Símbolo de contestação no passado, letras do rock perderam força

O gênero perde espaço e vê outros estilos, como o rap, ocuparem esse lugar

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postado em 12/11/2017 07:00 / atualizado em 10/11/2017 18:00

Arquivo CB/Divulgação

 
Se o som distorcido das guitarras ainda balança estruturas, as palavras murcharam. Símbolo da contestação e de letras fortes em décadas passadas, o rock and roll ficou comportado e perdeu voz. O ritmo que, no Brasil, foi responsável por gritos de ordem que não envelhecem (como “Que país é esse?” e “Brasil, mostra sua cara”) hoje fala, em geral, de amenidades. Os rebeldes compositores foram trocados por bons moços (para quem a imagem vale mais que o discurso) e o rock perdeu espaço para outros ritmos.

“O rock deixou de ser a linguagem da inquietação juvenil, processo, nos últimos tempos, assumido pelo hip-hop”, a declaração, dada em entrevista, é de Frejat. De acordo com o parceiro de Cazuza (um dos maiores poetas do rock nacional), a vontade de dizer algo e de mudar o mundo com a música não pertence mais ao rock. “O rap ocupou as conversas sobre os fatores socioeconômicos, as reivindicações da periferia... Tem servido como agente político e ideológico, como já foi o rock”, completou.

“De fato, o rock amenizou-se em termos de veemência”, declara o musicólogo brasileiro Ricardo Cravo Albin ao Correio. Para o pesquisador, Renato Russo e Cazuza foram os únicos poetas fortes e definidos em termos de intensidade na história do rock brasileiro. “A meu ver, os outros não chegaram aos pés desses dois, que qualificaram o rock, embora o ritmo sempre tenha sido mais fraco do que a MPB clássica em termos de mensagem. Até porque, além dos dois poetas citados, o rock não teve nomes do porte de Vitor Martins, Chico Buarque e Aldir Blanc. E também nunca mais se teve algo igual a veemência de um ‘Brasil, mostra a tua cara’, com essa força de protesto”, completa.

Provocação 

As falas de Frejat e Cravo Albin não divergem muito de palavras ditas por Roger Daltrey, vocalista do The Who, ao The Times. Ícone do rock, Daltrey mostra que a questão é mundial e também acredita que o rock perdeu relevância para o rap. “O que me deixa triste é que o rock já está morto… As únicas pessoas que dizem algo que realmente importa são os rappers. A maioria daquilo que é feito na música pop é descartável e esquecível”, disse. Ano passado, o cantor Paulo Ricardo, vocalista da RPM, fez uma análise parecida em entrevista ao Correio: “O hip-hop vem crescendo muito e tomou o lugar do rock como um gênero inquieto, com letras fortes.”

Tecladista da banda Skank, o músico Henrique Portugal admite que o rock nacional, principalmente a vertente mais pop, passou por mudanças e, com os anos, foi perdendo a veia mais política e social em sua mensagem. “As letras de cunho social, praticamente, desapareceram. Mas acho que isso tudo é cíclico. Há três anos, as pessoas não estavam preocupadas com letras críticas e assuntos mais sérios. No nosso álbum, chamado Multidão (2014), fizemos referências às manifestações de 2013”, lembra.

Na própria Multidão, que tem parceria de BNegão, o grupo mineiro canta: “Chega de sermos cidadãos esmagados/ Oprimidos e violentados pelo Estado/ Vampirizados pela maior parte da classe dominante,/ Esses sim, os verdadeiros terroristas/ Que tudo fazem pra se manter no poder, numa guerra suja/ Enquanto a população real luta pra sobreviver”.

Mas onde está a provocação na música brasileira? Ricardo Cravo Albin é taxativo: no rap e no funk. “Acho que a gente acabou perdendo isso. O contestador ficou na linha de Gabriel, O Pensador e alguns seguidores. E de uma forma mais provocativa no funk, que, a meu ver, é excessivo e menos qualificado. É uma provocação erótica, pornográfica, mas não deixa de ser uma provocação”, acrescenta.

As vozes de hoje

Se o rock deixou de contestar e de abordar o cotidiano do país e da sociedade, outros nomes da música contemporânea, em diferentes ritmos, também escrevem letras em que a poesia é uma forma de debater temas como política, racismo, drogas e desigualdade.

O rapper Emicida é um desses exemplos. A questão racial é um dos assuntos que são tratados com mais veemência nas composições, como em Boa esperança: “E os camburão o que são?/ Negreiros a retraficar/ Favela ainda é senzala, Jão!/ Bomba relógio prestes a estourar”.

Ainda dentro do rap, Criolo também usa as canções para refletir sobre o mundo das drogas, as mazelas da periferia e criticar os que estão no poder. “Cá pra nós, e se um de nós morrer/ Pra vocês é uma beleza/ Desigualdade faz tristeza/ Na montanha dos sete abutres”, canta em Duas de cinco.

Bebendo do rock e de outros gêneros, o grupo Baiana System se tornou símbolo de resistência quando o assunto é fazer letras que ainda têm o poder de refletir e contestar. Um dos exemplos é a canção Lucro (Descomprimindo), que critica o avanço predatório da construção civil. “Tire as construções da minha praia/Não consigo respirar/ As meninas de mini saia/Não conseguem respirar/Especulação imobiliária/ E o petróleo em alto mar/ Subiu o prédio eu ouço vaia.”
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