Caetano Veloso fala com exclusividade ao Correio sobre o show de sábado

Além disso, o cantor e compositor baiano também conta um pouco de sua trajetória

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postado em 02/12/2017 07:30

Jorge Bispo/Divulgação

Depois de cumprir o ciclo do Cê, entre 2006 e 2014, acompanhado por banda de jovens músicos, que gerou três discos, incontáveis shows e alguns prêmios — o Grammy Latino entre eles — Caetano Veloso participou de dois novos projetos. Comemorou o centenário de música, dele e de Gilberto Gil, com turnê pelo Brasil e exterior; e fez ainda uma série de apresentações, inclusive em países da Europa, Ásia e nos Estados Unidos, com a cantora Teresa Cristina. Agora, desde 3 de outubro, está ao lado dos rebentos no espetáculo Caetano Moreno Zeca e Tom Veloso.

Inquieto, o eterno tropicalista conta que há muito tempo tinha vontade de fazer música com os filhos publicamente e lembra que, na infância dos três, sempre cantou para eles dormirem. “Moreno e Zeca gostavam. Tom pedia que parasse. Indo por caminhos diferentes, todos se aproximaram da música a partir de um momento da vida. Quis cantar com eles pelo que isso representa de celebração e alegria”.

Após estrear no Rio de Janeiro e passar por São Paulo e Belo Horizonte, o show — registrado em DVD, com lançamento previsto para 2018 — chega a Brasília, onde sábado (2/12), às 21h, ocupa o palco do auditório master do Centro de Convenções Ulysses Guimarães. Durante uma hora e meia, os quatro passeiam por um repertório de 28 canções. A maioria, obviamente, é de autoria do patriarca, mas há também contribuição dos filhos, por exemplo: Um canto de afoxé para o bloco do Ilê.

Há as sugeridas pelos filhos, outras remetem a momentos marcantes da trajetória artística e da vida de Caetano. A marchinha tropicalista Alegria, alegria, finalista do Festival da Record de 1967, apresentou o artista ao Brasil, foi solicitada por Moreno. Já, o pouco conhecido tema religioso Ofertório foi composto em 1997, a pedido da irmã Mabel, para a missa comemorativa aos 90 anos de Dona Canô, a saudosa matriarca dos Veloso.

Ney Coelho/Divulgação


No set list foram incluídas ainda a inédita Todo homem (Zeca Veloso), O seu amor (Gilberto Gil), Deusa do amor (Adailton Poesia e Valter Farias) e Tá escrito (Xande de Pilares, Carlinhos Madureira e Gilson Bernini). Reverente, Caetano destaca: “O show é dedicado às mães dos meus filhos e à memória de minha mãe”.

Repertório

Alegria alegria 
O seu amor
Boas vindas
Todo homem
Gennipapo absoluto
Um passo à frente
Clarão
De tanto voltar
A tua presença morena
Trem das cores
Um só lugar
Alexandrino
Oração ao tempo
Alguém cantando
Reconvexo
Você me deu
O leãozinho
Gente
Sertão
Não me arrependo
Um canto de afoxé para O bloco Ilê
Força estranha
How beautiful could a being be
Canto do povo de um lugar
Um Tom
Deusa do amor 
Tá escrito

Entrevista / Caetano Veloso


A ideia do Caetano Moreno Zeca Tom Veloso surgiu quando, como e por quê?
Faz uns três anos, comecei a pensar nisso. Há dois anos exatamente, era um plano em minha cabeça. Eu tinha feito aquele show com Moreno no Sesc de São Paulo e tinha sido maravilhoso pra mim. Zeca e Tom tendo crescido e começado a lidar com música também, quis fazer com os três. Primeiro não dava. Falei só com Paulinha (Lavigne), mas Tom estava começando na (banda) Dônica e ela não queria que eu criasse um projeto que podia atrapalhar. Passado um tempo, a Dônica já estabelecida, ela me disse que até poderia ser. Falei com Zeca. Ele me disse que não queria, que eu fizesse com Moreno e Tom. Eu: nem pensar. Um dia ele foi à casa da mãe dele e disse que estava pensando em aceitar. Quando ela me disse, fiquei feliz e pedi a ele que fosse à Bahia falar comigo. Só então falei com Moreno e com Tom. Aí tudo começou a andar. Quis isso porque eles são a coisa que mais amo no mundo e eu intuía que seria preciso um exercício de luz nesses tempos e na minha velhice.

Esse “nepotismo do bem”, como sugeriu Nelson Motta, provoca que tipo de sentimento?
Felicidade e aprofundamento da experiência da vida.

A jovialidade dos seus parceiros de palco — a exemplo do ocorrido na trilogia do Cê — com Pedro Sá, Marcelo Callado e Ricardo Dias Gomes — lhe instiga até que ponto?
Adoro estar com Pedro, Ricardo e Marcelo, mas estar com meus filhos não é só música. Ou melhor (porque estar com os outros três tampouco é só música), estar com meus filhos nem é música. É vida e alguma coisa mais.

Houve um consenso para a escolha do repertório?
Chegamos a um consenso. As possibilidades eram muitas. Mas terminamos escolhendo certo. Tem uma parceria minha com Tom que terminou não entrando e eu sinto saudade dos ensaios por causa dela. Mas o essencial está lá. Tem coisas que não estavam no meu plano, como Alegria, alegria, que Zeca insistiu em pôr no roteiro, ou O seu amor, que Tom pediu. Moreno tinha pedido Quando o galo cantou, mas as canções se centraram mais em temas de laços familiares, de história da origem da nossa gente, de convivência.

Qual foi o critério de escolha das canções?
O gosto e a adequação à situação especial.

Em recente participação no programa Altas horas, você dividiu a interpretação de A luz de Tieta com Tatau, Ninha e Reinaldo, que estão reunidos no projeto Axé 90 Graus. Ao contrário de boa parte da crítica, que sempre viu a axé music como algo menor, esse gênero musical sempre teve a sua acolhida. Como vê o preconceito também nesse segmento?
Sou louco pela música de carnaval da Bahia. É uma história que vem desde os Filhos de Gandhi e Dodô e Osmar até os discos de Igor Kannario, os desfiles do Psirico e o Baiana Sistem. Com Danielas e Ivetes pelo meio. E Moraes Moreira no início de toda a nova fase que veio a ser apelidada de “axé”, primeiro pejorativamente por um jornalista idiota de Salvador, depois como afirmação em âmbito nacional da força soteropolitana.

No seu entendimento, o Tropicalismo, que comemora 50 anos, foi bem assimilado, bem compreendido?
Sim e não. Teve consequência irreversíveis. Conheceu vários estágios de sucesso e prestígio. Também sofreu agressões de vários lados. Muitas vezes foi bem compreendido, muitas vezes foi mal compreendido, muitas vezes nem foi compreendido.

Acredita que o movimento repercute até os dias de hoje?
Sim. Em vários níveis. Desde a reflexão acadêmica até a permanência de alguns temas na memória nacional, passando pelo reconhecimento por parte de artistas mais jovens da música global de ponta.

A ideia do prefácio atualizado da nova edição do Verdade tropical foi refletir o Brasil controverso de agora?
Não. Comecei apenas pensando que iria comentar o livro, seus erros e acertos, e narrar a história que se seguiu a seu lançamento. Mas fui escrevendo sem plano e entreguei um texto fragmentário.

Deste país de “perpétua convulsão” dá para extrair algo positivo?
Há de haver um meio, um jeito, um modo. Vamos ver.

Caetano Moreno Zeca Tom Veloso 
Show de Caetano Veloso e filhos neste sábado (2/12), às 21h, no auditório master do Centro de Convenções Ulysses Guimarães (Eixo Monumental). Ingressos: R$ 80 (poltrona superior), R$ 120 (poltrona especial B),  R$ 140 (poltrona especial A), R$ 170 (poltrona vip lateral), R$ 250 (poltrona vip) e R$ 2.000 (vip lounge/ sofá de quatro lugares, com mesa de centro, incluindo bebidas). Assinantes do Correio têm desconto de 50% na compra de até quatro ingressos inteiros. Não recomendado para menores de 12 anos.
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