeita para a cidade. Ao se deslocar de carro, o passageiro se movimenta de ponto a ponto, não contempla nem flana e acaba por ficar menos suscetível ao acaso. “Ele não acontece porque você sempre sabe o seu destino”, repara a artista.

Telepod City

Exposição de Gabriela Bilá. Abertura em 14 de novembro, terça-feira, às 19h, na Galeria Térreo do Museu Nacional da República (Setor Cultural Sul). Visitação até 5 de dezembro, de terça a domingo, das 9h às 18h30.
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