Clube do Choro lança projeto para rastrear as singularidades do gênero

A proposta é mapear os 'diferentes sotaques' do estilo musical

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 21/11/2017 07:30

Debora Amorim/Divulgação

Mais do que nunca capital do choro. Entre este mês e dezembro, Brasília vai sediar a primeira edição do Brasil de Todos os Choros – Origens, Sotaques, Encontros e Caminhos, projeto que se  propõe a fazer um mapeamento inédito dos diferentes sotaques do seminal estilo musical em cada região do país, suas histórias, influências e peculiaridades.


Compositores e intérpretes convidados vão fazer shows, palestras e oficinas, para mostrar as características do choro em seus estados de origem, numa abordagem orgânica e sistematizada de um conteúdo que até hoje é conhecido apenas empiricamente. Para chegar ao formato do evento, o presidente do Clube do Choro, Henrique Santos Filho, o Reco do Bandolim, e sua equipe de produção fizeram pesquisa nos lugares em que essa expressão artística, tipicamente brasileira, se desenvolve.

“Além de levantar a história do choro no país, o projeto busca a reafirmação da pujança e criatividade desse gênero musical pioneiro, que caminha para completar 150 anos”, salienta Reco do Bandolim. Para tanto, foram convocados músicos das regiões Norte, Nordeste, Sudeste e Sul. Eles vão criar, em vários encontros, um diversificado painel do choro, justamente no espaço que virou referência nacional e internacional do chorinho.

Os participantes do evento são o violonista paraense Sebastião Tapajós, o saxofonista pernambucano Spok, o bandolinista baiano Armandinho Macedo, o pianista mineiro Wagner Tiso, o violonista carioca Maurício Carrilho e clarinetista carioca Paulo Sérgio Santos, o bandolinista paulista Danilo Brito, o violonista gaúcho Luiz Machado, além do violonista Henrique Neto e o bandolinista Dudu Maia, ambos brasilienses.

Gênese da música popular brasileira, o choro no, entendimento de Reco, não tem o merecido espaço na grande mídia. “Enquanto nos Estados Unidos, em todos os grandes acontecimentos o jazz é sempre ouvido; no Brasil, o choro é relegado a um plano secundário, principalmente na grande mídia, da qual é sempre escanteado, mesmo sendo um dos mais importantes braços da cultura nacional”, critica.

Para ele, iniciativas como o Choro na Escola – projeto que foi desenvolvido pelo Clube do Choro no decorrer deste ano – e o Brasil de Todos os Choros, deveriam ser colocadas como política de estado. “Em tempos de globalização, a cultura é o que distingue os povos; é o que nos faz diferenciar de outros países”.

Sotaque nortista


Quem abre a programação do projeto, nesta terça-feira (21), é Sebastião Tapajós. Inicialmente, às 17h, o violonista paraense faz uma palestra; e, na sequência, às 18h30, comanda uma oficina aberta ao público e com entrada franca. Às 20h, ele faz show acompanhado por Igor Capela (violão 7 cordas), Andresson Dourado (piano), Daniel de La Tuch (trompete) e Márcio Jardim (percussão).

“Meu contato inicial com o choro foi na infância, ouvindo Pixinguinha, Waldir Azevedo, Garoto, Altamiro Carrilho na GYR9 Rádio Clube de Santarém, na minha terra natal. Ficava ali de butuca”, lembra. “Mais tarde, morando no Rio de Janeiro, tive contato com grandes instrumentistas do gênero. Eu me recordo de um show que fiz, tendo como convidados Billy Blanco, Maurício Einhorn, Gilson Perazetta, Joel do Bandolim, Nilson Chaves e Ney Conceição. Fiz muitas gravações com o Peranzetta”, acrescenta.

Bia Parreira/Divulgação


Tapajós diz que o choro que é feito no Pará tem sotaque nortista, “sem pausa, como o originário do Rio de Janeiro, por exemplo. Belém tem a sua Casa do Choro, que funciona no bairro de Jurunas, que costuma receber músicos da cena nacional que nos visitam. Já passaram por lá, entre outros, Yamandu Costa, Hamilton de Holanda e Arismar do Espírito Santo. O nome mais destacado do choro paraense é Adamo do Bandolim, com alguns discos gravados”, conta.

Violonista com carreira internacional, Tapajós tem 60 títulos em sua discografia. Boa parte deles foi  lançada na Alemanha, onde esteve radicado na década de 1990. “Alguns dos meus discos trazem choros de minha autoria, mas num deles homenageei dois grandes maestros: Radamés Gnattali e Guerra Peixe, que saiu em 1998. Quatro anos depois lancei o Choros e valsas, de produção independente”.

Muito improviso


Pianista, maestro e compositor e arranjador mineiro, Wagner Tiso é a segunda atração do projeto. Na quarta-feira, ele cumpre toda a programação elaborada pelo Clube do Choro, que inclui palestra e oficina na parte da tarde, e show, às 21h, na companhia de Márcio Mallard, violoncelista com quem tem se apresentado com frequência ultimamente.

“Cresci num ambiente musical. Nas reuniões da família, em Três Pontos ouvia-se um pouco de tudo, inclusive choros. Quando cheguei a Belo Horizonte com o Milton (Nascimento) e fomos tocar na noite, o que predominava era a bossa nova e o jazz”, revela. “ Mas, assim como o jazz, há muito improviso no choro. Basta ouvir gravações de Pixinguinha, Paulo Moura e, em especial, Radamés Gnattali”, complementa.

Já no Rio de Janeiro, Wagner se aproximou do grupo de choro Água de Moringa e do regional do violonista Henrique Cazes. “Compus alguns choros para orquestra, entre os quais Aos velhos amigos, Chorava e Choro de mãe, que foram gravados pelo pianista cubano Gonçalo Rubalcaba e pelo pianista brasileiro Arthur Moreira Lima”, frisa.

Um dos fundadores do Clube da Esquina, Wagner diz que já tocou várias vezes no Clube do Choro de Brasília, “onde recebo sempre ótima acolhida do público. Retornar agora para tomar parte de um projeto que mapeia o choro no Brasil me dá um grande prazer. Eu e o Malard vamos recriar temas compostos por Tom Jobim, Jacob do Bandolim e outros compositores que se dedicaram ao choro”, anuncia.

Com 30 discos lançados e 33 trilhas sonoras, criadas para o cinema, a televisão e o teatro, o compositor está debruçado sobre um novo projeto. “Nesse trabalho, vou reunir temas criados para trilhas como as dos filmes Os deuses e os mortos (Ruy Guerra), Inocência (Walter Lima Júnior), Jango (Silvio Tendler) e O grande mentecapto (Oswaldo Caldeira), das séries e tevê O Primo Basílio e O sorriso do lagarto; e da peça Poema sujo, de Ferreira Gullar”, antecipa.

Brasil de Todo os Choros – Origens, Sotaques, Encontros e Caminhos
Abertura nesta terça-feira (21/11) com palestra de Sebastião Tapajós, às 17h, oficina, às 18h30, com entrada franca; e show, às 21h, com ingresso a R$ 40 e R$ 20 (para os participantes do projeto). As incrições podem ser feitas na secretaria do Espaço Cultural do Choro (Eixo Monumental). Não recomendado para menores de 14 anos. Informações: 3225-1199 e 3226-3969.

Programação

Quarta (22/11) – Wagner Tiso
Dia 28 – Danilo Brito
Dia 29 – Armandinho Macedo
Dia 5 de dezembro – Spok
Dia 6 – Luiz Machado
Dia 22 – Maurício Carrilho, Paulo Sérgio Santos, Henrique Neto e Dudu Maia
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.